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LEONISMOS

LEONISMOS

12
Out16

"Quando tinha a tua idade é que era bom"


Leonardo Rodrigues

Quando viajo até à infância lembro-me sempre de algo novo, por vezes empolgante, mais frequentemente devastador. Uma que tenho visitado com frequência é o desejo de crescer, ser mais velho, ter isto e um pouco mais daquilo. Queria, essencialmente, deter O segredo. Achava que esse segredo iria permitir entender o puzzle todo e dar-me a certeza no olhar.  Os adultos até podem ter comprado O Segredo de Rhonda Byrne, como eu, mas na realidade ninguém sabe o que está a fazer. Não há manual de instruções nem nunca houve. O livro é engodo e a vida também. Mesmo sem saber tanto quanto fingem, numa coisa não mentiram, quando tinha a tua idade é que era bom, sempre nostálgicos. Pois era. Por mais que tudo corresse mal, o mundo era um lugar mágico, onde as incertezas eram só portais para um local ainda mais mágico e misterioso. Tudo estava para acontecer. À minha volta parece apenas que à medida que o tempo passa deixamos de saber dançar junto destes portais, afinal agora como temos certezas e sabemos o que fazer, não há lugar para istos e aquilos e nada pode ser diferente. O segredo, no máximo, é que não há segredos desta natureza e que, nada sendo resultado da concretude das coisas, está tudo a um sopro de voltar ao pó. Temos de dançar e ser crianças. Era bom.

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 Uma fotografia mais nítida não foi possível até a data de redação deste post

12
Out16

Ao Encontro do Sul, Parte II - Albufeira


Leonardo Rodrigues

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"A conquista do sul tarda, mas finalmente acontece", foi isto que escrevi numa SMS antes de sequer ter entrado no comboio que me iria levar de Sete Rios a Albufeira.  

Deveria ter percebido que não ia conquistar nada, afinal o comboio atrasou-se e, assim que chegou, levei com um presságio na barriga - na forma de caixa gigante da IKEA. Num outro dia teria entendido a mensagem, mas naquela sexta não deixei, não podia. Só pensei que assim que as carruagens deslizassem pelo caminho de ferro a minha vida em Lisboa entraria em modo de pausa. A primeira pausa, em 3 meses, a mais de 25km de Lisboa. Para agravar, melhorando, seria também o meu primeiro fim de semana fora com aquele que me atura quase diariamente. 

Se por um lado a procura anterior pelo sul se fez contra a corrente, esta fez-se de frente, junto das vistas. Respirei de alívio quando me sentei e senti a capital a ficar para trás.

O lugar da janela, confirmado por duas vezes, era meu. A senhora que me acompanhou não queria o sol e eu queria a vista. Não se omite um sem omitir a outra. Tentámos um meio termo desconfortável que sei que não foi do seu agrado. Então, abdiquei do apoio de braço sem abrir a boca, contando que se apercebesse do meu gesto de tréguas.

Depois, e dizem-me que é assim em mais sítios, as pessoas que pedem na CP são mais sofisticadas, distribuem um papel - há tempo para estas coisas, bem sei - , deixam os passageiros ler e depois passam para recolher o papel e o dinheiro, se nos convencerem. Achei interessante, não invade. No metro temos que ouvir todos. Ainda partilhei com a minha companheira de viagem que seria mais útil um exame, que não poderia comprovar o estado clínico de alguém através de uma folha onde se pode escrever qualquer coisa. Claro que me censurou, mas também não contribuiu.

Já tinha deixado algumas notas sobre a minha perceção da viagem para depois escrever um post, mas tive que interromper a escrita porque começámos a conversar, eu e senhora que queria a cortina fechada. Foi extraordinário e três chapadas na cara para mim.

Embora com mais de 20 anos de diferença, tínhamos tanto em comum e partilhávamos ideais semelhantes. Houve também espaço para discutir a atualidade - daquela semana - , do burkini, passando pelo nudismo nas praias portuguesas - intemporal? - , ao EI. Mas, à parte do Amor, a questão que mais nos apoquentou foi: será que os alentejanos estão conscientes da qualidade de vida que têm? Eu nunca estive consciente da que tinha na Madeira.

Os Montes parecem pincelados de castanho, com manchas verdes e brancas e é preciso treinar o olho para enxergar pessoas.

Ao namorar as pequenas aldeias que avistava senti uma grande vontade de partir a janela e atirar-me para lá, de fazer parte daquilo. Não sei onde era. Crianças disseram adeus da rua, talvez seja fascinante verem um comboio de possibilidades, que transporta pessoas oriundas da capital, não sei. 

