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LEONISMOS

LEONISMOS

26
Fev16

O que Move a Cidade Europeia, no Brasil


Leonardo Rodrigues

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Não há como ter amigos além fronteiras. Para além de serem aqueles com quem nunca nos chateamos, são aqueles que nos contam novidades realmente novas. 

 

O povo brasileiro têm-me surpreendido imenso, não só pelo pelo seu sentido de humor, como pela sua personalidade calorosa e alegre, que contagia qualquer um. E, claro, também há a sua forma adorável de falar português.

 

Tenho amigos brasileiros que confessam: "o Brasil está um lixo". É verdade, um país que tinha, e tem, tudo para prosperar, continua a afundar-se num poço sem fundo à vista. A responsabilidade, mais do que do povo, é mesmo de quem está lá em cima a sufocar os seus interesses, corrompendo que nem roedores.

 

No entanto, se há coisa que os brasileiros sabem fazer é o olhar para o lado positivo das coisas. E não, não é só com o Carnaval, também o fazem com soluções inovadoras. 

 

Um dos melhores exemplos está em Curitiba, conhecida lá dentro como cidade europeia. Tem esta designação, mais do que pelo clima frio, pelo seu desenvolvimento que se faz notar pela menor taxa de analfabetismo brasileira, passando pela sustentabilidade ambiental, até à fantástica rede de transportes.

 

É dos transportes - que realmente funcionam - que vos quero falar. Aquando do desenvolvimento económico que Curitiba experienciou, surgiu a necessidade de desenvolver a rede de transportes. Numa outra metrópole, ter-se-ia construído uma rede de metro, só que lá não havia dinheiro. Ora, e que pensam eles: não podemos construir metro? Está bem, vamos aplicar o mesmo conceito aos autocarros - mentira, eles pensaram "ônibus". Dito e feito. 

 

Hoje, têm uma rede de transportes metropolitana que funciona. Os autocarros, biarticulados - um género de junção de vários autocarros, como já temos cá, mas muito maiores -, têm faixas próprias EXCLUSIVAS  por toda a cidade. As paragens, como podem ver na foto tirada pelo meu amigo Leif, são tubos de vidro. Estas têm as mesmas funcionalidades de uma estação de metro, onde se compra o título de viagem e se procede à validação do mesmo. O autocarro simplesmente encaixa-se na estrutura de vidro para deixar e recolher os passageiros. Não há como coisas que funcionam à luz do dia. 

 

Depois de Curitiba, para além de sistemas semelhantes terem sido implementados no resto do Brasil, 80 países já seguiram de alguma forma as suas pisadas, dando especial ênfase a Bogotá, na Colúmbia. 

 

Este post com certeza que não há de apresentar uma novidade para todos, nem era esse o objetivo. Tantas linhas sobre o Brasil e os transportes para dizer algo mais simples do que uma rede de transportes, e que podemos todos aplicar: Na ausência da possibilidade de fazermos o que queremos, que tal fazer o seu equivalente ou, quiçá, algo completamente diferente?

 

P.S. Não tendo lá estado, e embora este não seja um post turístico, posso deixar as dicas que me deram. Uma vez em Curitiba, visitar: a Ópera de Arame, o Jardim Botânico e o Museu Oscar Neymer, conhecido como "O Olho".

24
Fev16

Entrevista a Thomas Mendonça, parte I


Leonardo Rodrigues

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Demoram, mas as entrevistas regressam sempre. Para o regresso, os eventos organizaram-se para que fosse Thomas Mendonça o convidado. É um artista plástico luso-francês que tive o gosto de conhecer antes desta conversa tomar lugar. O que mais me surpreendeu foi alguém tão talentoso e inteligente se apresentar tão humilde, sem se levar a si e à vida tão a sério - só o suficiente. 

