Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

LEONISMOS

LEONISMOS

25
Nov16

Um colega que me quer comer... a paciência


Leonardo Rodrigues

É sexta feira, perdoo tudo, mas escrevo na mesma. Ao longo destes meses a minha vontade de ir trabalhar cresceu à medida que novos laços foram sendo criados e procedimentos interiorizados. Contudo, não podemos agradar a todos nem todos nos agradam. Tenho um colega que me adora dizer que fiz trapalhada ou inventar um procedimento adicional, fresco e inexistente. Por vezes pede desculpa e assume o erro, outras pede-me que o deixe falar, de forma muito calma, assertiva e irritante. Sempre que preciso que ele faça o seu trabalho, adotei a mesma estratégia: sorrio exageradamente, explico de forma extraordinariamente pausada o que pretendo e aguardo o clique em que nos agradecemos mutuamente. Hoje isto aconteceu, mas embora houvessem várias mensagens onde expliquei toda a situação e também o tivesse feito pessoalmente, quando estava a sair perguntou-me se me ia embora sem uma resposta. Três horas antes tínhamos feito o agradecimento mútuo. Expliquei-lhe apenas já tinha sido tratado, ele voltou ao que estava a fazer e eu vim de fim de semana. Sabem, eu não quero que deus me dê paciência, quero ser aumentado. É pedir muito?
23
Nov16

Estarão as melhores pizzas de Lisboa em Almada?


Leonardo Rodrigues

Com a descida das temperaturas a afastar cada vez mais o verão, ficam as boas memórias. Algumas, evidentemente quentes, têm sabor e fazem sentido todo o ano. Uma dessas memórias é a pizza que comi na Casa da Pizza, em Almada. Num dos regressos das maravilhosas tardes de praia com ele, devido ao trânsito, fomos forçados a fazer um pequeno desvio para jantar. Lá demos com a casa onde vive a pizza.

 

O nome trazia muitas promessas, mas garanto-vos que foram cumpridas assim que a pizza perfumada com manjericão fresco nos chegou à mesa.

 

 

IMG_6112.jpg

Pizza Meridional (sumo de limão, salmão, manjericão, queijo mozzarela, salmão e orégãos)

 

A melhor parte, paladar de lado, é que esta pizza para duas pessoas custou apenas 10 euros. Se estiverem do lado sul do rio Tejo, sem uma carteira que pague uma fatia de pizza no Avillez, têm a resposta nesta casa.

 

 

Dica: já que estão a poupar na comida, optem por um vinho que não o da casa.

Descubram mais aqui.

 

 

 

12
Out16

Ao Encontro do Sul, Parte II - Albufeira


Leonardo Rodrigues

14682157_1930087600551919_4984922288728022895_o.jp

 

"A conquista do sul tarda, mas finalmente acontece", foi isto que escrevi numa SMS antes de sequer ter entrado no comboio que me iria levar de Sete Rios a Albufeira.  

Deveria ter percebido que não ia conquistar nada, afinal o comboio atrasou-se e, assim que chegou, levei com um presságio na barriga - na forma de caixa gigante da IKEA. Num outro dia teria entendido a mensagem, mas naquela sexta não deixei, não podia. Só pensei que assim que as carruagens deslizassem pelo caminho de ferro a minha vida em Lisboa entraria em modo de pausa. A primeira pausa, em 3 meses, a mais de 25km de Lisboa. Para agravar, melhorando, seria também o meu primeiro fim de semana fora com aquele que me atura quase diariamente. 

Se por um lado a procura anterior pelo sul se fez contra a corrente, esta fez-se de frente, junto das vistas. Respirei de alívio quando me sentei e senti a capital a ficar para trás.

O lugar da janela, confirmado por duas vezes, era meu. A senhora que me acompanhou não queria o sol e eu queria a vista. Não se omite um sem omitir a outra. Tentámos um meio termo desconfortável que sei que não foi do seu agrado. Então, abdiquei do apoio de braço sem abrir a boca, contando que se apercebesse do meu gesto de tréguas.

Depois, e dizem-me que é assim em mais sítios, as pessoas que pedem na CP são mais sofisticadas, distribuem um papel - há tempo para estas coisas, bem sei - , deixam os passageiros ler e depois passam para recolher o papel e o dinheiro, se nos convencerem. Achei interessante, não invade. No metro temos que ouvir todos. Ainda partilhei com a minha companheira de viagem que seria mais útil um exame, que não poderia comprovar o estado clínico de alguém através de uma folha onde se pode escrever qualquer coisa. Claro que me censurou, mas também não contribuiu.

Já tinha deixado algumas notas sobre a minha perceção da viagem para depois escrever um post, mas tive que interromper a escrita porque começámos a conversar, eu e senhora que queria a cortina fechada. Foi extraordinário e três chapadas na cara para mim.

Embora com mais de 20 anos de diferença, tínhamos tanto em comum e partilhávamos ideais semelhantes. Houve também espaço para discutir a atualidade - daquela semana - , do burkini, passando pelo nudismo nas praias portuguesas - intemporal? - , ao EI. Mas, à parte do Amor, a questão que mais nos apoquentou foi: será que os alentejanos estão conscientes da qualidade de vida que têm? Eu nunca estive consciente da que tinha na Madeira.

Os Montes parecem pincelados de castanho, com manchas verdes e brancas e é preciso treinar o olho para enxergar pessoas.

Ao namorar as pequenas aldeias que avistava senti uma grande vontade de partir a janela e atirar-me para lá, de fazer parte daquilo. Não sei onde era. Crianças disseram adeus da rua, talvez seja fascinante verem um comboio de possibilidades, que transporta pessoas oriundas da capital, não sei. 

Uma vez em Albufeira, acho que poderíamos ter aproveitado o fim de semana de outra forma - scones: check; piscina: check; água do mar aquecida por Neptuno: check.

