Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

LEONISMOS

LEONISMOS

23
Mar17

Vou ao melhor barbeiro de Lisboa, porque mereço


Leonardo Rodrigues

StockSnap_7M505B7MYV.jpg

 

Todos usamos diferentes escapes para sobreviver as nossas vidas cada vez mais exigentes. Escapadinhas, banhos de imersão, massagens, vinho, dia de folga fora da folga, etc. Eu subscrevo a todas estas técnicas de sobrevivência ninja, mas recentemente descobri um novo método de o fazer, de cuidar de mim, ir ao barbeiro. 

Tem acontecido sempre em dias de folga, que por vezes coincidem com saídas da cidade. Ir ao barbeiro não dá o super poder de sair da cidade, mas isso quase que acontece lá.

Pente 1.5 no cabelo, 4 na barba, corrigir as linhas e dar um jeitinho com a tesoura. São estes os meus pedidos. Depois não tenho de fazer mais nada.

Ter a barba que tenho envolve que todos os dias tenha de a lavar duas vezes, primeiro com o shampoo, depois com o condicionador, pentear, aparar aqui e ali. Dá imenso trabalho, mas, quando cumpro o ritual, estou diferente, sinto-me bonito e confiante, e isso dá-me poder e, confesso, agrada o D

Ir ao barbeiro faz precisamente isso, mas é no dia do mês em que decido que não vou cuidar de ninguém e que vou deixar que cuidem de mim. É o meu Obrigado, Leonardo, por te aturares a ti e aos outros. Além disso, o barbeiro faz um trabalho melhor a deixar a minha barba apresentável. 

Quem tem feito este rico trabalho é Francisco, um dos sócios da Barbearia Carlos, em Alvalade. É daquelas à antiga, irrepreensíveis na arte e no atendimento. Estão lá sempre três senhores, um mais velho do que o outro, mas é pela cadeira do Francisco que toda a gente espera. É com ele que, além do bom trabalho que faz com a nossa penugem, tem uma boa conversa, que pode ir da geografia às suas aspirações no mundo do rock. Nada disto compromete que o brilho dos seus olhos seja maioritariamente obtido com a profissão herdada do pai.

Mesmo que a Av. de Roma não fique no vosso caminho, experimentem uma barbearia tipicamente lisboeta. Não vão querer gastar dez euros noutra coisa. 

11
Mar17

Quando foi comigo, o paneleiro


Leonardo Rodrigues

 

StockSnap_6R7KCXBEEE (1).jpg

 

Existem dias em que com muita esperança, talvez presunção, penso "já passou", que, enquanto adulto, está tudo bem, que não voltarei a sentir isolamento, que não vou olhar o mundo e pensar que está contra mim e que já fiz o percurso que tinha de ser feito. Está mais perto, mas sair do armário, como lhe chamam, faz apenas parte do início da caminhada.

 

Há muito que queria escrever este post e dizia-me não ter as palavras certas, quando na realidade não existem palavras certas para dizer que enquanto crescia, algumas pessoas, motivadas pelo que outras lhes incutiram como sendo certo, me fizeram sentir errado, sujo, mau, feio, vergonha. Sem que ainda soubesse àquilo a que se referiam ou quem era.

 

Amigos que se mantêm próximos não têm memória. Quem me infligiu dor física e psicológica talvez também não. Eu sim, e agora estou em condições de partilhá-la. É um exercício duro deixar-me guiar pelas memórias que não quero lembrar e sentimentos que não quero sentir, mas é isso que faço convosco hoje. Porque este blog é sobre mim, as coisas boas e más, e o que aprendo com elas. Porque este blog, seja de que forma for, é para outros lerem.

 

O bullying começou na mesma altura em que me apercebi que era diferente, tinha eu uns oito anos. Diferente, aos oito, era tudo o que sabia. Não conhecia palavras para associar à diferença. Não sabia que parte da minha família e comunidade me viam como algo de mau, a precisar de tratamento ou de morrer, como cheguei a ouvir.

 

Antes de sequer ousar expor o que pulsava cá dentro tudo mudou. O meu melhor amigo passou a chamar-me várias coisas menos Leonardo. Paneleiro e "escabaçado" - seja lá isto o que for - eram as mais constantes. Não sabia o que era, mas já mo apontavam, pejorativamente. Ser isso, "padecer" disso, era mau. Essa palavra, nova no meu vocabulário, tinha muito poder - para todos menos para mim: fazia com que me batessem nos intervalos, com que não pudesse usar o computador nas aulas de informática e que cascas de fruta voassem para a minha sopa. 