Uma vez em Albufeira, acho que poderíamos ter aproveitado o fim de semana de outra forma - scones: check; piscina: check; água do mar aquecida por Neptuno: check.

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Caminho até à praia

 

Como não só de coisas boas se faz check, e tendo em consideração que fui avisado pela caixa do IKEA, o impensável aconteceu, tive de o partilhar durante metade do tempo útil do fim de semana com uns amigos do ex que encontrou na praia. Concordei em fazermos praia com eles, depois dei por mim a jantar num restaurante chamado Ricardo's, escolhido por eles. Não me posso esquecer que também saímos à noite. Agradeço ao vinho a coragem.

 

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O restaurante tem o nome do antecessor. Não acredito em coincidências. Mentiria se dissesse que não simpatizei com os moços. Ri-me bastante e esse é um bom indicador, só me queixo do fim de semana idealizado se ter esfumado.

 

Num próximo encontro com o sul expliquei-lhe que vamos para um sítio deserto, onde a única coisa que pode soar familiar seja o som dos pássaros. Depois, se o tempo deixar, também vos deixo entrar a bordo do próximo encontro.

10
Out16

Nunca mais apanho um táxi, e faço-o pelos taxistas


Leonardo Rodrigues

Hoje escrevi o seguinte no Facebook:

“Os taxistas decidiram ser razoável vandalizar o carro de um condutor da Uber. Pensei: "Vou incendiar um táxi". Sendo um pouco ponderado, concluí que se o carro não é meu, não tenho de lhe tocar. Alguém consegue explicar este meu mood swing em taxistês?

Quando passei para o Twitter, achando eu que era um tweet conciso, tive que passá-lo a:

Os taxistas decidiram vandalizaram um carro da #Uber. Pensei em incendiar um #taxi. O senso comum não autoriza. Como se diz isto em taxistês?” 

O Twitter não vandaliza, espanca, cospe, rouba nem sofre de ignorância, mas obriga-me a usar 140 carateres. É um ultraje e por isso uso-o poucas vezes. Alguns taxistas fazem o que escrevi na linha anterior. Essas ações são um ultraje maior, então, tal como com Twitter, sempre usei pouco os táxis.

Dito isto, o Twitter, embora queira que me deixe de Facebooks, não me obriga a nada e lá vai inovando no que o seu formato permite. Se um excluísse o outro, utilizaria o Facebook. É o menos hipster, bem sei. Se os taxistas querem excluir um, levam-me a excluí-los e optar pela Uber.

Agora ocorre-me algo melhor: é como se um iogurte Danone não deixasse que o de marca branca fosse vendido no mesmo supermercado. O que o iogurte de marca não sabe é que o outro é muito semelhante, o rótulo e o preço é que mudaram, para alegria de quem prefere iogurtes mais baratos.

Bebi demasiado café e ainda consigo fazer mais uma analogia. Os taxistas não são reles, mantêm uma relação de dependência, permitam-me, tipo puta-chulo com as empresas para as quais trabalham e para com o Estado. Tranquem as portas e coloquem os cintos de segurança porque o post não termina aqui e eu, de vez em quando, até gosto de justificar o que escrevo.

O taxistas apregoam vazio legal, que o prove o #taxipocalipse de hoje.

Numa das últimas vezes em que precisei de um táxi estava visivelmente transtornado, sem vontade de falar para além do nome do destino, mas o taxista insistiu em conversar comigo. Ninguém se surpreende se disser que o tema foi a Uber. No meio da confusão que lhe foi incutida, percebi uma coisa: a Uber para eles é má porque não paga o CO2 formado durante a respiração dos passageiros.

Concluí, ainda, do discurso cegamente apaixonado que temos um excesso legal para os taxistas, os quais muitas vezes nem viaturas próprias têm. O valor exorbitante que é cobrado, para além das taxas ridículas a que está sujeito, pertence  à empresa para as quais trabalham, e só depois, então, é que chega ao taxista. Não tive coragem de perguntar quanto ficava do pagamento para o taxista, mas perguntei a um motorista da Uber descaradamente quanto ganha e é um salário digno.

Isto não deveria ser revoltante. Se os taxistas sentissem que podem prestar um serviço de qualidade - mais importante para a Uber do que para a ANTRAL - , já se tinham juntado à Uber e começado a ganhar dinheiro, também este sujeito a impostos, numa empresa com uma visão modernizada.

Nunca mais apanho um táxi, e faço-o pelos taxistas.

 

 

 

 

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