14124483_1757773434474348_488097994839979289_o.jpg

 

Caminho até à praia

 

Como não só de coisas boas se faz check, e tendo em consideração que fui avisado pela caixa do IKEA, o impensável aconteceu, tive de o partilhar durante metade do tempo útil do fim de semana com uns amigos do ex que encontrou na praia. Concordei em fazermos praia com eles, depois dei por mim a jantar num restaurante chamado Ricardo's, escolhido por eles. Não me posso esquecer que também saímos à noite. Agradeço ao vinho a coragem.

 

14707011_1930102963883716_7023350753964880869_o.jp

O restaurante tem o nome do antecessor. Não acredito em coincidências. Mentiria se dissesse que não simpatizei com os moços. Ri-me bastante e esse é um bom indicador, só me queixo do fim de semana idealizado se ter esfumado.

 

Num próximo encontro com o sul expliquei-lhe que vamos para um sítio deserto, onde a única coisa que pode soar familiar seja o som dos pássaros. Depois, se o tempo deixar, também vos deixo entrar a bordo do próximo encontro.

23
Set16

"Parabéns Carris, pelo serviço de m***a"


Leonardo Rodrigues

13894989_1891368794423800_6692051736891903928_n.jp

 

Como não posso escrever uma reclamação por dia, vou escrever um post e deixá-lo cá para sempre. Os clientes da Carris sabem que a experiência, infelizmente, é intemporal, nunca melhora e só há sinais de que piore. Tenho visto os autocarros com "Parabéns Carris" e apercebi-me que é sentido de humor negro por parte dos senhores que não dependem do seu próprio serviço. Mas, como muitos não entenderão, eu explico o que eles querem realmente dizer: "Parabéns Carris, pelo serviço de merda -  já o prestamos há décadas".

 

Vivo em Lisboa há mais de 3 anos, mas só me queixo agora da empresa, o que se deve a diversos fatores: vivia ao lado da faculdade; andava fosse que distância fosse a pé e metia-me no metro quando estava cansado; utilizava pontualmente o autocarro. Nos últimos quatro meses, fruto do meu novo emprego, que fica nos subúrbios da cidade, entendi o mal de que todos se queixam: Carris, a merda da Carris. 

 

Dou por mim, metade da semana, a demorar mais de uma hora a chegar ao trabalho e, uns bons 90 minutos para regressar a casa. Se a Carris conseguisse cumprir com a publicidade enganosa, sob forma de horários de paragem, demoraria 30. Durante o verão, chegar a casa chegou a demorar-me 3 horas. Raros são os dias em que não me chateio.

 

Um part-time, com os tempos de espera, o sol das paragens, o ar parado irrespirável dos autocarros, torna-se num full-time.

 

Claro que já perguntei aos condutores o que se está a passar, eles não têm a certeza, mas também parecem cansados de conduzir com um sovaco na cara. Um respondeu-me: "eu saio quando eles me mandam sair".

 

É nesta frase que quero pegar para justificar a fotografia que vêem acima. São três autocarros da carreira 731 a chegar em simultâneo à paragem. Foram os três que falharam todos os horários daquela hora que estivemos à espera. Assim que o 1 º autocarro da frota parou, o motorista, em vez de tentar cumprir com 3º horário falhado, foi discutir com o que vinha em 2º lugar. Lá esperamos mais um pouco. Afinal, qual é o problema de todos os meses canalizar perto de 40 euros para treinar a paciência?

 

Foto explicada, falemos do famoso 750. Apanhar o 750 em Alvalade é desafiante, mais à frente, pode ser impossível. À hora que tenho de o apanhar, escreve-se na paragem que passa com a frequência de 11 minutos. Hoje esperei meia hora. Na semana passada esperei uma hora, tive que desistir de esperar e cheguei ao emprego 40 minutos atrasado. São menos 40 minutos no meu salário. Nem todos podem apanhar um táxi sempre que o serviço que pagam de várias formas não é cumprido.

 

Para os portugueses que vivem fora da nossa capital excecional, até vou dar mais contexto. A carreira do 750 passa, entre o Oriente e Algés, por muitas zonas onde o metro não chega e acaba por ser a melhor alternativa para um número considerável de passageiros, que trabalham longe da sua residência. É feita todos os dias por autocarros biarticulados velhos. Não me recordo de, nestes últimos meses, ter entrado num que tivesse o ar condicionado a funcionar, embora o vidro apregoe que tem - já nas paragens a informação não vale muito. Refiro-me a este autocarro como o autocarro do terror.

 

image

Todos os dias este autocarro biarticulado vai cheio. As pessoas, desesperadas, porque estão dependentes para cumprir horários, entram pelas portas traseiras. Ficamos encostados uns nos outros e para sair há necessidade de empurrar. Respirar bem não é possível fruto da inexistência de ar condicionado. Durante uma hora, respiramos tão bem como numa ETAR.

 

Naqueles autocarros onde o ar condicionado funciona - existem -, é possível que o deixe a cheirar a mofo ou que fique demasiado frio, mesmo com os 30 graus no exterior. 

 

Há algo ainda mais curioso, acho que a Carris é uma nadinha elitista. A qualidade dos autocarros e frequência dos mesmos parece-me variar de acordo com as zonas. Um autocarro biarticulado que vá para as Amoreiras(783) é novo, o ar condicionado funciona sempre e até tem wi-fi. Enquanto espero por um 750 cheio, passam 783 - um cheio, os outros dois quase vazios. Coisas semelhantes acontecem com outras carreiras, mas o post vai longo e ainda não me queixei do 714.

 

O 714 é outra das 3 possíveis carreiras que posso apanhar junto do meu trabalho, sendo que no regresso é a única que faz sentido. Para além do elevado tempo de espera e de muitas vezes só passarem autocarros num sentido, o autocarro fica completamente cheio em Belém devido ao elevado número de turistas, à semelhança do elétrico 15E. Todos os dias o autocarro tem de saltar paragens porque já não cabe mais ninguém. Mais frequentemente do que queria, saio várias paragens antes porque é insuportável continuar a viagem que paguei naquelas condições.