 

Lembro-me dum episódio em particular, estávamos no intervalo, enquanto um colega me agarrava, outro apertava o pescoço e outro dava pontapés. Gritei o mais alto que pude olhando para alguém responsável, que me devolvia o olhar sem nada fazer. Talvez porque "éramos só crianças a brincar". Aí entendi que quem me poderia proteger não o ia fazer, que estava por minha conta e passei a ter medo do que era o meu lugar favorito, a escola. 

 

A vergonha e o medo manifestavam-se, além das lágrimas, numa dor de cabeça, acompanhada de um formigueiro. Não tinha apetite e implorava que me deixassem ficar em casa. A minha mãe esforçou-se para entender. Como é que alguém que sempre quis estar na fila da frente, com excelentes a tudo e amigos de repente não quer sair de casa? Também ao psicólogo senti que precisava mentir. Quando contei parte do que acontecia foi pior. Mentir deu-me um conceito ridículo de proteção: calar para apanhar menos.

 

Éramos, sim, crianças. Mas há algo que todos precisamos compreender: as crianças são uma tábua rasa. Se o que lá for escrito for mau, elas irão agir de acordo com isso. Se lhes ensinam violência elas vão perpetuá-la. Se lhes ensinam a odiar é ódio que vão sentir. Da mesma forma que, quando envolvidas em amor e respeito, o reproduzem infinitamente, da forma bonita como só elas sabem.

 

No 5º ano, como íamos para escolas diferentes, achei que tudo ia mudar. Os primeiros meses foram fantásticos, conhecimentos e amigos novos, vida nova. Mas claro que "isto" me iria sempre apanhar, fosse como fosse. Uma professora para me mandar calar, a mim e a um amigo, disse para pararmos de estar aos beijinhos. Ainda hoje não entendo. Só beijei um rapaz pela primeira vez aos 18. Num meio pequeno, numa escola, não importa que não fosse verdade. Comentou-se fora da sala e tudo mudou novamente, durante anos. Estava marcado por uma suposta demonstração de afeto. 

 

Achei que a história se iria embora, como as notícias vão, mas não. Os dias de medo regressaram, mas agora ia lidar com muitos mais, de todas as idades, numa escola grande, onde achavam por bem bater e insultar por algo que ainda não compreendia. As dores de cabeça e o formigueiro voltaram. Tomei as medidas possíveis: sentar-me no início do autocarro - os machos curiosamente preferem a parte de trás; deixei de entrar na escola pela entrada principal e ia sempre por detrás dos pavilhões. Havia menos pessoas, parecia mais seguro. Parei de comer na cantina, situações menos boas ocorriam lá. Isso não foi suficiente. Durante anos que não foi. 

 

Na escola faziam sempre festas no final do período e ocasiões especiais. Numa dessas, atiraram-me papéis durante todo o evento. Deixei de ir às festas. Num dos cortejos de carnaval atiraram-me pedras. Deixei de estar presente. Os intervalos eram oportunos para essas coisas, então comecei a ficar dentro dos pavilhões.

 

Comecei também a riscar os dias num calendário que guardava na carteira. Contava as faltas que podia dar, os dias piores, os feriados, os fins de semana. Sozinho.

 

Acho que até aos 12 todas as manhãs acordava na expetactiva de ter mudado, mas bastava-me chegar à escola para olhar para um rapaz e saber que era um olhar diferente. Achei que não podia ser amado se fosse assim. Cheguei ao ponto de rezar para que se fosse embora, mesmo já não acreditando num deus que cria alguém de uma forma e depois castiga. Não foi embora, não podia, nem tinha.

 

Há um outro episódio antes do secundário que me marcou. Abriu um bar na terriola e fui sair à noite pela primeira vez com os meus amigos. Um rapaz "popular" agarrou-me, apalpou-me e disse-me coisas terríveis. Hoje, embora racionalmente saiba que está tudo bem, sair à noite e pensar em sair causam-me ansiedade.

 

As aulas de educação física eram as piores. É cliché, mas era péssimo em futebol. Os rapazes tinham que jogar futebol. Um rapaz que preferisse jogar volley não podia, uma rapariga que quisesse jogar futebol podia. O professor que tive durante anos, assumidamente homofóbico, tinha uma metodologia de ensino peculiar: "joguem futebol"; beliscar as raparigas, olhar-lhes para o rabo e conversar com os favoritos. Havia uma certa discriminação na avaliação. Estudava e sabia as matérias, tanto para história como para educação física. Curiosamente, a história tinha 19 e a educação física chegar à positiva era complicado. Na parte prática, uma rapariga pior tinha 15, eu nunca mais do que 14.