 

Antes da conversa, e depois de quase entrar na rua errada, tive uma visita guiada pela sua residência e atelier. O quarto serve de atelier de cerâmica - foto - , aqui pude ver e tocar nas peças que iram estar brevemente em exposição. Na cozinha, pela luz fantástica, é onde desenha. Foi lá que, depois dos copos com água, começámos a gravar o que seria uma boa hora de conversa. Durante esta hora abordamos questões como a identidade e processo criativo, o ensino e a sua próxima exposição. Devido à extensão, e porque as respostas são demasiado pertinentes, vou publicá-la em duas partes. Boa conversa!

 

Leonardo RodriguesComeça por te apresentares.

Thomas Mendonça: Chamo-me Thomas, nasci em França, perto de Paris, e vivi lá até os meus 10 anos. O meu pai é português e a minha mãe é francesa, pelo que tenho dupla nacionalidade.

 

LRTens alguma rotina, como é o teu dia-a-dia?

TM: Depende da fase do meu trabalho. Há alturas em que tenho uma rotina que é uma ausência de rotina. Neste momento o que tenho é uma rotina de trabalho porque estou a preparar uma exposição, o que faz com que tenha coisas para fazer diariamente. Acordar cedo faz parte disso, gosto muito do dia e de aproveitar a luz. Ao final do dia apetece-me descontrair e, à noite, sair. Durmo pouco, é uma opção.

 

LR: Vieste para Portugal muito cedo, com 10 anos. Quase que viveste metade da vida lá e a outra metade cá. Confidenciaste-me que isso a dada altura gerou uma certa confusão, a de não saber aonde pertences.

TM: Sim, durante a adolescência esta foi uma questão pertinente, a da casa, também em termos de identidade. É muito importante saber de onde vimos. Foi um problema ter duas nacionalidades e não perceber bem em qual delas me enquadrava. Simplesmente tenho as duas, são ambas parte de mim e hoje em dia vivo bem com isso, embora durante muito tempo tenha sido estranho ser francês em Portugal e português em França. Às tantas não és coisa nenhuma em lado algum.

 

LR: Já encontraste esse sentido de pertença?

TM:Não me sinto apegado a nenhum dos dois.

 

LRE à cidade de Lisboa?

TM: À cidade de Lisboa sim, sinto-me muito apegado. Finalmente, lá está, depois desta fase chata de não saber onde quero estar nem de onde sou, simplesmente decidi assumir que sou de Lisboa porque é uma cidade que me acolhe bem. Eu gosto de estar aqui, é a minha casa. Sei que posso ir para onde quer que seja, mas aqui é onde regresso e estou bem, em casa.

 

LR: Também estiveste em Erasmus na Polónia, foi essa uma terceira casa?

TM: Não, de todo. Foi uma experiência relativamente dura. A Polónia é fria e não tem luz solar no inverno.

 

LR: E as pessoas são como o clima?

TM: As pessoas parecem simpáticas, mas são muito tímidas por não falarem muito bem outras línguas. Eu entendo de onde vêm estas coisas: o pós guerra, o pós comunismo, muitos pós. Eles naturalmente são um povo mais fechado sobre eles próprios.

 

LR: No trabalho que tens vindo a realizar, excluindo então a Polónia, como é que a dicotomia Portugal-França se reflete?

TM: Acho que algumas dúvidas em termos de identidade fazem parte do meu trabalho normalmente, mas não é algo de sério ou central. Acho que toda a gente tem as dúvidas existenciais e acerca de muita coisa.

 

LR: Quando é que descobres que tens uma aptidão especial para certo tipo de coisas? É ainda em França, quando frequentaste, por exemplo, o atelier de cerâmica aos seis?

TM: Acho que desde muito novo. Tal como acontece geralmente nas áreas criativas, as pessoas têm um à vontade para isto.

 

LR: Lembras-te de ter tido algum momento mais concreto, um aha moment, em que te apercebes gostar mesmo muito disto?

TM: Não, parece que é algo que antecede a consciência. Dizem-me as pessoas da minha família que com dois anos e pouco enrolava lã à volta da minha cama e dizia que era decoração. É algo de que não tenho memória, obviamente. Nem na altura deveria ter consciência do que estava a fazer... ou tinha, não sei.

