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LEONISMOS

LEONISMOS

31
Jan16

Número Zero, Umberto Eco (Spoiler Alert)


Leonardo Rodrigues

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Umberto Eco, semiólogo, filósofo e romancista italiano regressa às livrarias portuguesas com Número Zero, livro de ficção editado pela editora Gradiva.

 

O livro acaba por não ser apenas, como muito se escreveu, sobre o jornalismo nos dias de hoje e a sua doença - há muito diagnosticada como sensacionalismo - , mas também, sobre a sociedade - que adotou uma postura de passividade - e de que forma o jornalismo acaba por ser o seu espelho, vendendo-se tanto aos leitores como aos interesses dos poderosos que detêm os meios de comunicação.

 

Eco, para tais denúncias, leva-nos para o interior de uma redação piloto de um jornal que não saiu, que não é suposto sair e que, para não haver esperança, não sairá. O hipotético periódico teria como nome Amanhã. No Amanhã, como em qualquer outro jornal, falar-se-ia do ontem que já todos conhecemos pela televisão, mas, e aqui está o seu fator de diferenciação, ao invés de se fazer um retrato fiel do que foi, especula acerca daquilo que será amanhã, dali a uma semana ou até um mês, com tanta certeza que poderia ser um “oráculo”. O objetivo do jornal, ou melhor, os números zero deste jornal é o de intimidar os poderosos de tal maneira que deixe o seu financiador - o Comendador Vimercate - fazer parte do clube restrito. Se deixarem, não se publica o jornal, a missão é cumprida, mas publicar-se-á um livro igualmente duvidoso, assinado pelo diretor.

 

Este livro é a razão de ser do protagonista que, num livro de Eco, não poderia caber senão a um perdedor, o Dr. Communa, - um doutor que nem a licenciatura acabou porque, como sabemos, a culpa é sempre do outro. A sua função, enquanto doutor na arte de perder, é escrever um livro sobre todo o processo de gestação daquilo que que nunca irá nascer - omitindo este facto - para, a posteriori, ser assinado por outro, perdendo mais um pouco também aqui.

 

"Os perdedores, tal como os autodidatas, têm sempre um conhecimento mais vasto do que os vencedores: se queres vencer tens de saber uma coisa só e não podes perder tempo a sabê-las todas, o prazer da erudição está reservado aos perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, mais as coisas não lhe correram como deviam."

 

Como os outros que perdem, sonhava em escrever um livro que lhe desse fama e glória, mas parece que também não era uma grande escritor uma vez que para escrever tinha que citar em demasia e ninguém está para ler algo que necessite de enciclopédias para descortinar. A erudição e a cultura, tal como o diretor recorda a um redator, não vende: "temos de falar a linguagem do leitor, não a dos intelectuais [que estão em menor numero].”

 

À primeira vista, com apenas a sua versão das coisas, não conseguimos perceber se este é simplesmente paranóico, depois, com o andamento do livro, começamos a achar que a sua paranóia teve toda a razão de ser, até que acabamos por concordar que não há necessidade porque temos todos memória curta, somos cada vez mais uns vendidos e podemos descansar.

 

Voltando à redação, falemos do diretor, Simei, que desperta em Commona a seguinte descrição "No género x é um deus. X é o género em que x é merda." Os seus reparos, correções, exercícios e dicas assim o comprovam. Naquele jornal aprendia-se a desmentir o desmentido deturpando a realidade com a "realidade". Até quem escrevia os horóscopos, não tendo autorização para seguir os astros, seguia, a seguinte instrução, "vá ver as revistas e jornais que publiquem [...] e retire deles padrões recorrentes [...] otimistas, as pessoas não gostam de ouvir que vão morrer de cancro". Embora o prefácio não o adivinhe - porque enquanto capítulo seria o penúltimo -, o livro poderia ser intitulado d"O Grande Manual das Más Práticas Jornalísticas". Os  públicos dos jornais emitem muitos julgamentos acerca dos jornalistas, mas estes depois de formados, mesmo que saibam o que deve ser feito são reensinados pelos superiores a fazer um jornalismo que agrade a maioria, que não perturbe muito, que venda - mais do que para subsistir, para enriquecer.

 

Mas, enfim, de um jornal composto por fofoqueiros como Bragaddocio e Maia - únicos dos seis redatores que mereceram páginas para se apresentar no livro - , um diretor que conspira por ganância e um perdedor compulsivo, não se pode esperar muito.

 

No fim, por onde começou o início, e saltando a conspiração que Eco escreveu tendo como base factos que nos escandalizam enquanto leitor porque não sabíamos ou não nos lembrávamos, tudo acaba como o leitor eventualmente dá por si a querer. O herói, perdedor nato, pode não ficar com tanto dinheiro como era suposto, nem com a mais ínfima possibilidade de algum dia se ver publicado, mas, aos 50, ganha o amor, que é um outro tipo de reconhecimento, invertendo a sua sorte. Agora é esperar que os jornais também consigam inverter as suas sortes, embora os prognósticos de Eco, na voz de Maia e Commona, não sejam ótimistas.

 

Um livro a não perder, que irei oferecer num passatempo muito em breve. Fiquem atentos ao facebook!

 

27
Jan16

E o Mercado da Figueira?


Leonardo Rodrigues

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Mercado da Ribeira para aqui, Mercado de Campo de Ourique para acolá, e o Mercado da Figueira?

 

Há uns tempos, numa das minhas caminhadas, que me continuam a permitir encontrar sempre uma ruela nova, qual não foi a minha surpresa quando encontrei, não uma rua, mas um mercado novo. Curiosamente, o achado deu-se numa das praças mais importantes de Lisboa, por onde passo quase semanalmente, a Praça da Figueira.