 

Claro que se fosse para escrever sobre as pequenas infrações dos motoristas, por vezes má educação, não acabaria o post hoje e estaria a fazer generalizações injustas. O problema está lá em cima. Todos os dias, dou por mim a falar com estranhos na paragem, para desanuviarmos acerca do quanto a empresa mexe com as nossas vidas. Nem sei o que sugerir, não me pagam para isso. Acho que se a empresa conseguir cumprir com os autocarros previstos já é um bom principio e nós agradecemos.

 

 

04
Jul16

O mundo sobre rodas de Craig e Lauren - Entrevista (com fotos)


Leonardo Rodrigues

IMG_0912.JPG

 

 

Escreve-se mal acerca da tecnologia e do que a mesma fez às nossas relações. O que esquecemos, muitas vezes, é que somos nós que detemos o controlo sobre estes meios de ligação ao mundo. As imagens sempre me fascinaram e deus sabe como abundam na internet, especialmente em plataformas como o Instagram. Foi por isso que, há 3 anos, me juntei a esta grande comunidade. Houve retorno. Partilhei momentos que decidi congelar e vi os de outros, de todos os cantos da Terra. Para além de me cruzar com imagens que me fizeram parar durante minutos, de expandir os meus horizontes e de ver o mundo antes de o visitar, conheci gente maravilhosa como o Craig e a Lauren. Este casal percorre o mundo numa carrinha, não levam a casa às costas, mas, sim, sobre rodas. Falei com eles e, garanto-vos, as fotos não mentem, são quem mostram ser: duas almas livres com sede de viver com todos os sentidos. As apresentações estão feitas, só falta ler a nossa conversa. 

 

Leonardo Rodrigues: Em poucas palavras, quem são vocês?

Craig e Lauren: Nómadas a explorar o mundo.

 

LR: Antes de irmos ao tema das viagens, como é que vocês os dois se conheceram? Foi amor à primeira vista?

C&L: Conhecemo-nos há cerca de 10 anos atrás, num restaurante italiano onde trabalhávamos os dois. Não foi amor à primeira vista, éramos apenas amigos de trabalho. Foi então que o Craig decidiu ir viajar com um colega enquanto eu fiquei a trabalhar. Quando voltou, 5 meses depois, para juntar dinheiro para outra viagem, tornamos-nos ainda mais amigos e as coisas fluíram a partir daí.

 

LR: Quando é que decidem que estariam melhor na estrada e começam tudo isto?

C&L: Eu queria ter tentado viajar antes com amigos, mas estes cortaram-se sempre, o Craig ficou com o bichinho das viagens após a viagem com o amigo. Juntos decidimos ir para a Austrália, onde poderíamos viajar e trabalhar. Desta forma iríamos ter também a possibilidade de ver a Ásia com o dinheiro ganho. Acabámos por nos ausentar durante vários anos.

 

LR: Como é que conseguem manter este estilo de vida?

C&L: Nós geralmente trabalhamos como empregados de mesa ou de balcão durante 6 meses até um ano, amealhamos e depois gastamos o dinheiro em experiências. Poupámos imenso de forma a comprar uma carrinha para habitar, uma vez que isto significa que não teremos de pagar hotel. Para além disto, podemos sempre vender a carrinha quando terminada a experiência.

 FullSizeRender (3).jpg

LR: Durante os últimos oito anos vocês estiveram um pouco por todo o lado e aposto que, mais do que os sítios fantásticos que vemos nas vossas fotografias, conheceram grandes pessoas. Quem é que teve o maior impacto em vocês? Há alguma história que guardam convosco?

C&L: A maior parte das pessoas memoráveis que conhecemos são pessoas que se cruzam connosco nos sítios onde vamos trabalhando. Fizemos grandes amigos. O nosso patrão na Nova Zelândia tinha uma idade próxima da nossa e por isso demo-nos muito bem. Tivemos muita sorte, foi graças a ele que tivemos tantas experiências dignas de nota por lá: ele levou-nos para a sua casa de Lago, em Taupo, onde pescámos pela primeira vez e nadámos em águas claras como o cristal. Ele costumava emprestava-nos o seu carro para as roadtrips que fazíamos nos dias de folga e ainda chegou a convidar-nos a ficar com os pais no campo. Ajudámos a alimentar bezerros e dormimos numa cabana remota. E ainda levaram-nos a caçar.

 

IMG_1124.JPG

 

LR: Qual o vosso truque para planear as viagens?

C&L: Eu faço todo o planeamento e o Craig fica encarregue de conduzir. Geralmente passo os olhos pelo Lonely Planet e escrevo todos os locais que quero visitar, seguido de uma pequena descrição. Depois desenho um mapa e marco onde estes locais se situam, o que me dá uma ideia mais clara sobre a melhor rota a utilizar. Também costumo encontrar fotos no Pinterest, blogs e Instagram de sítios que gosto, que adiciono a este meu mapa.

 

LR: Quando olho para o que fazem vejo apenas uma pequena desvantagem: quando estão na estrada só se têm um ao outro. Costumam chatear-se? Como lidam com isso?

C&L: Sim!!!! Enlouquecemos! *risos* Levamo-nos à loucura constantemente, mas estamos enfiados numa carrinha e não há nenhum outro compartimento para onde possamos ir e amuar, então temos de engolir e seguir em frente. Os pontos altos definitivamente compensam os baixos, a verdade é que estamos bem a maior parte do tempo.

FullSizeRender (2).jpg

LR: Diriam que viajar tornou-vos mais fortes enquanto casal?

C&L: Sim. Antes de começarmos a viajar só estivemos juntos durante um ano, depois passámos a estar juntos 24/24. Na maioria dos nossos empregos temos horários e folgas compatíveis, por isso não há pausas um do outro, gostamos assim. Em alguns trabalhos tivemos horários diferentes e isso foi um pouco estranho. Somos uns sortudos por gostarmos tanto da companhia um do outro.

 FullSizeRender (1).jpg

LR: Ponderam ter uma vida dita normal, criar raízes, ter filhos e essas coisas?

