Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

LEONISMOS

LEONISMOS

04
Jul16

O mundo sobre rodas de Craig e Lauren


Leonardo Rodrigues

IMG_0912.JPG

 

 

Escreve-se mal acerca da tecnologia e do que a mesma fez às nossas relações. O que esquecemos, muitas vezes, é que somos nós que detemos o controlo sobre estes meios de ligação ao mundo. As imagens sempre me fascinaram e deus sabe como abundam na internet, especialmente em plataformas como o Instagram. Foi por isso que, há 3 anos, me juntei a esta grande comunidade. Houve retorno. Partilhei momentos que decidi congelar e vi os de outros, de todos os cantos da Terra. Para além de me cruzar com imagens que me fizeram parar durante minutos, de expandir os meus horizontes e de ver o mundo antes de o visitar, conheci gente maravilhosa como o Craig e a Lauren. Este casal percorre o mundo numa carrinha, não levam a casa às costas, mas, sim, sobre rodas. Falei com eles e, garanto-vos, as fotos não mentem, são quem mostram ser: duas almas livres com sede de viver com todos os sentidos. As apresentações estão feitas, só falta ler a nossa conversa. 

 

Leonardo Rodrigues: Em poucas palavras, quem são vocês?

Craig e Lauren: Nómadas a explorar o mundo.

 

LR: Antes de irmos ao tema das viagens, como é que vocês os dois se conheceram? Foi amor à primeira vista?

C&L: Conhecemo-nos há cerca de 10 anos atrás, num restaurante italiano onde trabalhávamos os dois. Não foi amor à primeira vista, éramos apenas amigos de trabalho. Foi então que o Craig decidiu ir viajar com um colega enquanto eu fiquei a trabalhar. Quando voltou, 5 meses depois, para juntar dinheiro para outra viagem, tornamos-nos ainda mais amigos e as coisas fluíram a partir daí.

 

LR: Quando é que decidem que estariam melhor na estrada e começam tudo isto?

C&L: Eu queria ter tentado viajar antes com amigos, mas estes cortaram-se sempre, o Craig ficou com o bichinho das viagens após a viagem com o amigo. Juntos decidimos ir para a Austrália, onde poderíamos viajar e trabalhar. Desta forma iríamos ter também a possibilidade de ver a Ásia com o dinheiro ganho. Acabámos por nos ausentar durante vários anos.

 

LR: Como é que conseguem manter este estilo de vida?

C&L: Nós geralmente trabalhamos como empregados de mesa ou de balcão durante 6 meses até um ano, amealhamos e depois gastamos o dinheiro em experiências. Poupámos imenso de forma a comprar uma carrinha para habitar, uma vez que isto significa que não teremos de pagar hotel. Para além disto, podemos sempre vender a carrinha quando terminada a experiência.

 FullSizeRender (3).jpg

LR: Durante os últimos oito anos vocês estiveram um pouco por todo o lado e aposto que, mais do que os sítios fantásticos que vemos nas vossas fotografias, conheceram grandes pessoas. Quem é que teve o maior impacto em vocês? Há alguma história que guardam convosco?

C&L: A maior parte das pessoas memoráveis que conhecemos são pessoas que se cruzam connosco nos sítios onde vamos trabalhando. Fizemos grandes amigos. O nosso patrão na Nova Zelândia tinha uma idade próxima da nossa e por isso demo-nos muito bem. Tivemos muita sorte, foi graças a ele que tivemos tantas experiências dignas de nota por lá: ele levou-nos para a sua casa de Lago, em Taupo, onde pescámos pela primeira vez e nadámos em águas claras como o cristal. Ele costumava emprestava-nos o seu carro para as roadtrips que fazíamos nos dias de folga e ainda chegou a convidar-nos a ficar com os pais no campo. Ajudámos a alimentar bezerros e dormimos numa cabana remota. E ainda levaram-nos a caçar.

 

IMG_1124.JPG

 

LR: Qual o vosso truque para planear as viagens?

C&L: Eu faço todo o planeamento e o Craig fica encarregue de conduzir. Geralmente passo os olhos pelo Lonely Planet e escrevo todos os locais que quero visitar, seguido de uma pequena descrição. Depois desenho um mapa e marco onde estes locais se situam, o que me dá uma ideia mais clara sobre a melhor rota a utilizar. Também costumo encontrar fotos no Pinterest, blogs e Instagram de sítios que gosto, que adiciono a este meu mapa.

 

LR: Quando olho para o que fazem vejo apenas uma pequena desvantagem: quando estão na estrada só se têm um ao outro. Costumam chatear-se? Como lidam com isso?

C&L: Sim!!!! Enlouquecemos! *risos* Levamo-nos à loucura constantemente, mas estamos enfiados numa carrinha e não há nenhum outro compartimento para onde possamos ir e amuar, então temos de engolir e seguir em frente. Os pontos altos definitivamente compensam os baixos, a verdade é que estamos bem a maior parte do tempo.

FullSizeRender (2).jpg

LR: Diriam que viajar tornou-vos mais fortes enquanto casal?

C&L: Sim. Antes de começarmos a viajar só estivemos juntos durante um ano, depois passámos a estar juntos 24/24. Na maioria dos nossos empregos temos horários e folgas compatíveis, por isso não há pausas um do outro, gostamos assim. Em alguns trabalhos tivemos horários diferentes e isso foi um pouco estranho. Somos uns sortudos por gostarmos tanto da companhia um do outro.