 

LR: Consideras que estas aptidões têm uma base natural?

TM: Não acredito muito na questão natural ou biológica, mas de facto não consigo perceber em que momento surge. Portanto, talvez seja.

 

LR: Quando é que decides que é isto que vais explorar? Disso já deves ter memória...

TM: Lá está, esta também parece ter sido uma decisão que antecipou a minha consciência. Quando se entra no secundário é preciso tomar um rumo e eu sabia que iria para artes. Sempre foi uma coisa muito lógica para mim. As áreas criativas sempre estiveram presentes, nunca tive que ponderar muito. Parece natural, não é uma dúvida. Depois do secundário, a faculdade não foi uma decisão muito complexa.

 

LR: Escolheste Artes Plásticas. O que é que o ensino superior acrescentou?

TM: Eu terminei o secundário numa escola de artes, António Arroio.  Ali estudei o curso de Produção Artística em Têxteis. Nos últimos anos percebi que não seria de todo design de moda, então segui para artes plásticas. Na altura queria afastar-me de Lisboa, então decidi que Caldas da Rainha seria a primeira hipótese e em último Lisboa. Com a média que tinha entrei na primeira opção. O ensino superior, não sei se é em Portugal, se em todo o lado, se uma questão de agora ou de sempre, nestas áreas é de alguma forma dispensável. À partida estamos enquadrados por um conjunto de professores, uma academia, uma escola, onde é suposto acontecerem determinadas coisas que não acontecem. O que me falta do meu curso são as questões práticas de como aplico isto na minha vida profissional, para poder chegar e dizer faço isto, aqui e agora. É um absurdo terminamos 3 anos de licenciatura e gastarmos mais de 3000€. Conhecemos professores fantásticos, uns mais do que outros, e fazemos amigos para a vida. 

 

LR: Então a nível profissional não enriquece assim tanto...

TM: Pode, mas é mais um acaso, depende também das relações que sabemos estreitar de uma forma pessoal e não profissional.

 

LR: Pelo que me disseste, quando acabaste o curso sentiste uma necessidade de ser independente, o que te levou a tentar encontrar emprego.

TM: Sim, quando acabei a licenciatura regressei para Lisboa. Rapidamente percebi que não fazia sentido regressar para retornar à casa dos meus pais, que fica na margem sul - o que não é perto nem afastado. Tenho muito gosto em estar perto das coisas, mais perto ainda. Comecei a viver em Lisboa, pagando contas. Tive sorte que não pagava casa na altura, mas havia alguma necessidade de ter independência financeira. Então, procurei emprego, como se faz normalmente para obter dinheiro. Acho que não queria muito e por sorte não encontrei. Via-me sem emprego, mas a conseguir viver em Lisboa, então decidi apostar naquilo em que me formei.

 

LR: Qual o maior problema que vias em trabalhar para outros? Achas que isso te iria comprometer artisticamente?

TM: Seguramente. Parte desta produção é uma questão de tempo. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo e, naturalmente, se tiver um trabalho das 8 às 18 não tenho esse tempo para estar a produzir diretamente e objetivamente as coisas. O trabalho iria ser muito mais pequeno, mais complicado, mais atrasado e acho que seria uma pessoa mais frustrada.

 

LR: Como é que as coisas surgem, como é o processo criativo pelo qual passas?

TM: Por vezes são epifanias, de repente apetece-me fazer qualquer coisa dentro de uma família de assuntos que me são mais naturais. São abordagens que vou trabalhando ao longo do tempo. Isto aplica-se a tudo, aos materiais, às temáticas e às técnicas. Não é uma linha reta, é uma linha que vai sempre atrás pescar coisas. São raras as quebras significativas no meu trabalho, mas existem. Por vezes há mesmo vontade de fazer completamente o contrário. É uma forma de nos reinventarmos de alguma forma. Depois, com paciência, é voltar a ver o que é que deixámos para trás e recuperar muitas coisas.