 

Aos 18 anos, a fazer algo que de forma simples se chama terapia disse pela primeira vez que era gay. A sessão demorou 3 horas porque só após chorar durante este tempo, depois de me ter sido servido um gin e um whiskey - sim isto aconteceu mesmo - é que consegui abanar a cabeça. Demorei tanto tempo porque achava que me iria querer suicidar, que não aguentaria a vergonha se alguém soubesse. Em vez disso fui recebido com um sorriso e um abraço. 

 

Não sei bem o que tem de ser feito, mas o problema é muito profundo. As "vítimas" nem sempre denunciam, e por vezes suicidam-se. Na ausência de uma denúncia por parte da vítima, poderiam ser os colegas. Os colegas por vezes "não vêem", não têm de ser homofóbicos, racistas e afins, podem só ter medo. É difícil ir contra os estabelecido. Resta-nos os professores, mas esses conseguem ser piores. Parece popularucho ou demasiado português dizer isto, mas é verdade. 
 
Quando via pessoas na minha situação e não conseguia fazer nada, sentia-me impotente. Por vezes até tentava gozar, acho que era homofóbico. Falei há uns tempos com um colega que passou algo semelhante na escola e lamentei não ter sido capaz de intervir. Ele disse que não importava e até me confessou que fui das primeiras "crushes" dele. Saber isso foi emocionante para mim. Numa altura em que eu tinha repulsa de mim, havia alguém que reparava. Há sempre alguém. 

 

Nem sempre estive consciente, mas hoje sei que gosto muito de mim. As feridas são quase cicatrizes porque tenho vindo a entender que não seria quem sou sem um passado. E, ser gay não faz de mim menos homem nem é tudo o que sou. Até as emoções menos boas levaram-me a olhar as coisas com outros olhos e aguçou-me o sentido de humor. A honestidade só trouxe vantagens. Não só me permitiu manter as minhas amizades, como possibilitou que as mesmas se fortalecessem e multiplicassem. Permitiu-me amar e ser amado, construir algo com alguém. Permitiu-me ser livre.

 

A vida é cada vez mais plena porque tenho deixado que permaneça em mim um  "e se?", porque me deixei guiar pela imaginação, por curiosidade relativamente a outras vidas. Espero que quem leia, independentemente da vida, cor, peso, ou orientação sexual, se pergunte, com vista ao futuro "e se?" e veja todas as combinações possíveis. 

 

 

08
Mar17

Petição pelas Mulheres - e por todos


Leonardo Rodrigues

Recentemente o eurodeputado polaco Janusz Korwin-Mikke chocou o mundo com declarações acerca das mulheres. Este argumentava que deveriam ganhar menos sendo que eram mais fracas, pequenas e menos inteligentes. Qualquer pessoa com dois dedos de testa, que conheça pelo menos uma mulher, sabe que estas declarações são perigosamente infundadas. Pela gravidade das afirmações preconceituosas, que também já recaíram sobre refugiados, e por ser um dia que celebra as mulheres, foi iniciada hoje uma petição com o objetivo de colocar este mamífero fora do parlamento europeu. Chegámos todos muito longe para permitir que vozes destas continuem a ficar mais altas. Assinem, é o melhor "feliz dia da Mulher" que podem desejar. 

 

Petição aqui.

 

dia da mulher.jpeg

 

13
Fev17

A minha resolução para 2017


Leonardo Rodrigues

Não escrevi sobre isso, mas eu também tenho uma resolução para 2017. Sim, é apenas uma, mas é desta que tudo pode brotar. No ano anterior, comprometi-me a ser e fui. Simplesmente isso deu-me muitas coisas, oportunidades, um emprego, amigos, conversas e um novo amor. Ser, em pleno, não é mais do que estar bem com a pele que vestimos, as coisas que pensamos e até com os pêlos que brotam todos os dias para desconfigurar a linha da barba. Ser em pleno é também não ter medo e saber o que se quer. Talvez seja isto que aconteça a todos com o somar dos anos. Quando somos em pleno ganhamos coisas, pessoas para se falar sobre isto e aquilo e, se formos mesmo sortudos, alguém para nos aquecer à noite. Dito isto, este verbo vale de pouco se não lhe associarmos o fazer. Quero fazer muito mais, muito melhor, dar e mostrar mais de mim. Pegar nos projetos da gaveta e dar-lhes uma vida nova. Quero devolver a cor ao blog, reescrever um post que prometi à Mula e o telemóvel apagou, fazer a entrevista à Vânia, escrever sobre o que vi e provei, gostei, não gostei e calei. Quero e vou, sabe deus lá se podemos mesmo deixar para amanhã o que pode ser feito hoje. 

fazer.jpg

Eu a "fazer" férias e andar de bicicleta pela primeira vez em muitooos anos. Foto: D.