 FullSizeRender (1).jpg

LR: Ponderam ter uma vida dita normal, criar raízes, ter filhos e essas coisas?

C&L: Talvez no futuro. Estamos a ficar mais velhos. À medida que o tempo passa começamos a preferir gastar mais dinheiro num quarto confortável quando estamos em "modo backpacking”. Em tempos, chegámos a ficar em sítios horripilantes, agora prezamos mais o conforto. Adoraríamos uma casa simples de campo, com apenas um pedaço de terra e uma cabana ou até mesmo viver num daqueles contentores de transporte. Sabemos como manter um estilo de vida minimalista e não precisamos de excessos. Gostaríamos de poder cultivar os nossos próprios vegetais, de ter galinhas, vacas e um cão - mais do que uma criança nesta fase das nossas vidas. Seria ótimo ter uma base destas que nos possibilitasse fazer viagens mais curtas e saber que temos sempre um sítio fixo para onde regressar, quando regressamos a casa.

 

LR: Qual a fotografia que tem a melhor história ou qual a história que tem a melhor fotografia?

C&L: É muito difícil escolher apenas uma fotografia, mas diríamos que é a que tirámos ao estacionar junto de um fiorde na Noruega. Tínhamos uma vista incrível da nossa carrinha e abrimos as portas traseiras para relaxar, uma vez que íamos passar lá a noite. Um navio de cruzeiro enorme passou pelo fiorde com centenas de pessoas a bordo, enquanto estávamos a desfrutar daquele cenário só nós os dois, de borla. Foi uma sensação maravilhosa.

 FullSizeRender (5).jpg

LR: Podem deixar umas palavras de encorajamento para os aspirantes a viajantes?

C&L: Todos podem viajar como nós. Não temos empregos altamente remunerados, nem recebemos dinheiro dos nossos pais. Muita gente pergunta como conseguimos, quando na realidade toda a gente pode, só têm de tomar a grande decisão de perseguir os vossos sonhos. Comprem uma carrinha, explorem o selvagem, façam caminhadas, nadem, conduzam e repitam. Só têm de gerir bem o dinheiro. Se gostarem muito de frequentar bares a experienciar a vida citadina hão de estar no voo de regresso a casa em pouco tempo ou constantemente a trabalhar e a não ver nada do país de forma a pagarem essa forma de estar.

 FullSizeRender (4).jpg

LR: O que podemos esperar de vocês em breve?

C&L: A nossa fantástica viagem aos Estados Unidos, claro. Temos até Outubro ou Novembro para chegar à Florida, vai ser uma viagem e pêras. Atualmente estamos a desfrutar das montanhas do Alasca e da sua vida selvagem abundante. Temos uma longa viagem pela região selvagem do Canadá, a caminho das Rocky Mountains. A partir de lá, vamos reentrar nos EUA e explorar o Parque Nacional de Yellowstone, desertos de rocha vermelha e cidades remotas. Eventualmente chegaremos à Florida solarenga, que serve de casa para o peixe-boi, flamingos e crocodilos. Viajamos maioritariamente para experienciar a vida selvagem e a natureza, por isso esperem muitas fotografias bonitas das nossas caminhadas e inspirar pessoas a uma vida numa carrinha.

 FullSizeRender (6).jpg

 FullSizeRender.jpg

Acompanhem o Leonismos, no Facebookaqui.

 

Nonstoptravelling:

Instagram: https://www.instagram.com/nonstoptravelling/

Blog: https://nonstoptravelling.wordpress.com/blogs/

26
Mai16

Dia do Riso, todos os dias


Leonardo Rodrigues

Ontem um trio maravilha, do qual fazia parte, decidiu sentar-se numa esplanada no Saldanha para beber café e comer um pastel de nata - coisas que um lisboeta tem de fazer para não perder a nacionalidade - , conversar, depois rir e olhar para quem passava. Centenas passaram por nós, de carro e a pé, posso garantir que éramos dos poucos a rir, os únicos conscientes que pode não haver amanhã ou daqui a uma hora. Os restantes caminhavam para alguma coisa, com ar sério, como se o arroz fosse queimar se não andassem cabisbaixo, com cara de poucos amigos, perdidos em pensamentos. Os portugueses estão tristes. Aquele português, com os olhos na Calçada, muitas vezes também sou eu. Há quem não se lembre de como chegou a casa por cansaço, por embriaguez, eu por vezes não me lembro porque vim em piloto automático, perdido em pensamentos. A minha querida professora e companheira de loucura, da esplanada, acenou enquanto ria para algumas pessoas. A maior parte não viu ou não conseguiu entender. Porque haveria alguém de sorrir a um estranho, estaria ela doida? Uma senhora, talvez a pessoa com o olhar mais triste que vimos, parou. A doida disse-lhe, É dia do riso, ria. Primeiro não conseguiu compreender e olhou para toda a gente na mesa, ri para confirmar. Ela riu de volta, acho que até murmurou um agradecimento. Talvez não lhe estivesse a ocorrer porque o dia foi mau, mas, para além de ser linda, tinha um sorriso fabuloso, desenhado exclusivamente para ela. Talvez aqueles segundos lhe tenham servido para perceber que se o arroz queimar, pode fazer massa, que vai bem com tudo. Nem sempre me lembro das opções. Ontem, por exemplo, acordei chateado porque uma entrevista no dia anterior tinha corrido mal, já tinha decidido: sofrer o dia todo. Depois, ainda de manhã, ao beber um café no Miradouro da Portas do Sol, percebi, com ajuda, que independentemente do que estivesse a acontecer na minha vida tinha a liberdade de estar ali, rodeado de gente, enquanto o sol insistia em dar cor aos meus braços e pernas, com um ventinho que passava para atenuar o processo. Até os pássaros cantavam para relembrar a primavera. Para poder apreciar o momento, só tive de retirar uma coisa que já não estava acontecer da equação. Reescrevam também a vossa equação e depois dêem um boa gargalhada - sem café não será a mesma coisa! 