 

LR: Tens por hábito retomar trabalhos antigos?

TM: Não é bem retomar porque estamos no futuro, no depois, não se volta, temos outra bagagem, outra vida que aconteceu entretanto. Acontece muitas vezes olhar para coisas que foram feitas há muito tempo e não perderam interesse. A certa altura há ali uma coisa em que eu reparo que agora estou a trabalhar muito e não fazia ideia ou me lembrava que já existia. Pode ser muitas vezes uma forma de fazer, uma textura visual ou até mesmo uma coisa muito objetiva como uma palmeira.

 

LR: Quando te acontece não querer continuar determinado trabalho chegas a mandá-lo fora ou guardas para a eventualidade de?

TM: Eu nunca cheguei ao ponto de mandar uma coisa fora por estar chateado com ela. Ponho-as de castigo. Tenho alguns trabalhos que estão guardados que para os quais dependem muito tempo, paciência e meios, mas não consigo por algum motivo. Sei que daqui a dois anos vou pegar neles.

 

LR: Chegas a expor peças que estiveram de castigo?

TM: Sim, algumas das peças que vou expor em março não foram feitas agora, mas fazem sentido agora. Antes não estavam como eu queria. Havia qualquer coisa que me chateava nelas e deixei-as num canto. Agora, repensei-as, algumas alterei, e fazem muito sentido. Vieram mais cedo, mas só agora estão preparadas para fazer parte deste grupo de peças.

 

LR: Essas peças são como na moda...

TM: ...uma coleção, seria impossível não sê-lo. São coisas feitas num período de tempo relativamente próximo. E mesmo que sejam feitas ao longo dos anos... há coisas que são como o croché, a linha vai atrás e segura na laçada anterior criando a próxima. Há um fio condutor que as une a todas. Há uma linha de pensamento que se foi construindo ao longo do tempo.

 

Ler parte II.

 

12
Fev16

Doce café sem açúcar


Leonardo Rodrigues

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Ouço e leio bastante acerca de pessoas que se enamoram por sítios onde nunca estiveram. Mas, na impossibilidade de os visitar, há algo de muito melhor para se fazer, e não falo de visitar os sítios cá dentro, falo de se enamorar pelas pessoas que ainda não conhecemos, as de lá que por cá passam e até mesmo as de cá - nem sempre é óbvio que tal coisa é possível.

 

Só não o é porque já ninguém fala com ninguém, porque a cidade fomenta o anonimato e a atitude do cada um por si. O constrangimento de partilhar um elevador apertado durante vários andares com um estranho quase que já não é constrangimento, tão habituados que estamos à arte de não ver e à de focar a atenção na mensagem sem conteúdo que decidimos começar a escrever.

 

A verdade é que há sempre quem queira falar, quem tenha vontade de deitar cá para fora histórias - tanto delas como de outros - , só temos de prestar atenção à cidade e acudir esses pedidos. Os vizinhos do prédio, se tiverem coragem de passar a barreira do bom dia, quem sabe, talvez até acabem por decidir ser boa ideia ir ao café para falar de literatura, de como era a Avenida X há 30 anos, do que era a vida enquanto a filha e o marido por cá andavam e de fazer trocas literárias interessantes, não fossem estar algumas gerações pelo meio.

 

Sim, dou conversa às velhinhas todas, tanto às do prédio como às do autocarro, as conversas ora acabam com lágrimas a querer pular dos olhos, ora com um conhecimento mais vasto sobre as carreiras da Carris. De qualquer das formas, com estas pequenas partilhas há sempre entretenimento garantido e muitos sorrisos, de ambas as partes.

 

Claro que também morro amores por cidades que nunca pisei, mas o que me mata mesmo é isto, as pessoas com quem nunca - prefiro ainda - me cruzei. Os acontecimentos que a vida me tem organizado, os passeios, as muitas viagens de autocarro e as poucas de avião têm-me dito que existem tantas que quero conhecer e que ainda nem vi, com quem quero falar e ainda não sei que palavras vou utilizar e outras para as quais só vou querer olhar, de forma a manter intacta a história que acerca delas contei, sem nada saber.