C&L: Talvez no futuro. Estamos a ficar mais velhos. À medida que o tempo passa começamos a preferir gastar mais dinheiro num quarto confortável quando estamos em "modo backpacking”. Em tempos, chegámos a ficar em sítios horripilantes, agora prezamos mais o conforto. Adoraríamos uma casa simples de campo, com apenas um pedaço de terra e uma cabana ou até mesmo viver num daqueles contentores de transporte. Sabemos como manter um estilo de vida minimalista e não precisamos de excessos. Gostaríamos de poder cultivar os nossos próprios vegetais, de ter galinhas, vacas e um cão - mais do que uma criança nesta fase das nossas vidas. Seria ótimo ter uma base destas que nos possibilitasse fazer viagens mais curtas e saber que temos sempre um sítio fixo para onde regressar, quando regressamos a casa.

 

LR: Qual a fotografia que tem a melhor história ou qual a história que tem a melhor fotografia?

C&L: É muito difícil escolher apenas uma fotografia, mas diríamos que é a que tirámos ao estacionar junto de um fiorde na Noruega. Tínhamos uma vista incrível da nossa carrinha e abrimos as portas traseiras para relaxar, uma vez que íamos passar lá a noite. Um navio de cruzeiro enorme passou pelo fiorde com centenas de pessoas a bordo, enquanto estávamos a desfrutar daquele cenário só nós os dois, de borla. Foi uma sensação maravilhosa.

 FullSizeRender (5).jpg

LR: Podem deixar umas palavras de encorajamento para os aspirantes a viajantes?

C&L: Todos podem viajar como nós. Não temos empregos altamente remunerados, nem recebemos dinheiro dos nossos pais. Muita gente pergunta como conseguimos, quando na realidade toda a gente pode, só têm de tomar a grande decisão de perseguir os vossos sonhos. Comprem uma carrinha, explorem o selvagem, façam caminhadas, nadem, conduzam e repitam. Só têm de gerir bem o dinheiro. Se gostarem muito de frequentar bares a experienciar a vida citadina hão de estar no voo de regresso a casa em pouco tempo ou constantemente a trabalhar e a não ver nada do país de forma a pagarem essa forma de estar.

 FullSizeRender (4).jpg

LR: O que podemos esperar de vocês em breve?

C&L: A nossa fantástica viagem aos Estados Unidos, claro. Temos até Outubro ou Novembro para chegar à Florida, vai ser uma viagem e pêras. Atualmente estamos a desfrutar das montanhas do Alasca e da sua vida selvagem abundante. Temos uma longa viagem pela região selvagem do Canadá, a caminho das Rocky Mountains. A partir de lá, vamos reentrar nos EUA e explorar o Parque Nacional de Yellowstone, desertos de rocha vermelha e cidades remotas. Eventualmente chegaremos à Florida solarenga, que serve de casa para o peixe-boi, flamingos e crocodilos. Viajamos maioritariamente para experienciar a vida selvagem e a natureza, por isso esperem muitas fotografias bonitas das nossas caminhadas e inspirar pessoas a uma vida numa carrinha.

 FullSizeRender (6).jpg

 FullSizeRender.jpg

Instagram: https://www.instagram.com/nonstoptravelling/

Blog: https://nonstoptravelling.wordpress.com/blogs/

09
Abr16

Ao Encontro do Sul, em Évora (com fotos)


Leonardo Rodrigues

Há quem queira encontrar o norte que perdeu, eu, como já tive muitos encontros com ele, quis ir ao encontro do sul. Em Portugal Continental, como vos disse em tempos de Meet the Blogger, nunca tinha ido além do Portinho da Arrábida. Então, lá fiz eu a minha tentativa até Évora. 

 

Eram 10 em ponto quando o comboio, muito cumpridor dos seus horários, deixou a estação de Entrecampos, começando assim a nossa procura - minha e do Rúben - pelo sul. Escolher lugares de comboio definitivamente é algo que não poderá constar no meu CV, a não ser que seja para remar contra a maré. Depois de ultrapassada a frustração com os lugares, passou a ser hora de desfrutar das vistas. Os livros de geografia estão certos, fica tudo mais plano e, de vez em quando, avista-se um monte. Acho que nunca tinha visto tantos quilómetros seguidos de terra plana, tanta que os meus olhos não conseguiam avistar o fim. Estas terras portuguesas, confirma-se, preenchem-se de oliveiras, vinhas, grandes e pequenas propriedades amorosas e caminhos, mais frequentemente do que se podia esperar, de terra batida. A minha infância, antes das construções desenfreadas de  A.J.J., também os tinha.

 

Sinto-me sempre uma criança curiosa quando vou para um sítio que desconheço, especialmente de comboio, que tem o seu quê de mágico. Como as crianças, dúvidas curiosas trespassam o pensamento: será que vamos encontrar alentejanos nas esquinas à espera que o vento lhes passe o jornal? E eram disparates deste género que me voltava para a direita para dizer e perturbar o meu companheiro de viagem, que lia atentamente o Expresso - já que o encontrou, parecia mal não ler o Jornal. 

 image.jpg 

Uma hora e meia depois lá estávamos nós e, como a sorte nasceu para morrer connosco, chovia a potes. O percurso da estação ao interior da cidade medieval fez-se quase que por instinto e recheado de piadas macabras sobre Dianas, vai-se lá entender o porquê.

 

Como turistas experientes que somos, o primeiro passo foi pedir um mapa, depois, claro, tomar outro café.

 

 image (11).jpeg

 

Na Praça do Giraldo, o café que nos chamou à atenção, talvez pelo nome familiar, foi o Café Arcada. De tão amplo e cheio, parecia albergar todas as pessoas em Évora que sabem que o dia só começa com um café bem tirado. Isso reassegurou-nos que era ali que deveríamos estar. Para acompanhar a bica pedimos algo de tradicional e recomendaram-nos duas coisas, só uma pareceu viável: a queijada. Pode até ficar mal dizer, mas esta foi a única queijada continental que gostei e que tive apetite de repetir. Escusado será dizer que o mapa e todo o dinheiro - não muito - na mesa ficou, não fosse eu ter colocado o tabuleiro do pequeno almoço em cima. 