13241117_1717799278471764_8470075709309738728_n.jp

Prova da maravilhosa manhã de ontem

 

09
Abr16

Ao Encontro do Sul, em Évora (com fotos)


Leonardo Rodrigues

Há quem queira encontrar o norte que perdeu, eu, como já tive muitos encontros com ele, quis ir ao encontro do sul. Em Portugal Continental, como vos disse em tempos de Meet the Blogger, nunca tinha ido além do Portinho da Arrábida. Então, lá fiz eu a minha tentativa até Évora. 

 

Eram 10 em ponto quando o comboio, muito cumpridor dos seus horários, deixou a estação de Entrecampos, começando assim a nossa procura - minha e do Rúben - pelo sul. Escolher lugares de comboio definitivamente é algo que não poderá constar no meu CV, a não ser que seja para remar contra a maré. Depois de ultrapassada a frustração com os lugares, passou a ser hora de desfrutar das vistas. Os livros de geografia estão certos, fica tudo mais plano e, de vez em quando, avista-se um monte. Acho que nunca tinha visto tantos quilómetros seguidos de terra plana, tanta que os meus olhos não conseguiam avistar o fim. Estas terras portuguesas, confirma-se, preenchem-se de oliveiras, vinhas, grandes e pequenas propriedades amorosas e caminhos, mais frequentemente do que se podia esperar, de terra batida. A minha infância, antes das construções desenfreadas de  A.J.J., também os tinha.

 

Sinto-me sempre uma criança curiosa quando vou para um sítio que desconheço, especialmente de comboio, que tem o seu quê de mágico. Como as crianças, dúvidas curiosas trespassam o pensamento: será que vamos encontrar alentejanos nas esquinas à espera que o vento lhes passe o jornal? E eram disparates deste género que me voltava para a direita para dizer e perturbar o meu companheiro de viagem, que lia atentamente o Expresso - já que o encontrou, parecia mal não ler o Jornal. 

 image.jpg 

Uma hora e meia depois lá estávamos nós e, como a sorte nasceu para morrer connosco, chovia a potes. O percurso da estação ao interior da cidade medieval fez-se quase que por instinto e recheado de piadas macabras sobre Dianas, vai-se lá entender o porquê.

 

Como turistas experientes que somos, o primeiro passo foi pedir um mapa, depois, claro, tomar outro café.

 

 image (11).jpeg

 

Na Praça do Giraldo, o café que nos chamou à atenção, talvez pelo nome familiar, foi o Café Arcada. De tão amplo e cheio, parecia albergar todas as pessoas em Évora que sabem que o dia só começa com um café bem tirado. Isso reassegurou-nos que era ali que deveríamos estar. Para acompanhar a bica pedimos algo de tradicional e recomendaram-nos duas coisas, só uma pareceu viável: a queijada. Pode até ficar mal dizer, mas esta foi a única queijada continental que gostei e que tive apetite de repetir. Escusado será dizer que o mapa e todo o dinheiro - não muito - na mesa ficou, não fosse eu ter colocado o tabuleiro do pequeno almoço em cima. 

  

 

image (15).jpeg

 

 

 
fotografia 2.JPG

 

Embrance Évora foi o hostel escolhido para pernoitar. Era tudo o que queríamos. Em termos de localização não podíamos pedir mais central, fica numa rua entre a Capela dos Ossos e a Praça do Giraldo. A decoração era, também, absolutamente irrepreensível: moderna e acolhedora. Todos os quartos têm alcunhas, a do nosso assentava-nos que nem uma luva: viajantes. Entre as camas havia uma moldura com uma mensagem deveras inspiradora: "O mundo é um livro e aqueles que não viajam lêem apenas uma página."

 image (2).jpeg

 

Do hostel, há ainda que realçar o pátio fabuloso que, infelizmente, devido ao estado do tempo, não conseguimos utilizar e o terraço donde fomos observar a noite eborense. Quanto ao preço, a noite custou-nos 30 euros - com um pequeno almoço que continha produtos da zona incluído

 

Próximo do hostel, como disse, estava localizada a conhecida Capela dos Ossos, o monumento pelo qual mais ansiávamos ver. Há alguma dificuldade em explicar os sentimentos que surgem quando se pisa um sítio daquela natureza. Acho que o nome e ler sobre o local em nada nos preparam para a visita. É arrepiante olhar em volta e ver os ossos de tanta gente, que nos parecem perseguir com o olhar, havendo à entrada o seguinte aviso: “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. O objetivo dos frades franciscanos fica assim cumprido, sendo que a visita convida-nos a repensar a nossa condição, a fragilidade, a fugacidade e, digo eu, insignificância da vida.