 

Gostei particularmente de dois episódios recentes, um na livraria Bulhosa das Amoreiras e outro na Gulbenkian. Na Bulhosa, enquanto procurava um livro que não fazia tenções de comprar, o senhor que está do outro lado do balcão, falou-me dos 70 romances que lê por ano e das mais rebuscadas teorias da conspiração - que a mim, confesso, também me dão que pensar. Na Gulbenkian, uma senhora muito amável começou por perguntar-me pelo Wi-Fi e, mal demos por nós, estávamos a contar histórias da vida um ao outro. O que era apenas uma pessoa sem nome a beber café numa manhã solarenga de inverno, passou a uma senhora holandesa que se apaixonou por um português há vinte anos, motivo pelo qual veio para estas terras a sul. O português que fala, curiosamente, aprendeu-o com um curso na universidade clássica e com a vida. O marido, esse, só lhe fala em inglês.

 

Enfim, são estes dois dedos de conversa, cheios de pequenos detalhes, com grandes pessoas de quem não sei o nome e não vou tornar a ver que tornam o meu café sem açúcar doce.

09
Fev16

De Mão em Mão II (Passatempo)


Leonardo Rodrigues

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Depois de achada a vencedora da primeira edição do passatempo De Mão em Mão, é altura de lançar a segunda com o livro que começou tudo, "Queimada Viva" de Souad.

 

Tal como fiz da primeira vez com o Número Zero de Eco,  também já vos deixei a review deste livro que podem ler aqui

 

É a sua edição de 2004, em inglês, que me compromento a passar para outras mãos, tal como o seu primeiro dono quis, ao deixar aquele livro numa rua muito movimentada de Lisboa. 

 

Para o livro passar para as vossas mãos, e para que mais pessoas possam participar, deixo-vos duas alternativas, uma com o Facebook e outra sob a forma de formulário. Peço que escolham uma e que só participem uma vez.

 

Facebook:

1 - Gostar da página, aqui.

2 - Comentar a ligação deste passatempo com "I want".

 

Formulário:

 

 

O vencedor será anunciado na próxima terça feira até às 21h.

04
Fev16

Para refletir: Queimada Viva, de Souad


Leonardo Rodrigues

 

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Quem leu o post do passatempo De Mão em Mão, para o qual ainda vão a tempo, sabe que resgatei o livro "Burned Alive" - "Queimada Viva", em português - daquele pequeno tesouro recheado de livros que encontrei na rua.

 

Li-o num ápice. Acho que este foi o primeiro livro que tive coragem de ler na totalidade em inglês, porque embora o fale com fluência, prefiro ler na minha própria língua. A escrita é acessível, o que é difícil é ler coisas que chocam na totalidade com tudo o que nós ocidentais, arrisco, civilizados, acreditamos.

 

"Queimada viva" é o relato arrepiante da vida de Souad, nome fictício, uma das muitas milhares de mulheres que vivem em regimes onde as leis são feitas de homens para homens. Na sua aldeia, algures na Cisjordânia, uma mulher não pode pensar por si, ter vontades próprias, curiosidade, olhar um homem nos olhos, nem sair à rua sozinha antes do casamento. O casamento, a maior liberdade pela qual uma mulher pode ansear, é apenas uma transferência de propriedade e só lhes libertará da escravatura do pai para que isso passe a ser feito pelo marido, o novo dono, que pagou com ouro para a ter.

 

Dentro destes casamentos, a violência não só se perpetua como a responsabilidade aumenta. Os motivos para a violência já não são só as lides domésticas, o chegar um minuto mais tarde ou apanhar um tomate verde. Passa a haver obrigatoriedade de ter filhos, as filhas são um fardo, têm de ser encaminhadas, distribuídas e, valendo menos que um animal, se começarem a ser muitas, as próprias mães chegam a matá-las, encarando elas próprias isto como natural. Não sabem melhor, não conhecem outra realidade, são vítimas de um sistema. Curiosamente, apercebemo-nos que os homens também o são.