  

 

image (15).jpeg

 

 

 
fotografia 2.JPG

 

Embrance Évora foi o hostel escolhido para pernoitar. Era tudo o que queríamos. Em termos de localização não podíamos pedir mais central, fica numa rua entre a Capela dos Ossos e a Praça do Giraldo. A decoração era, também, absolutamente irrepreensível: moderna e acolhedora. Todos os quartos têm alcunhas, a do nosso assentava-nos que nem uma luva: viajantes. Entre as camas havia uma moldura com uma mensagem deveras inspiradora: "O mundo é um livro e aqueles que não viajam lêem apenas uma página."

 image (2).jpeg

 

Do hostel, há ainda que realçar o pátio fabuloso que, infelizmente, devido ao estado do tempo, não conseguimos utilizar e o terraço donde fomos observar a noite eborense. Quanto ao preço, a noite custou-nos 30 euros - com um pequeno almoço que continha produtos da zona incluído

 

Próximo do hostel, como disse, estava localizada a conhecida Capela dos Ossos, o monumento pelo qual mais ansiávamos ver. Há alguma dificuldade em explicar os sentimentos que surgem quando se pisa um sítio daquela natureza. Acho que o nome e ler sobre o local em nada nos preparam para a visita. É arrepiante olhar em volta e ver os ossos de tanta gente, que nos parecem perseguir com o olhar, havendo à entrada o seguinte aviso: “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. O objetivo dos frades franciscanos fica assim cumprido, sendo que a visita convida-nos a repensar a nossa condição, a fragilidade, a fugacidade e, digo eu, insignificância da vida.

 

image (16).jpeg

 

image (1).jpeg

 

Próximo dos limites da cidade, acabando a sua estrutura por fazer parte da muralha, encontra-se o Palácio D. Manuel. Como tínhamos pouco tempo até o fecho decidimos tirar partido dos jardins, em vez do que estava exposto no interior. Escusado será dizer que os bancos vermelhos, que podem ver acima, acompanham toda a área verde e agradam os olhos. É também nos exteriores deste palácio que se encontram as tais "Ruínas Fingidas" que, antes de terem realçado serem construídas com materiais provenientes de outras construções, nos fizeram render à expressão "cidade museu" - algo que utilizamos para nos referir a basicamente a tudo o que o olho encontrava. Embora não tenhamos prestado muito atenção ao que estava exposto, o Rúben fez questão de utilizar as instalações e o pouco tempo que tínhamos para disseminar a sua ideologia de paz, sexo e amor....

 

image (13).jpeg

 

O Art Café, também localizado próximo do nosso hostel, foi outro verdadeiro achado. O que nos cativou primeiramente foi a música menos comum que se fazia ouvir da rua. Lá dentro, o ambiente distinto. Os objetos que decoravam o espaço não eram apenas obras de arte e, a um primeiro olhar, pareciam fazer parte da coleção de memórias de alguém. Depois, pareceram-me memórias que foram sendo deixadas ao longo dos tempos por todos os que lá passaram. O poema, no placard ao lado da mesa, assim o evidenciou. Quando regressámos, no dia seguinte, para beber um café de despedida, na impossibilidade de escrever poesia, deixámos os nossos pacotes de açúcar afixados. Afinal de contas, os contemporâneos só nos têm reassegurado que a arte pode ser qualquer coisa. A nossa celebra a hipocondria e, como tal, o consumo mínimo de açúcar possível, afinal a vida é mais doce sem diabetes.

 image (12).jpeg

 

De volta aos monumentos, temos o Tempo de Diana. Foi aqui que o Rúben repreendeu uma turista espanhola, dizendo-lhe que não podia estar lá encostada, uma vez tratar-se do nosso património cultural. A senhora, super constrangida, pediu-nos desculpas aflita. Ri-me desalmadamente. 

 

fotografia 1.JPG

 

Houve muita dificuldade em fotografar toda a experiência, uma vez que o câmara do meu iPhone tem vontades próprias, chovia e a luz que tínhamos não era propícia à arte. Ainda assim, deixo-vos mais algumas fotos antes de concluir o post.

 

No Jardim dos Colegiais, que fica próximo da antiga sede da Universidade de Évora.

image.jpeg

 

O Aqueduto de Água de Prata fotografado do exterior da muralha, embora, a certo ponto, se unam. 

 

image (5).jpeg

 

Aproveitei a fotografia do Rúben para fazer a minha. Neste edifício, que fica ao lado da Fonte das Portas de Moura, localizam-se apenas serviços administrativos

 

image (3).jpeg

 

Nestes dois dias conseguimos ver imensa coisa, inclusive o Forúm Eugénio de Almeida, o Museu da Carruagem, o Arco Romano da Dona Isabel e tudo o que as várias voltas que demos permitiram. Confesso que a certo ponto não sabíamos que mais fazer, então continuámos a passear nos círculos inerentes ao planeamento de uma cidade medieval. 

 

Para a questão que me surgiu no comboio envolvendo jornais, vento e alentejanos a resposta é não. Contudo, a preguiça confirmou-se quando, ao pedirmos indicações para regressarmos à estação de comboios, nos disseram que era melhor ir de autocarro, porque ficava muito longe - 10m a pé.

 

E na estação ferroviária de Évora terminou o passeio, onde o começámos - não fosse tudo assim - , mas nem aqui se acabaram as aventuras. Tivemos um encontro a 3, fruto das dating apps, com alguém - não o escrevo assim por questões de confidencialidade, mas porque quando entramos no comboio já não nos lembrávamos do nome. Deste último episódio, só agradeço por sermos dois a tentar manter um ritmo socialmente aceitável de pergunta-resposta-pergunta-resposta até o comboio chegar. 

 

O Rúben, a única pessoa que consigo tolerar durante vários dias seguidos, refere-se a estes passeios como fugas e costuma perguntar-me "vamos fugir?". Garantidamente que sim, vamos fugir mais vezes para regressar e partilhar tudo convosco. 