 

image (16).jpeg

 

image (1).jpeg

 

Próximo dos limites da cidade, acabando a sua estrutura por fazer parte da muralha, encontra-se o Palácio D. Manuel. Como tínhamos pouco tempo até o fecho decidimos tirar partido dos jardins, em vez do que estava exposto no interior. Escusado será dizer que os bancos vermelhos, que podem ver acima, acompanham toda a área verde e agradam os olhos. É também nos exteriores deste palácio que se encontram as tais "Ruínas Fingidas" que, antes de terem realçado serem construídas com materiais provenientes de outras construções, nos fizeram render à expressão "cidade museu" - algo que utilizamos para nos referir a basicamente a tudo o que o olho encontrava. Embora não tenhamos prestado muito atenção ao que estava exposto, o Rúben fez questão de utilizar as instalações e o pouco tempo que tínhamos para disseminar a sua ideologia de paz, sexo e amor....

 

image (13).jpeg

 

O Art Café, também localizado próximo do nosso hostel, foi outro verdadeiro achado. O que nos cativou primeiramente foi a música menos comum que se fazia ouvir da rua. Lá dentro, o ambiente distinto. Os objetos que decoravam o espaço não eram apenas obras de arte e, a um primeiro olhar, pareciam fazer parte da coleção de memórias de alguém. Depois, pareceram-me memórias que foram sendo deixadas ao longo dos tempos por todos os que lá passaram. O poema, no placard ao lado da mesa, assim o evidenciou. Quando regressámos, no dia seguinte, para beber um café de despedida, na impossibilidade de escrever poesia, deixámos os nossos pacotes de açúcar afixados. Afinal de contas, os contemporâneos só nos têm reassegurado que a arte pode ser qualquer coisa. A nossa celebra a hipocondria e, como tal, o consumo mínimo de açúcar possível, afinal a vida é mais doce sem diabetes.

 image (12).jpeg

 

De volta aos monumentos, temos o Tempo de Diana. Foi aqui que o Rúben repreendeu uma turista espanhola, dizendo-lhe que não podia estar lá encostada, uma vez tratar-se do nosso património cultural. A senhora, super constrangida, pediu-nos desculpas aflita. Ri-me desalmadamente. 

 

fotografia 1.JPG

 

Houve muita dificuldade em fotografar toda a experiência, uma vez que o câmara do meu iPhone tem vontades próprias, chovia e a luz que tínhamos não era propícia à arte. Ainda assim, deixo-vos mais algumas fotos antes de concluir o post.

 

No Jardim dos Colegiais, que fica próximo da antiga sede da Universidade de Évora.

image.jpeg

 

O Aqueduto de Água de Prata fotografado do exterior da muralha, embora, a certo ponto, se unam. 

 

image (5).jpeg

 

Aproveitei a fotografia do Rúben para fazer a minha. Neste edifício, que fica ao lado da Fonte das Portas de Moura, localizam-se apenas serviços administrativos

 

image (3).jpeg

 

Nestes dois dias conseguimos ver imensa coisa, inclusive o Forúm Eugénio de Almeida, o Museu da Carruagem, o Arco Romano da Dona Isabel e tudo o que as várias voltas que demos permitiram. Confesso que a certo ponto não sabíamos que mais fazer, então continuámos a passear nos círculos inerentes ao planeamento de uma cidade medieval. 

 

Para a questão que me surgiu no comboio envolvendo jornais, vento e alentejanos a resposta é não. Contudo, a preguiça confirmou-se quando, ao pedirmos indicações para regressarmos à estação de comboios, nos disseram que era melhor ir de autocarro, porque ficava muito longe - 10m a pé.

 

E na estação ferroviária de Évora terminou o passeio, onde o começámos - não fosse tudo assim - , mas nem aqui se acabaram as aventuras. Tivemos um encontro a 3, fruto das dating apps, com alguém - não o escrevo assim por questões de confidencialidade, mas porque quando entramos no comboio já não nos lembrávamos do nome. Deste último episódio, só agradeço por sermos dois a tentar manter um ritmo socialmente aceitável de pergunta-resposta-pergunta-resposta até o comboio chegar. 

 

O Rúben, a única pessoa que consigo tolerar durante vários dias seguidos, refere-se a estes passeios como fugas e costuma perguntar-me "vamos fugir?". Garantidamente que sim, vamos fugir mais vezes para regressar e partilhar tudo convosco. 

 

Sigam o Blog Leonismos no Facebook para não perderem o nosso comboio. 

 

26
Fev16

O que Move a Cidade Europeia, no Brasil


Leonardo Rodrigues

12596071_1814846135409400_2056399341_n.jpg

 

Não há como ter amigos além fronteiras. Para além de serem aqueles com quem nunca nos chateamos, são aqueles que nos contam novidades realmente novas. 

 

O povo brasileiro têm-me surpreendido imenso, não só pelo pelo seu sentido de humor, como pela sua personalidade calorosa e alegre, que contagia qualquer um. E, claro, também há a sua forma adorável de falar português.

 

Tenho amigos brasileiros que confessam: "o Brasil está um lixo". É verdade, um país que tinha, e tem, tudo para prosperar, continua a afundar-se num poço sem fundo à vista. A responsabilidade, mais do que do povo, é mesmo de quem está lá em cima a sufocar os seus interesses, corrompendo que nem roedores.

 

No entanto, se há coisa que os brasileiros sabem fazer é o olhar para o lado positivo das coisas. E não, não é só com o Carnaval, também o fazem com soluções inovadoras. 

 

Um dos melhores exemplos está em Curitiba, conhecida lá dentro como cidade europeia. Tem esta designação, mais do que pelo clima frio, pelo seu desenvolvimento que se faz notar pela menor taxa de analfabetismo brasileira, passando pela sustentabilidade ambiental, até à fantástica rede de transportes.