 

 

02
Fev17

Temos de desligar!


Leonardo Rodrigues

 

 

man-person-clouds-apple.jpg

 

Vivo numa relação de amor ódio com ficar sem bateria. Se houver algo que não pode esperar, é um pesadelo. Se não, é uma dádiva e acordarmos para coisas que nunca reparámos, como ver que o nome da estação Roma, refletida num dos vidros da carruagem é amoR.

Os tempos são insustentáveis. Deixar passar os reflexos da luz que dizem amoR não é grave, mas já deixar passar o Amor porque um retângulo convenceu-nos que a nossa vida está toda lá dentro, pode ser.

Os nossos telemóveis tornaram-se o centro, até dos jantares. Supostamente está lá tudo: as várias contas de email, o Facebook, o Messenger, o Snapchat, o Instagram, as aplicações onde se encontra o sexo e amor, as noticias, as memórias fotográficas, as notas, a agenda, o despertador, os mapas. Tudo, porra. E as notificações não nos largam, fazendo com que o trabalho, os colegas, os amigos, as estrelas e as desgraças se deitem connosco.

Sabem o que não está no telemóvel, nem mesmo no computador? As pessoas, de carne e osso, as conversas olhos nos olhos, o toque e os tiques, os cheiros dos lugares. O que vemos nos ecrãs são as representações disso. Temos de optar: representações ou os que temos ao nosso lado, à mesa e na cama?

Sinto que a ilusão de aproximação serve apenas para que a concretude das coisas se deteriore. O que sobra de nós, pode ser insuficiente.

Não proponho uma abolição de algo que melhora a vida moderna em muitos aspetos. Proponho, sim, que por vezes se deixe o telemóvel desligar ou usar o modo de voo. Desta forma conseguímos ouvir melhor quem está ao nosso lado e ver as nuvens sem photoshop que estão no céu.

 

19
Jan17

Não volto para o armário, deitei-o fora


Leonardo Rodrigues

Recentemente colocou-se a hipótese de irmos passar as nossas férias à minha ilha. Após a última conversa que tive com um membro da família, decidimos manter o plano inicial e rumar para norte.

Recuando no tempo, assim que tomei consciência de quem era, mesmo que não tivesse um conceito de antemão, passei também a ter um segredo. O ambiente à minha volta exercia uma influência castradora. E, no fundo, eu próprio também não queria ser quem era.

Os tempos mudaram, assisti a uma transformação das pessoas e das mentalidades à minha volta. Mas, mais do que os progressos dos outros, orgulho-me do meu percurso. Nem no emprego necessito fingir ser quem não sou. Saí e deitei o famoso armário fora para viver a minha vida.

Fruto disto, e porque a vida assim quis, no ano passado passei a ter a meu lado alguém que considero digno de apresentar a toda a família. Ontem uma pessoa, que surpreendentemente não foi a mãe, pediu-me para nos comportarmos como amigos - impôs esta condição - , isto porque não queria ter de dar explicações à filha.

Há uma ideia em que insisto há muito: as crianças são uma tábua rasa. Se a elas forem transmitidos bons valores e conhecimentos, mais fácil será de não perpetuar preconceitos. Não me cabe a mim educar filhos que não são meus. Ainda assim, pergunto-me, que educação é aquela que não assume que existe mais do que o preto e o branco, escondendo os lindos tons de cinzento que os separam?

Algo que é fundamental compreender por todos é que os casais gays não pretendem fazer em público, em família, mais do que os heteros fazem. Não há cá tratamentos especiais. O escárnio de algumas pessoas está em fazermos o mesmo, como tocar numa mão, agarrá-la, fazer uma carícia na cara ou dar um beijo. O afeto não pode ser um tabu.

E, com isto, não posso compactuar, mesmo que amenizem dizendo que "aceitam o meu modo de vida, mas que...". E são muitos os "mas que" que só servem para andarmos mais devagar. 
Enquanto casal homossexual, não temos, nem vamos, agir de forma diferente da um casal heterossexual. Desculpem, mas já não andamos com nenhuma cruz às costas.