 

Sigam o Blog Leonismos no Facebook para não perderem o nosso comboio. 

 

26
Dez15

Resolução para 2016


Leonardo Rodrigues

Neste ano que quase passou, entre mil, tinha como resolução escrever mais e chateia-me que não o tenha feito. A verdade é que não tenho sempre o que escrever, embora, enquanto pessoa atenta que sou, por vezes tenha a felicidade de ouvir uma mãe a dizer à filha que a vai por a ganir no supermercado ou uma senhora a dizer ao marido que lhe há de fazer o dobro dos galos, mas não há muito que retirar dali a não ser: automedicar-me antes de decidir casar e ter filhos, ou não o fazer.

 

Quando tenho demasiado também costumo abster-me. Há uns tempos disse-vos que ia rumar a sul e lá fui, mas foi tão bom que, com demasiado pano para mangas, decidi guardar tudo para mim.

 

Como 2015 está a acabar, e sendo que encontrei a minha nova resolução no Porto, prefiro levar-vos para norte - o ponto cardeal que todos têm medo de perder - e contar-vos fragmentos das minhas visitas até à resolução para o ano novo.

 

As viagens que até lá tenho feito revelam-se sempre palco de novas descobertas e, mais recentemente, aprendizagens, afinal descobrir nem sempre implica aprender.

 

Na primeira visita, quando tinha apenas oito anos, escolho recordar-me apenas de ouvir 10 vezes uma palavra começada por "c", num jantar com amigos da família. Da boca da minha mãe, até à data, só tinha ouvido a que começa com "m" e, pela minha tia, a f word. Quero com isto dizer que não aprendi nada, apenas descobri uma palavra nova que não podia usar.

 

Na segunda, já maior de idade e com um doutoramento em palavras curtas com significados fortes, não aprendi mais, mas pude empregar tal vocabulário, ainda que mentalmente, ao descobrir que nunca vou entender como funciona o metro do Porto - possivelmente por casmurrice.

 

Na terceira, sendo que na maior parte do tempo só tive a companhia da chuva, ao caminhar, aprendi que o mais importante não é a companhia dos outros ou os níveis de pluviosidade, mas a minha capacidade de desfrutar de mim. Então, com um sorriso na cara, dançando com o vento e com a chuva, lá subi e desci tudo o que era rua e percorri os essenciais, da Ponte D. Luís à Livraria Lello.

 

Como as coisas só podem melhorar, nesta última e quarta visita, sentei-me finalmente no café Majestic e não poderia ter ficado mais satisfeito, especialmente com aquilo que tocava o pianista.

 

Mas só depois de cair o sol, quando fui para a outra margem olhar o Porto, é que viria a encontrar a minha resolução para 2016, e da forma mais caricata possível. Fui abordado por alguém que dizia querer saber as horas, embora as tivesse para me corrigir. Depois perguntou-me se era artista, sem saber ainda se era um assalto, ri-me e disse, com pouca convicção, que quase jornalista. Após alguma conversa e eu a não perceber que tipo de assalto era, ele diz-me ao afastar-se: hoje em dia toda a gente pode ser o que quiser ser, fica bem.

 

Senti-me parvo por ter pensado mal de alguém que tem a capacidade meter conversa com qualquer pessoa, em qualquer lado, e fiquei a pensar naquela frase até hoje, o que me fez decidir que este ano o meu único desejo, mais do que nunca, é ser quem quero ser.

 

Acho que foi a ausência de consciência de quem quero ser que me levou a adiar ou desistir de certas coisas este ano. Penso que não estou sozinho. Da última vez que desistiram das vossas resoluções estavam a ter em consideração a pessoa em que se querem tornar ou a vozinha que diz que não são capazes?

 

Como sei que têm de comer tudo o que encontrarem com açúcar até à nova dieta, vou calar-me com o que me diz um grande amigo meu, "só tens que fazer o que é para fazer a seguir", sem desculpas - essas podem mandar se "f", para o "c" e para a "m".

 

image.jpg

 

20
Set15

Despedi-me


Leonardo Rodrigues

image.jpg

 @rubenandresantos

 

Até há uns minutos atrás não estava certo se iria voltar a escrever sobre esta experiência com o Call Center, O Monstro, mas a verdade é que estou. Faço-o, em parte, devido ao destaque feito pelo Sapo do post anterior, o que o tornou no mais lido deste blog de tão tenra idade. No entanto, o melhor não foram os números que apareceram no contador de visitas, mas sim os comentários e e-mails que fui recebendo ao longo do dia, de todo o tipo de pessoas - umas com experiências semelhantes e outras que, mesmo não as tendo, se conseguiam relacionar de alguma forma com o que foi escrito.

 

Foi sempre esse o meu objetivo com o blog, partilhar experiências de uma forma que marcasse a diferença, permitindo a quem lê encontrar um bocado de si, refletir e, se possível, gerar ainda mais partilha. Verdade seja dita, começo a ter um gozo cada vez maior em abrir e fechar capítulos da minha vida convosco, independentemente de quem são e até mesmo nos dias em que são menos a me ler.

 

Dito o que se pretendia ser um agradecimento, despedi-me, mas disso já deviam suspeitar pelo título.

 

Confesso que não sabia que o ia fazer tão rápido. Naquele dia, quando cheguei ao trabalho perguntaram-me se estava tudo bem, daqueles "tudo bem" tão retóricos que quase nem têm de ser respondidos. Respondi, sem filtros, que não estava nada bem. Estava exausto e infeliz. Ter um full time e estudar é ter um no time para a vida - a quem consegue fazê-lo, os meus parabéns. Perguntaram-me, então, se me queria ir embora, dizendo-me que o mais importante era eu me sentir bem e feliz. Anuí.