 

É dos transportes - que realmente funcionam - que vos quero falar. Aquando do desenvolvimento económico que Curitiba experienciou, surgiu a necessidade de desenvolver a rede de transportes. Numa outra metrópole, ter-se-ia construído uma rede de metro, só que lá não havia dinheiro. Ora, e que pensam eles: não podemos construir metro? Está bem, vamos aplicar o mesmo conceito aos autocarros - mentira, eles pensaram "ônibus". Dito e feito. 

 

Hoje, têm uma rede de transportes metropolitana que funciona. Os autocarros, biarticulados - um género de junção de vários autocarros, como já temos cá, mas muito maiores -, têm faixas próprias EXCLUSIVAS  por toda a cidade. As paragens, como podem ver na foto tirada pelo meu amigo Leif, são tubos de vidro. Estas têm as mesmas funcionalidades de uma estação de metro, onde se compra o título de viagem e se procede à validação do mesmo. O autocarro simplesmente encaixa-se na estrutura de vidro para deixar e recolher os passageiros. Não há como coisas que funcionam à luz do dia. 

 

Depois de Curitiba, para além de sistemas semelhantes terem sido implementados no resto do Brasil, 80 países já seguiram de alguma forma as suas pisadas, dando especial ênfase a Bogotá, na Colúmbia. 

 

Este post com certeza que não há de apresentar uma novidade para todos, nem era esse o objetivo. Tantas linhas sobre o Brasil e os transportes para dizer algo mais simples do que uma rede de transportes, e que podemos todos aplicar: Na ausência da possibilidade de fazermos o que queremos, que tal fazer o seu equivalente ou, quiçá, algo completamente diferente?

 

P.S. Não tendo lá estado, e embora este não seja um post turístico, posso deixar as dicas que me deram. Uma vez em Curitiba, visitar: a Ópera de Arame, o Jardim Botânico e o Museu Oscar Neymer, conhecido como "O Olho".

27
Jan16

E o Mercado da Figueira?


Leonardo Rodrigues

image.jpg

 

 

 

Mercado da Ribeira para aqui, Mercado de Campo de Ourique para acolá, e o Mercado da Figueira?

 

Há uns tempos, numa das minhas caminhadas, que me continuam a permitir encontrar sempre uma ruela nova, qual não foi a minha surpresa quando encontrei, não uma rua, mas um mercado novo. Curiosamente, o achado deu-se numa das praças mais importantes de Lisboa, por onde passo quase semanalmente, a Praça da Figueira.

 

Imaginem só se, com o meu passo acelerado de quem já só quer ir beber um último café e atirar-se num sofá, não tivesse olhado de relance para o lado esquerdo e encontrado aquela porta tão discreta que diz Mercado da Figueira. Se a minha surpresa com este mercado parecer desmedida, justifico-a com o facto de ser da Madeira e isto serve-me para justificar tudo.

 

Ainda assim, para ter a certeza e não refugiar-me na minha isularidade para justificar este post, perguntei a vários lisboetas, com já trinta anos disto, se conheciam o Mercado da Figueira. Sei que três não é uma amostra significativa, mas responderam-me que não, daí a quase obrigatoriedade deste post.

 

Depois de pesquisas feitas, tornou-se um conhecido. Este mercado nasceu duma iniciativa de feirantes, em 1755, naquilo que eram meras ruínas do Hospital de Todos os Santos - destruído no mesmo ano pelo terramoto que devastou a cidade. Tal foi o sucesso que em 1855 é construído um mercado coberto que, infelizmente, foi deitado abaixo nos anos 50, devido a uma catastrofe pior, Salazar, ups, Duarte Pacheco.

 

Enquanto os mercados da moda apostam num estilo chique industrial, este renasce pelas mãos da VARN, que decide manter muitos dos contornos originais, mais tradicionais, onde se fez apenas as adapatações necessárias para estar à altura das necessidades e exigências dos nossos dias.

 

À entrada, antes de chegarmos ao mercado prorpiamente dito, percorremos um corredor ladeado por garrafas, com o que de melhor se faz nos lagares portugueses. Corredor corrido, temos duas opções, a cafetaria à esquerda e o mercado, convenientemente adaptado a supermercado, à direita. O primeiro apelo é o visual, afinal quem vê caras não vê corações, primeiro vê-se a cara e só depois o coração. É um coração português, com produtos portugueses, cheios de qualidade, da fruta ao peixe.

 

image.jpg

 

 

Cansado, muito passou-me ao lado, mas, na cafetaria, senti uma enorme tentação por me tornar diabético. Embora houvesse pão fresco e muitas sandes, foram os bolos que falaram comigo. Tudo tinha um ar acabado de fazer, quente, cheiroso, doce, e, quase mais importante que os adjetivos anteriores, barato. Vejam só que um menu com sandes, sumo natural e café fica a 1.95€. É de salientar que os sumos naturais, feitos com a fruta das bancas, vendem-se a 1€ e, podem, tal como eu, pedir para levar e continuar o passeio pela nossa belissima capital.

 

image.jpg

 

Depois de comprar o meu caril no Martim Moniz hei de passar por lá muitas mais vezes, nem que seja para uma frutose fresquinha que me permita seguir calçada.

 

Em tempos em que poupar é palavra de ordem, porque não fazê-lo com qualidade?