09
Dez16

Descobri que o PSD tem Facebook e faz vídeos


Leonardo Rodrigues

Para um partido, ter uma página de Facebook é algo que deveria fazer todo o sentido. O PSD faz-me contrariar a frase que escolhi para começar o post. Especialmente quando o partido usa este meio para deturpar a realidade, oferecendo um ponto de vista que, de tão próprio, nem os seus militantes entendem. Descobri um vídeo além-ridículo acerca das ciclovias e das bicicletas. Ei-lo:

 

Os números e interpretações do PSD são sempre curiosos. Geralmente, e enfatizando os últimos tempos, pouco contribuem para o debate público, muito menos para uma mudança e educação dos portugueses. Os números não são realistas e, pelas imagens, cobrem uma zona muito reduzida. TPC: ler definição de amostras representativas e maiorias parlamentares.

 

O inverno veio para ficar, embora se vá disfarçando de verão. Não é só agora que de repente vamos para as ruas contabilizar as bicicletas. Vou no meu quarto ano em Lisboa e o aumento é real. Os lisboetas sabem, só falta o PSD. 

 

Sempre que espero o autocarro pela manhã, num time frame variável entre 10 minutos a 1 hora, dependendo do estado de espírito da Carris, conto pelo menos 5 bicicletas e pelo menos um ciclista buzina-me por estar a dormir na ciclovia. O meu colega de casa, outro exemplo próximo, vai todos os dias de bicicleta para o trabalho. Estas ciclovias permitem, ainda, aos fãs da trotineta e do skate chegar a sítios.

 

Custa a muito boa gente que o betão e calçada são para andar, e que o pavimento rosa é para as bicicletas. Muitas vezes porque o do pedestre está degradado - e aí subscrevo, não é justo. Outras, só porque sim. O pedestre quer passeios em condições, o condutor uma estrada sem buracos e o ciclista exatamente o mesmo. Podem não fazer intenções de usar bicicleta, mas isto não é motivo para se opor a uma alternativa que polui zero e melhora a vida de todos - dos que caminham com menos fumo, dos que conduzem com mais espaço  na estrada e dos que querem um assento no autocarro.

 

O mundo, Portugal não pode ser exceção, necessita de alternativas de mobilidade sustentáveis, para o planeta e para a nossa saúde. Que a aposta passa pelos transportes públicos não há dúvidas, mas neste momento é isto 
 
Claro que nem sempre seremos nós a beneficiar diretamente das nossas infraestruturas. Em Lisboa, para além dos lisboetas, avistam-se todos os dias dezenas de turistas a usar bicicletas - são menos nos transportes públicos, menos a usarem outros meios poluentes como os táxis e ubers. É uma boa notícia para o ar - não se esqueçam deste dado adquirido. 
 
Porque estaria o PSD a tentar denegrir algo que faz parte do futuro? Não é com o futuro que o partido está sempre preocupado? Talvez porque o futuro das autárquicas é mais importante?
 
PS. CML, as ciclovias estão a ir a bom porto, que a Carris siga a mesma estrada.
 
 
 
 
05
Dez16

É bom dar, quando se pode


Leonardo Rodrigues

Há quem diga que natal deve ser todo o ano. Que devemos tratar sempre todos com respeito e amor, não há dúvidas. Dar a quem não conhecemos, constantemente, não é fácil, arriscaria impossível. Temo-nos a nós e aos nossos primeiro. 

Existem campanhas a decorrer constantemente. Em Lisboa fica difícil encontrar um sítio onde não estejam a tentar chegar-nos à carteira. As motivações não são as mesmas: é o cartão do Barclays, a campanha contra o cancro e também aquela para os patos rastejantes da Antártida. Cansa. Nem sempre tenho disponibilidade para ouvir, digo não obrigado e sigo, perdido com as minhas coisas.

Este sábado fui comprar os ingredientes necessários para um almoço digno de menu de restaurante, e um voluntário do banco alimentar abordou-me. Nem ouvi, dei a minha resposta de sempre e segui. Tive de passar por duas pessoas para perceber de que se tratava.

Estaremos demasiado habituados a dizer não que não sabemos quando dizer sim?

Voltei atrás e pedi um saco. Usei metade do dinheiro que tinha levantado para o nosso almoço e a outra metade para comprar, de forma inteligente, o que vai permitir várias refeições a alguém.