 

Souad foi vítima dos tão falados crimes de honra. Tinha que morrer porque desonrou a família ao se apaixonar, ao ambicionar ser propriedade de alguém que não o seu pai, com uma gravidez fora do casamento. A única forma de ser restabelecida a honra da família era com a sua morte, então atearam-lhe fogo. As mulheres da sua aldeia só o apagaram. No hospital, onde deveria ter recebido cuidados imediatos, tendo em conta que Souad era uma charmuta, arábico para puta, só teve direito a um banho porque cheirava mal. Estava lá para morrer. Se viveu para contar a história foi porque "nós" intervimos. 

 

Já na Europa, dois meses depois, finalmente a receber tratamentos, Souad, ao olhar para as enfermeiras com saias curtas, maquilhagem, a sorrir a conversar com os médicos só pensava que no dia seguinte já não iam estar lá, sentindo um profundo alivio quando as via novamente. As pessoas deveriam poder pura e simplesmente ser.

 

Na simplicidade da obra, porque não precisamos de nos desdobrar em palavras pomposas para transmitir grandes ideias, há tanta força, acorda-nos, humaniza-nos. Leva-nos à reflexão! Pensei muito na minha mãe que me criou sozinha e nunca casou. Numa daquelas terras isso seria inconcebível porque não surgem heroínas, só nascem heróis. 

 

Cá, mesmo com muito pudismo e catolicismo, com toda a sinceridade, podemos fazer o que nos der na real gana, desde que isso não magoe o outro, amar quem amamos, tocar nessas pessoas, com ou sem papel. Começamos a poder explorar as nossas sexualidades cedo, de forma informada, segura, com consciência dos atos. 

 

As mulheres podem ainda não estar em mesmo número nos cargos de topo, na política nem receber tanto, mas têm os mesmos direitos de um homem. Isto constitucionalmente, culturalmente ainda existem certos estigmas que em Lisboa já não vejo, tanto, também porque faço por não me rodear de pessoas tacanhas. 

 

Dito isto, na minha terriola da Madeira, conheço de vista mulheres que sofrem de violência doméstica, mas que nada fazem por medo, por acharem que não há vida para além do marido de há 30 anos. Nem elas, nem quem lhes diz "bom dia, como vai?", levando com a mesma resposta "vai-se andando", como já é tudo tão automático, só respondem "enquanto for assim está bom", e seguem para o café para falar da vida dos outros. Enquanto for assim está bom, mas e quando estas mulheres já não andarem?

 

Ainda estou a ter os primeiros vislumbres daquilo que um blog pode fazer. Não sei bem, mas não custa nada falar destas coisas, apelar à atenção, à prevenção, à denúncia e a uma nova emancipação que está, sobretudo, por acontecer nos meios mais pequenos.

 

Futuramente, e com o propósito de continuar a abordar esta temática, sem que para isso seja necessário ler novamente que mais uma mulher morreu, irei escrever um texto com uma blogger amiga que foi vítima de violência doméstica, na esperança que palavras levem a ações.

 

Este livro, será também passado de Mão em Mão, fiquem atentos ao Facebook

 

 

03
Fev16

A Pressa de Viver


Leonardo Rodrigues

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@leonismos

 

Poucos foram os momentos da minha vida em que quis parar e imortalizar, pelo menos que me apercebesse, o que estava a acontecer. Queria sempre mais, outra coisa. 

 

Alguém de quem acabei por não gostar muito, dizia-me que só nos apercebemos que fomos felizes em determinado momento quando já não o somos, quando já passou, quando o ponto final foi escrito e já não é possível retornar e apagar. 