14
Out15

Recreativa dos Anjos, RDA para os amigos


Leonardo Rodrigues

image.jpeg

 @ruidiasmonteiro

 

Não é um bar, muito menos um restaurante, as placas sobre os balcões assim o deixam claro. No entanto, é pela comida que se sabe da existência da Recreativa dos Anjos e é pela comida que lá se volta. O que importa esclarecer, logo no início, é que existem bastantes mais razões para entrarmos no número 69 da R. Regueirão dos Anjos.

 

As paredes, que dão corpo à garagem onde se localiza o RDA, preconizam que o recheio há de ser ótimo, diferente e cheio de cor.

 

Em Lisboa, e começando por falar na comida, dificilmente se conseguirá comer tão bem, em qualidade e quantidade, por tão pouco. Lá, com quatro euros, podem comer uma deliciosa sopa - nada que ver com a água colorida servida em muitos restaurantes - , um prato principal e uma cerveja - que, mesmo não sendo a única bebida em stock, parece ser a mais apropriada.

 

Numa primeira ida ao RDA podem surgir as seguintes questões: Servem à mesa? Aceitam multibanco? Posso mesmo entrar para ir buscar a cerveja? Terei mesmo de lavar a loiça que sujar? E, algo que se deve perguntar sempre, há café? Não, não, sim, sim, não, são as respetivas respostas.

 

Depois de esclarecido o elementar, na segunda visita, as questões são menos técnicas e mais teóricas, quem são e qual o objetivo? Entre amassar a base da pizza e limpar a polpa de tomate entornada, um dos voluntários do Forno Comunitário respondeu que são uma associação constituída por vários grupos recreativos, e que estes tomam conta do espaço em diferentes dias da semana. Quanto ao objetivo, tem tanto de simples como de complexo: mostrar que há uma alternativa - se não total, parcial - ao capitalismo desenfreado que se vive nos nossos dias. Coisa que os próprios reconhecem limites, "os alimentos que aqui estão tiveram que ser comprados em algum sítio".

 

Se há algo que não tem limites é um sorriso no rosto com que somos recebidos e um espírito de entre-ajuda sem igual que se observa. Falam com toda a gente como se fossem amigos de há muito. Há quem veja os integrantes do projeto como hipsters, mas a própria palavra está mais em voga do que aquilo que significa, o que eles são é livres. Ou, pelo menos, tentam, fugindo ao sistema de coisas.

 

É de notar ainda um cão e um gato bem dispostos, que muito diplomaticamente partilham o espaço, seguindo assim as pisadas dos donos. Só lhes falta falar.

 

Quem frequenta o espaço, à semelhança dos que lá são voluntários, vêm de todos os lados e vestem-se de forma diferente, na fila tanto pode estar um senhor todo engravatado, como alguém descalço. Mesmo pertencendo a um grupo, não se homogenizaram, e isto é prova do tal conseguir fugir, ainda que parcialmente, ao capitalismo.

 

Se lá forem num domingo ou numa segunda terão a Recreativa do Forno Comunitário dos Anjos para vos receber. Em ambos os dias o prato principal é pizza, cabe ao freguês escolher os ingredientes que lá quer colocar. No que à confeção diz respeito, e isto para os mais entusiastas, têm a possibilidade de meter as mãos na massa, com o apoio de um voluntário. O objetivo é dar a conhecer a todos como utilizar um forno e ensinar a fazer pão. A ideia fundadora do projeto remonta de há muito, quando nem todas as casas tinham forno, então, no centro das aldeias, existiam um forno que poderia ser utilizado por todos, o forno comunitário.

 

De Terça a Sexta a confecção dos pratos passa a ser da responsabilidade dos voluntários da Cantina Cooperativa, embora as atividades fiquem a cargo de outros.

 

Seguindo a ordem dos dias da semana, na terça, para além da Cantina Cooperativa, é dia da oficina de computadores - coletivo 1000101 - tomar conta da garagem. Estes têm como missão promover a auto manutenção informática e a utilização de software livre. Se lá levarem o vosso computador avariado alguém há de resolver o problema e, mais importante que qualquer outra coisa, de forma gratuita.

 

As quartas feiras pertencem à Cicloficina dos Anjos que, para além de repararem bicicletas de forma gratuita, vão ensinado a quem por lá passa a arte para que depois também o possam fazer em casa.

 

A Associação Terapêutica do Ruído, terceiro recreativo, descreve-se como uma entidade devota aos efeitos terapêuticos do mesmo. Segundo a sua página, o ruído em doses elevadas permite a libertação das tensões e frustrações do dia a dia. Se passarem pela Recreativa no último sábado de cada mês se poderão experimentar uma libertação total, muito ruidosa.

 

Por último, mas não com menos importância, temos o recreativo do Bookbloc, que organiza uma discussão quinzenal e aborda essencialmente duas grandes temáticas: a cidade e o feminismo. Para abordar estas temáticas utilizam sempre um texto ou um filme como base.

 

Este mês, para além do que acima foi escrito, haverá ping-pong às quintas e boxe ao sábados. A agenda, que é bem mais vasta e onde constam atividades como workshops e tertúlias, pode ser encontrada no blog da Recreativa ou na sua página do Facebook.

 

Não se admirem por de lá sair com um sorriso nos lábios, talvez seja da companhia, talvez seja da comida maravilhosa que não esvaziou os bolsos, talvez seja por outra coisa qualquer.

 

image.jpeg

 

image.jpeg

 

 

 

 

12
Set15

Dez Mil Turistas do Mundo | Ten Thousand World Tourists


Leonardo Rodrigues

11017604_1390170534633330_92295482_n.jpg

@andyto 

 

O meu maior sonho foi sempre viajar e escrever, viajar para escrever e escrever para viajar. Todo um ciclo altamente vicioso que, uma vez começado, não quero que acabe.