Aquece-me o coração a ideia de que, mesmo que não possa contribuir constantemente, esteja a ajudar a colocar comida numa mesa, algures. Já precisei de ajuda e tive alguém que me estendeu a mão, ergueu um teto e um prato quente.

Se nos arranjam datas em que é mais fácil dar, porque não?

 

29
Nov16

A empregada sabotou o dia em que eu conheci os pais


Leonardo Rodrigues

A primeira vez deixa-nos com os nervos à flor da pele, mexe com os intestinos, faz pulsar a veia da testa e, se for o caso, pode doer. Isto para a maioria das primeiras vezes. Quando conheci os pais dele deveria ter sido assim, mas a verdade é que nem tive tempo para pensar na grandiosidade da coisa até estar sentado, primeiro a respirar, depois a jantar. Estive demasiado ocupado a ser eletrocutado pela adrenalina.

Para o aniversário, ele decidiu fazer um jantar com os pais. Eu, enquanto namorado fofo e boa dona de casa, prontamente me propus a cozinhar. Queria, mesmo fora de água, sentir o conforto da cozinha. Quando chegou o dia ainda me tentou com a ideia do restaurante, mas não deixei. Ele ia trabalhar, a Fátima fazia as limpezas semanais e eu tornava o jantar possível. Parecia simples.

Estando de folga, dormi até às quinhentas, iludido pela simplicidade da vida. Levantei-me para ir fazer as compras e, como tinha tempo, decidi que ia comprar, comparar e comprar mais no Lidl, Pingo Doce e, para ter a certeza, Continente. Como estavam todos tão próximos, porque não? Fiquei quatro horas a passear sacos de um lado para outro, sempre com a ideia de que a empregada estava a fazer a sua magia.

Quando regresso a casa vi tudo como deixámos, até o pacote de Tuc se estava à vista de todos na mesa da sala. A Fátima não tinha feito magia. Embora tenha vasculhado a casa para perceber se tinha acontecido alguma coisa à mulher, não precisei de gastar mais neurónios para perceber que estava por minha conta.

Coloquei os calções mais curtos que encontrei, agarrei no aspirador como se a minha vida dependesse de matar o pó, lavei loiça, esterilizei a casa de banho, dobrei roupa e escondi coisas que não têm sítio fixo dentro dos armários.

Ele apanhou-me a 2/3 do desmaio. Com um sorriso na cara, contou-me que a empregada decidiu ir à segurança social e, como aquilo demora, achou melhor passar lá em casa no dia seguinte. 

Cozinhei para as 10 pessoas, as crianças comeram tudo, os adultos elogiaram, rimos muito. Portei-me bem e senti pertença. Mesmo que alguma coisa não seja, temos uma fotografia que vai ficar para sempre e que me faz sorrir.

No que diz respeito à Fátima, arranjei forças para perdoar-lhe porque no dia seguinte ela compensou com uma sopa sublime. Agora que ela vai para Londres de férias, eu vou aperfeiçoar as minhas sopas, assim reduzimos a nossa dependência e, com sorte, ela percebe que não me pode deixar à beira de novo ataque prozac sem aviso.

criada.jpg

 Imagem: A Criada Mal Criada

25
Nov16

Um colega que me quer comer... a paciência


Leonardo Rodrigues

É sexta feira, perdoo tudo, mas escrevo na mesma. Ao longo destes meses a minha vontade de ir trabalhar cresceu à medida que novos laços foram sendo criados e procedimentos interiorizados. Contudo, não podemos agradar a todos nem todos nos agradam. Tenho um colega que me adora dizer que fiz trapalhada ou inventar um procedimento adicional, fresco e inexistente. Por vezes pede desculpa e assume o erro, outras pede-me que o deixe falar, de forma muito calma, assertiva e irritante. Sempre que preciso que ele faça o seu trabalho, adotei a mesma estratégia: sorrio exageradamente, explico de forma extraordinariamente pausada o que pretendo e aguardo o clique em que nos agradecemos mutuamente. Hoje isto aconteceu, mas embora houvessem várias mensagens onde expliquei toda a situação e também o tivesse feito pessoalmente, quando estava a sair perguntou-me se me ia embora sem uma resposta. Três horas antes tínhamos feito o agradecimento mútuo. Expliquei-lhe apenas já tinha sido tratado, ele voltou ao que estava a fazer e eu vim de fim de semana. Sabem, eu não quero que deus me dê paciência, quero ser aumentado. É pedir muito?

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Copyrighted.com Registered & Protected 
HMLF-E7YY-MGTC-ZU7E

Lugares

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D