 

Embora na altura refutasse, agora concordo, pelo menos mais do que concordava, não é por isso que a atitude passa a ser certa. Nos momentos em que temos tudo e estamos bem, de barriga a transbordar, quase não estamos lá. Estamos no futuro ou agarrados ao passado, claro que as coisas têm de nos ser retiradas, uma por uma, para acordármos. 

 

Temos, pelo menos eu tinha, pressa de viver, então não vivia, só havia fui e vou ser. Falta o sou. Queria no agora coisas que só poderiam acontecer mais tarde, no momento delas, quando é suposto. Queria tanto porque nunca as tive e achava tão natural que nem questionei, mas quanto mais quis, mais afastei. Essa doença de querer o futuro agora levou-me a perder o agora, de tal forma que o futuro ficou incerto e até as pistas se acabaram. 

 

Não quero entrar em detalhes porque cada um com a cruz que pode carregar. Só quero relembrar-vos e relembrar-me que tudo acontece quando tem de acontecer, talvez por estar escrito algures, talvez por isso. 

 

A verdade é que está mais do que na altura de fazermos o que tem de ser feito, quando tem de ser feito, consoante a forma como a vida se está a viver. Têm-me dito, mas só com a experiência é que podemos viver as conclusões dos outros. 

 

Dizem, e com razão, que isto de viver no agora também dá muita maçada porque está sempre a passar. Proponho-vos que vivam o dia de hoje, Carpe Diem, que amanhã, se amanhecer, será diferente. De vagar se vai ao longe. É hora sim, de cumprirmo-nos. 

01
Fev16

Passatempo De Mão em Mão: Número Zero, Umberto Eco


Leonardo Rodrigues

Mesmo com um budget quase inexistente, lembrei-me que também posso fazer um passatempo cá no blog. E que melhor do que livros para começar?

 

Ultimamente tenho-me sentido inspirado por tudo, em grande parte devido às minhas férias de quase dois meses.

 

Na semana passada foi altura de ser inspirado por um caixote que encontrei na rua mal saí de casa. Claro que não era um caixote qualquer, estava recheado de livros, acompanhado de um papel que indicava que os livros estavam ali porque já tinham cumprido o seu propósito e que era altura de os passar para outras mãos, dizendo "Free Books/Livros Grátis". Gostei de ver como um caixote com livros, àquela hora da manhã, fez interromper o passo apressado de muitos lisboetas e os colocou a trocar sorrisos e a falar uns com os outros.

 

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Aproveitei esta oportunidade para expandir a minha biblioteca ficando com uma edição de 2004 do livro "Burned Alive", partilhando a ocorrência na minha conta do instagram.

 

Muitos dos meus livros também já cumpriram o seu propósito, podendo ter sido isso ajudar a aquecer numa noite fria de inverno ou distrair-me da confusão que é o metro. Agora estão só a apanhar pó, humidade, e raramente os consigo reler, ora porque estou sempre a adquirir outros, ora porque a bibliografia da faculdade não me permite. Mas o meu maior problema não é ter livros que já só servem para enfeitar, é mesmo mudar-me de casa com eles, visto ter mais livros do que roupa.

 

Como não tenho coragem de os deixar na rua, ao sabor do vento e da chuva, a partir de hoje passo a ter este passatempo chamado De Mão em Mão, permitindo-os passar para outras mãos, na esperança que o novo dono perpetue a vida do livro, de mão em mão.  

 

O primeiro livro que quero partilhar já conta com um post, que podem ler aqui e é, como o título deixou claro, Número Zero, de Umberto Eco. 

 

Para ganharem o livro só têm de fazer isto:

  1. Colocar gosto na página do Blog no Facebook, aqui.
  2. Comentar a ligação do passatempo, no Facebook, com "Eu quero".
  3. Partilhá-la.

 

O vencedor(a) será escolhido aleatoriamente -  através de random.org - e anunciado na próxima segunda feira, dia 8-2-2016, na página do Facebook e, posteriormente, contactado por mensagem privada. Boas partilhas, boas leituras!

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