 

Há uns meses, sabendo bem que ainda não me é possível fazer disso vida, com um curso e uns quantos trabalhos detestavéis como prioridade, decidi criar uma comunidade onde pessoas de todo o mundo tivessem a possibilidade de viajar através de imagens de outros e de partilhar as suas memórias fotográficas com um público mais vasto. E assim se alimenta a alma do (quase) viajante.

  

Onde? No Instagram. Como? Com uma Hashatg. Nos dias de hoje é assim tão simples.

 

É desta simplicidade que surge World Tourists. Esta semana atingi os dez mil seguidores e a hashtag #worldtourists já se encontra em mais de 23 500 publicações. 

 

Para além de ter começado a conhecer melhor o mundo, ainda que virtualmente, conheci pessoas extraordinárias, com vidas que condizem com as fotos. 

 

Por essas terras digitais, de que muito mal se fala, houve um casal que se destacou, tanto que o convidei para uma entrevista que irá ser publicada em breve na minha rubrica Conversas com Vista. Desta entrevista vou apenas revelar que se trata dum jovem casal que percorre o mundo de carro há 7 anos. Para não a perderem coloquem gosto na página do blog.

 

Resta-me desejar a todos um bom fim de semana e muito boas viagens pela comunidade que podem aceder a partir daqui

 

(E sim, já fiz este post, mas não foram apenas os números a mudar. Devido a uma conversa fantástica que tive ontem passarei, também, a escrever e a publicar os posts em inglês, começando hoje.)

 


My biggest dream was always to travel and to write, traveling to write and writing to travel. A vicious circle that once started, I’m hoping it won’t ever end.

 

A few months ago, knowing that I can’t make a living out of this for now, with a degree and a few awful jobs ahead of me, I decided to start a community where people from all over the world could have the chance of taveling through pictures of others and of sharing their own photographic memories with a wider public. This is how we can feed the souls of a (almost) traveler.

 

Where? On Instagram. How? With an hashtag. Nowadays it’s really this simple.

 

And, it’s from this simplicity that World Tourists was born. Yesterday I’ve finally achieved the ten thousand mark. Yup, Instagram is finally showing my number of followers with a k, 10k! When it comes to the hashtag, it’s on almost 24 000 photos. Pretty nice, I must admit.

 

With this project, besides having the chance of getting to know the world a bit better, although in a virtual way, I got the chance of meeting extraordinary people, with life’s that match the photographs.

 

In those digital lands, that we speak so poorly about, there was this couple that really captured my attention. I felt so fascinated with their life that I decided to invite them for an interview for my new rubric on the blog, Conversas com Vista – Talks with a View. From this interview, for now, I’ll just reveal that they are a young couple that have been traveling the world for the last 7 years on their mini van. In order for you not to miss it, please like the blog page here.

 

This is my first post ever with an English version, please ignore the mistakes it may contain. The decision to also write in English and stop my excuses not to was made after the loveliest conversion I had yesterday, with an equally lovely person. I promise I’ll do my best to keep delivering better and more articulated content as the posts go by.

 

That being said, I’m going to wish you all a lovely weekend and really nice trips through this community that you can fly to here.

 

 

 

 

 

 

 

28
Ago15

Sintra


Leonardo Rodrigues

image.jpg

 Foto: Ruben Santos

 

Todos os fins de semana eu e o meu colega de casa procuramos fazer algo de novo, que seja tão divertido como relaxante, mas sempre em Lisboa. Não é mau, até já disse "Obrigado, Lisboa", no entanto, neste, tínhamos forçosamente de sair da cidade e afastar-nos de tudo o que de negativo viver numa cidade implica.

 

Foi um dia que serviu tanto para fazer uma desintoxicação citadina como tecnológica, o destino, como o título do post provavelmente indicará, foi Sintra. Sem telemóveis e apenas munidos de uma máquina fotográfica, não fosse não conseguirmos congelar momentos, lá fomos nós de comboio rumo a norte.

 

A viagem de comboio foi agradável, apenas mais curta do que estávamos à espera. Uma vez lá, o passo um foi almoçar na berma da estrada, por baixo da única árvore que nos conseguia proporcionar sombra àquela bem-dita hora do dia. O passo dois foi pedir um mapa, que acabou por não ser necessário, pois os melhores sítios, como viemos a comprovar, não constam nos mapas, acham-se uma vez no local.

 

Já me tinha deslocado para aqueles lados duas vezes anteriormente. Na primeira e na segunda com o coração a sofrer de uma patologia sem terapêutica disponível atualmente, o amor - achava eu. Desta vez, já livre destes males que só se curam com o tempo, desfrutei.

 

Depois de tão deliciosamente subir, com um silêncio a que já não estou habituado, demos com o Castelo dos Mouros. Entre o silêncio, o ar puro e o verde estonteante, abri espaço para pensar nas batalhas que lá tiveram lugar, em como os que estavam em cima detinham sempre uma considerável vantagem estratégica e, com maior inquietação, perguntei-me: será que aquela gente tinha consciência do quão mágico é Sintra?

 

Nós sim, tínhamos, mas era-nos imposto pagar e pagar nada tem de mágico. Então, como bons portugueses que somos, lembrando-se o meu colega de que alguém já lá tinha conseguido entrar sem pagar, decidimos nós também fazer um pequeno desvio.