 

Embora não estivesse lá há muito tempo, sentia um carinho enorme por quem trabalhava comigo. A maior parte dos que lá estão são licenciados, gente inteligente, com sentido de humor, personalidades bastante peculiares e, acima de tudo, sonhos. Sonhos que vão do mundo do marketing à indústria farmacêutica, mas que vão sendo abafados pelas vozes dos clientes e pelas nossas, que temos de projetar em piloto automático, constantemente, mesmo que não apeteça falar sobre aqueles assuntos.

 

Muitos dos empregados, seja onde for, tendem a ter uma relação má com aqueles que lhes são superiores. Eu não, aliás, senti uma empatia imediata. Eles também. Nem mesmo depois de ter feito uma piada sobre a Amadora, berço da minha chefe, se nos demos mal. Substituí, na altura, esse comentário por "Eu amo a Amadora". Mal sabia eu que me iria ser pedido que gritasse isso entre chamadas, para toda a sala. Disse-o tantas vezes que agora acredito nisso. Excetuando uma discussão mais séria sobre máximas pessoanas, todas as palavras que trocámos eram carregadas de um sarcasmo luso-britânico, e isto enquanto nos íamos tratando por você.

 

Aqui descobri que gostava de ser tratado por você, algo que como devem calcular, nos meus 20, não acontece com grande frequência. É importante frisar que o você nada tinha que ver com todo este sarcasmo, era respeito. Nem sempre tive grande respeito na minha vida, mas noto que a cada dia que passa vou ganhado mais, tanto da parte dos outros como da minha, por mim. Despedir-me, despedindo o monstro da minha vida, é prova disso mesmo.

 

Embora tenha de fazer uma ginástica acrobática olímpica financeira - muito dificilmente tal coisa existe, mas a vida é demasiado curta para o verificar, tal como o é para manter trabalhos que não me preencham - sinto-me aliviado. Um alívio que o salário, por melhor que fosse, não comprava.

 

Não sei o que se segue para mim, não há necessidade de fingir ter certezas quando quase só tenho dúvidas, mas, digo-vos, é entusiasmaste não saber! Peço-vos que, quando para isso houver margem, despeçam os vossos monstros quantas vezes forem necessárias, para que os sonhos se possam cumprir. Mais ninguém os enfrentará por vós.

 

12
Set15

Dez Mil Turistas do Mundo | Ten Thousand World Tourists


Leonardo Rodrigues

11017604_1390170534633330_92295482_n.jpg

@andyto 

 

O meu maior sonho foi sempre viajar e escrever, viajar para escrever e escrever para viajar. Todo um ciclo altamente vicioso que, uma vez começado, não quero que acabe.

 

Há uns meses, sabendo bem que ainda não me é possível fazer disso vida, com um curso e uns quantos trabalhos detestavéis como prioridade, decidi criar uma comunidade onde pessoas de todo o mundo tivessem a possibilidade de viajar através de imagens de outros e de partilhar as suas memórias fotográficas com um público mais vasto. E assim se alimenta a alma do (quase) viajante.

  

Onde? No Instagram. Como? Com uma Hashatg. Nos dias de hoje é assim tão simples.

 

É desta simplicidade que surge World Tourists. Esta semana atingi os dez mil seguidores e a hashtag #worldtourists já se encontra em mais de 23 500 publicações. 

 

Para além de ter começado a conhecer melhor o mundo, ainda que virtualmente, conheci pessoas extraordinárias, com vidas que condizem com as fotos. 

 

Por essas terras digitais, de que muito mal se fala, houve um casal que se destacou, tanto que o convidei para uma entrevista que irá ser publicada em breve na minha rubrica Conversas com Vista. Desta entrevista vou apenas revelar que se trata dum jovem casal que percorre o mundo de carro há 7 anos. Para não a perderem coloquem gosto na página do blog.

 

Resta-me desejar a todos um bom fim de semana e muito boas viagens pela comunidade que podem aceder a partir daqui

 

(E sim, já fiz este post, mas não foram apenas os números a mudar. Devido a uma conversa fantástica que tive ontem passarei, também, a escrever e a publicar os posts em inglês, começando hoje.)

 


My biggest dream was always to travel and to write, traveling to write and writing to travel. A vicious circle that once started, I’m hoping it won’t ever end.

 

A few months ago, knowing that I can’t make a living out of this for now, with a degree and a few awful jobs ahead of me, I decided to start a community where people from all over the world could have the chance of taveling through pictures of others and of sharing their own photographic memories with a wider public. This is how we can feed the souls of a (almost) traveler.

 

Where? On Instagram. How? With an hashtag. Nowadays it’s really this simple.

 

And, it’s from this simplicity that World Tourists was born. Yesterday I’ve finally achieved the ten thousand mark. Yup, Instagram is finally showing my number of followers with a k, 10k! When it comes to the hashtag, it’s on almost 24 000 photos. Pretty nice, I must admit.

 

With this project, besides having the chance of getting to know the world a bit better, although in a virtual way, I got the chance of meeting extraordinary people, with life’s that match the photographs.

 

In those digital lands, that we speak so poorly about, there was this couple that really captured my attention. I felt so fascinated with their life that I decided to invite them for an interview for my new rubric on the blog, Conversas com Vista – Talks with a View. From this interview, for now, I’ll just reveal that they are a young couple that have been traveling the world for the last 7 years on their mini van. In order for you not to miss it, please like the blog page here.

 

This is my first post ever with an English version, please ignore the mistakes it may contain. The decision to also write in English and stop my excuses not to was made after the loveliest conversion I had yesterday, with an equally lovely person. I promise I’ll do my best to keep delivering better and more articulated content as the posts go by.

 

That being said, I’m going to wish you all a lovely weekend and really nice trips through this community that you can fly to here.

 

 

 

 

 

 

 

08
Set15

Call Center, O Monstro


Leonardo Rodrigues

Inicialmente, acho que só tinha coisas negativas para escrever. Agora, numa balança em que de um lado se coloca positivo e do outro negativo, tenho mais para pesar.

 

Não sou muito bom naquilo que faço, nem sei se o quero ser, sê-lo parece-se com desistir. Contudo, sendo eu uma pessoa com azar no amor e sorte no jogo, lá vou vendendo e cumprindo objetivos.