 

O caminho parecia não ter sido antes caminhado e, se navegado, só por água. Uns arranhões, mosquitos e sustos depois, lá demos nós com um sítio que dinheiro nenhum pode comprar e que não está incluído no preço absurdo do bilhete. Parecia nunca ter sido tocado pelo Homem, não havia ruído, nem lixo. Até o mar se avistava!

 

No castelo, pago, suponho que os visitantes tivessem, quanto muito, a oportunidade de se sentarem em bancos de madeira, enquanto nós, gratuitamente, ficamos deitados em pedras gigantes, que pareciam suspensas no ar.

 

Não estávamos a travar uma guerra como os que deste sítio precisaram antes de nós, mas a sensação de segurança devia ser a mesma. Estávamos protegidos da vida que temos lá em baixo, na terra, e que não queremos. Nada nem ninguém nos podia tocar, corrigir ou perturbar de algum modo. Estávamos acima de todas as coisas e tínhamos o controle total das nossas vidas. Ali não lutávamos por ser alguém, afinal tínhamos  o  privilégio de ser ninguém. No meu último dia acho que as coisas vão ser assim, as luzes desligam-se e deixa de haver luta e finalmente terei descanso, do eterno - que há de saber tão bem se disso houver consciência.

 

Depois de tanta sensação maravilhosa experienciada e com coragem ganha para deixar o descanso eterno temporário, lá seguimos caminho para o nosso próximo destino, o Palácio da Pena. Surpresa, era preciso pagar mais. Então, nós, mais uma vez, tivemos que ir por por vales e montanhas - como canta mais ou menos o hino da RAM. E olhem, entramos e não me lembro de ter pago, nem o fotógrafo de serviço.

 

Já de noite, aconteceu o que todo o dia prometeu, chuva. Não consigo conceber melhor forma de terminar um dia destes do que uma viagem de comboio de noite, com um livro no colo e a chuva a cair do outro lado da janela, que me protegia do delicioso espectáculo da natureza. No livro, tal como na viagem de ida, lia sobre reis e rainhas, e, permitam-me, durante este dia eu fui rei e no meu reino não houveram cá lutas pelo trono, apenas pela melhor pedra, que foi pacificamente partilhada.

 

Antes de concluir com o parágrafo seguinte, deixo-vos com uma dica: prefiram sempre um bilhete de comboio com ida para Sanidade e volta com Sanidade em detrimento do Xanax, Prozac e primos, que não sei o nome. Fica mais barato e tem efeitos duradouros.

 

Sendo que as experiências são sempre melhores quando partilhadas, e, tendo-me excedido nas palavras, deixo-vos com mais algumas fotografias tiradas por Ruben Santos - dizem que cada uma vale mais do que mil palavras.

 

 

image.jpg

 

image.jpg

 

image.jpg

 

image.jpg

 

image.jpg

 

image.jpg

 

 

Podem ver mais do trabalho do Ruben no Behance aqui e no Instagram aqui.

29
Jul15

Obrigado, Lisboa (com fotos)


Leonardo Rodrigues

 

 

Hoje, ao remexer no meu baú de fotografias digital, decidi que ia partilhar convosco um pouco da minha complexa relação com Lisboa e alguns dos sítios que desde o primeiro dia que lhes pisei se tornaram favoritos, que me fizeram sentir pertencer à cidade, que me tornaram mais português, signifique isto o que significar. (Ver galeria abaixo)

 

Há cerca de dois anos, ainda com 18, mudei-me para Lisboa. A primeira impressão não foi a melhor, felizmente não perdurou como a maioria das primeiras impressões. Tinha demasiado medo para desfrutar e para permitir-me contemplar. Estava sozinho e não conhecia nada, tinha de encontrar casa e as aulas começavam dentro de uma semana.

 

Tudo o que era novo e diferente causava-me uma certa desconfiança, agora consigo encarar estes episódios com a curiosidade necessária. Precisei de uma semana numa cidade que me era estranha e que tive de passar a conhecer melhor que palma da minha mão, para entranhar a máxima pessoana, Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

 

Rapidamente entendi que Lisboa não é apenas mais uma capital. Há nesta cidade uma luz que a distingue de todas as outras. Os prédios que outrora foram colocados aqui e ali por acaso e necessidade, por mais que olhe, não parecem fazer sentido doutra forma e, permitam-me, são mais arte do que muita “obra de arte” que por aí anda. Enquanto no resto da Europa todos os caminhos vão dar a Roma, em Lisboa todos os caminhos parecem dar ao Tejo, o rio que aparenta e cheira a mar. Gosto que Lisboa adormeça todas as noites com o lisboetas e com os que cá estão de passagem, de sentir que sou a única pessoa acordada noite dentro, de andar por aí e sentir uma cidade que se tornou fantasma do dia para a noite, onde só há a luz dos postes que iluminam por iluminar.

 

Percebo, agora, talvez não tenha sido eu a escolher a cidade, escolhi um curso, depois escolhemo-nos os dois.

 

Obrigada, Lisboa, por me dares amores, desilusões e amigos que são agora família. Obrigado por abalares convicções e por ajudares a sedimentar outras. Obrigado por me ensinares vulnerabilidade e humildade. E, mais importante do que tudo, obrigado por me deixares tratar a bica por café.

 

 

Podem encontrar mais das minhas fotos aqui.

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Copyrighted.com Registered & Protected 
HMLF-E7YY-MGTC-ZU7E

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D