 

No trabalho, de tanto ouvir, já não quero ouvir. Aquele interesse por ouvir e saber mais, que quem me conhece reconhece em mim, como que vai desaparecendo a cada chamada que recebo. Já não quero que me expliquem como é viver em certa localidade, passemos adiante homens e mulheres!

 

A desumanidade atribuída a um operador de call center por quem está do outro lado da linha verifica-se e, confesso, também passei a atribuí-la ao cliente. As vozes têm todas um nome, Cliente. De serem tantas, quase que parecem iguais, apenas umas se fazem ouvir mais alto que outras. As perguntas e as respostas tornam-se automáticas e têm um objetivo comum, a venda.

 

Este é um trabalho digno deste século e, embora preze e use muito do que agora se inventa, não me agrada que toda a interação num trabalho se baseie no contacto com máquinas que dão acesso a uma ficha que, por sua vez, se faz acompanhar de uma voz mais ou menos irritada, com mais ou menos vontade de comprar.

 

Posto estes pensamentos pensados em horas menos boas, o trabalho, por vezes, dá-me vontade de sorrir. Conseguir que um cliente que é também um paciente com cancro solte uma gargalhada, não sendo essa a minha função, faz-me bem. Do outro lado da balança, que se faz sempre pesar, lembra-me que as empresas fazem contratos que asseguram unicamente o seu bem estar, não abrangendo o mau estar do cliente que se faz verifica com cancros, mortes, desemprego, mudanças de casa e afins. Talvez não seja o meu trabalho temporário a não ser humano, as empresas é que cada vez o são menos.

 

É-me difícil fugir do lado negativo, mas vou, novamente, tentar escrever-vos sobre o outro ingrediente. No outro dia emocionei-me, estava a fechar uma venda, mas pelo meio, enquanto o computador decidia se havia de cooperar, fui conversando, mais ouvindo, uma senhora. Esta chamada vai ficar comigo por algum tempo. Ela tratava-me como uma pessoa, eu tratava-a como outra. Começamos a trocar experiências de vida, o porquê não sei. A verdade é que a mesma tecnologia que pode destruir também pode aproximar.

 

A senhora tinha sido abandonada grávida, tal como a minha mãe o foi há 21 anos. Ambas criaram os filhos da melhor forma que sabiam, como podiam, com o apoio da família e de amigos – que chegam a ser mais família que a família. (Confidencio-vos que a minha mãe, para subsistir, chegou a levar-me, ainda bebé, para o nosso terreno e deixava-me num cantinho, muito bem aconchegado em mantas, enquanto lavrava a terra.) A senhora, que não posso revelar o nome, disse-me que deveria dar muito valor à minha mãe, que esta era uma “mãe coragem/guerreira” – ouvir isto deixou-me com uma lágrima no canto do olho. Nunca a tinha pensado assim, com este apelido que me parece tão forte. E, embora na altura a minha mãe não tivesse consciência disso, foi preciso muita coragem disfarçada de instinto.

 

Ao longo desta chamada não estive preocupado em anotar corretamente tudo o que era número, embora também o tivesse feito, mas sim o que ela me ia dizendo, palavra por palavra.

 

A senhora, ao prosseguir com o seu discurso de pessoa que viveu e aprendeu, disse-me que agora é feliz, que agora é realizada, mesmo depois de ter perdido aquele que seria o seu segundo filho. No que à família diz respeito disse-me que, sim, é importante, que é o pai dela “na terra e deus no céu”, mas que esta sua realização maior vem de ter encontrado o amor, um companheiro que a preenche. Afinal de contas a família que criamos – ou que pensamos criar, no meu caso - tem sempre um valor diferente daquela que nos é oferecida quando nascemos. ”Precisamos sempre de alguém, embora estejamos sempre a negá-lo”.

 

Agradeci-lhe as suas tão sábias palavras e disse-lhe que me sentia com sorte de a ter em chamada porque nem todos os clientes são assim e porque por vezes dizem o que dizem, ela respondeu-me da forma mais simples, “Não vale a pena sermos maus nesta vida, temos de entender o outro”. Numa palavra, Respeito!

 

Confidenciou-me, ainda e por fim, que depois de ter dado a luz o filho morto foi criticada por uma mulher qualquer por não ir sempre ao cemitério, à qual respondeu “olhe, se eu quiser chorar choro em casa, chorar na rua não me vai trazer a filho de volta.” Confiro.

 

Ter a oportunidade de desenvolver uma empatia com pessoas que nunca vi e que nunca vou ouvir outra vez não é das únicas coisas boas. Estes primeiros trabalhos, que embora não sejam nada fáceis, têm-me servido para desenvolver um sentido de responsabilidade maior e deixam-me com um grande jogo de cintura noutras esferas da minha vida.

 

Nos dias que correm este é daqueles trabalhos da praxe que grande parte dos jovens se sujeitam à medida que se vão tornando responsáveis pela sua vida, renda, comida, roupa, propinas, livros e cada gota de café que nos perfuma a alma – sim, porque não poder comprar café é uma preocupação que se sobrepõe à minha próxima propina.

 

Ah, e não se preocupem que tenho deixado um belo registo escrito das várias formas que a loucura e estupidez que um cliente pode demonstrar, mas só o irei publicar no blog assim que esta minha experiência acabe. Não posso precisar uma data, até porque os contratos que se vão assinando têm uma duração de quinze dias.

 

Quando era mais novo vivia um monstro debaixo da minha cama, mas não tinha nome. Depois, à medida que fui ganhado segurança e conhecimento do mundo que me rodeava, foi-se embora. O Call Center é apenas mais um que, tal como todos os monstros todos antes deste, só existe em fases de transição e crescimento, que não se demoram muito a ser ultrapassadas. Haverão outros, e que venham eles!

30H (1).jpg

@gratisografy

 

 

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Copyrighted.com Registered & Protected 
HMLF-E7YY-MGTC-ZU7E

Lugares

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D