 

Imaginem só se, com o meu passo acelerado de quem já só quer ir beber um último café e atirar-se num sofá, não tivesse olhado de relance para o lado esquerdo e encontrado aquela porta tão discreta que diz Mercado da Figueira. Se a minha surpresa com este mercado parecer desmedida, justifico-a com o facto de ser da Madeira e isto serve-me para justificar tudo.

 

Ainda assim, para ter a certeza e não refugiar-me na minha isularidade para justificar este post, perguntei a vários lisboetas, com já trinta anos disto, se conheciam o Mercado da Figueira. Sei que três não é uma amostra significativa, mas responderam-me que não, daí a quase obrigatoriedade deste post.

 

Depois de pesquisas feitas, tornou-se um conhecido. Este mercado nasceu duma iniciativa de feirantes, em 1755, naquilo que eram meras ruínas do Hospital de Todos os Santos - destruído no mesmo ano pelo terramoto que devastou a cidade. Tal foi o sucesso que em 1855 é construído um mercado coberto que, infelizmente, foi deitado abaixo nos anos 50, devido a uma catastrofe pior, Salazar, ups, Duarte Pacheco.

 

Enquanto os mercados da moda apostam num estilo chique industrial, este renasce pelas mãos da VARN, que decide manter muitos dos contornos originais, mais tradicionais, onde se fez apenas as adapatações necessárias para estar à altura das necessidades e exigências dos nossos dias.

 

À entrada, antes de chegarmos ao mercado prorpiamente dito, percorremos um corredor ladeado por garrafas, com o que de melhor se faz nos lagares portugueses. Corredor corrido, temos duas opções, a cafetaria à esquerda e o mercado, convenientemente adaptado a supermercado, à direita. O primeiro apelo é o visual, afinal quem vê caras não vê corações, primeiro vê-se a cara e só depois o coração. É um coração português, com produtos portugueses, cheios de qualidade, da fruta ao peixe.

 

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Cansado, muito passou-me ao lado, mas, na cafetaria, senti uma enorme tentação por me tornar diabético. Embora houvesse pão fresco e muitas sandes, foram os bolos que falaram comigo. Tudo tinha um ar acabado de fazer, quente, cheiroso, doce, e, quase mais importante que os adjetivos anteriores, barato. Vejam só que um menu com sandes, sumo natural e café fica a 1.95€. É de salientar que os sumos naturais, feitos com a fruta das bancas, vendem-se a 1€ e, podem, tal como eu, pedir para levar e continuar o passeio pela nossa belissima capital.

 

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Depois de comprar o meu caril no Martim Moniz hei de passar por lá muitas mais vezes, nem que seja para uma frutose fresquinha que me permita seguir calçada.

 

Em tempos em que poupar é palavra de ordem, porque não fazê-lo com qualidade?

24
Jan16

Bons livros


Leonardo Rodrigues

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Sei que hoje, para muitos, é apenas dia de eleições, mas ao ver as notas do meu telemóvel, lembrei-me do post que comecei há coisa de semana e meia, então hoje passou a ser também dia de acabar posts.

 

Queria partilhar convosco que li o meu primeiro livro de 2016. Confesso-vos que quando acabei, caiu-me tudo figuradamente e, fisicamente, umas lágrimas. O livro em questão é "Rio das Flores", de Miguel Sousa Tavares. Não me apeteceu chorar com o final nem por ter acabado - embora tenha tido um susto quando ao virar a página 607 vi a Nota do Autor - , apeteceu-me chorar pelo livro ter sido tão bom e por todas as emoções que fez surgir em mim.

 

O que é que torna um romance bom? Em primeiro lugar lê-se sem esforço, e com isto não digo que não exija pensar, refletir, pesquisar até, mas fazemo-lo com naturalidade. Os livros, a literatura, toda a arte enquanto arte, têm de fazer sentir. Se um livro não for capaz de me sentar à mesa com as personagens e me permitir escutá-las, olhá-las nos olhos, sentir a dor que deveria ser só delas, não é nada. Um livro mede-se, para mim e agora, pelas emoções que desperta e pelos desejos que acorda.

 

O "Rio das Flores" faz isto tudo, mas não quero aqui despi-lo completamente porque acho que as páginas de um livro têm de ser percorridas com uma sensação de novidade, como se de um corpo de um novo amante, ao ser percorrido pela primeira vez, se tratasse - embora já haja suspeitas relativamente ao conteúdo.

 

Escrever isto, recorda-me de uma entrevista de António Lobo Antunes, que vi há uns anos, ele dizia não entender bem o porquê de se falar de livros, achava que isso simplesmente não se deveria fazer. Na altura acabei por concordar, final de contas, por mais que me desdobre em elogios ou críticas, aquele paralelepípedo de papel só será alguma coisa cada vez que for desbravado e cada leitor vai sentir algo de singular, de acordo com as suas vivências e ideias, que me transcende.

 

Mesmo me transcendendo, vou partilhar o que o Rio das Flores me reassegurou: para além das aparências, nada é sólido; ideias e pessoas mudam, sempre; algumas coisas acabam porque outras melhores, mais acertadas, estão para começar; e, principalmente, que os Homens, bem, são apenas homens.

 

Como o período de luto ou de ressaca literária já acabou, iniciei outro, "O Retrato de Dorian Grey" de Oscar Wilde. Talvez com esse escreva uma crítica a sério, talvez não escreva nada. Votem bem!

22
Jan16

A ver: Os despojos do dia


Leonardo Rodrigues

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Ontem foi dia, mais noite, de estar presente na inauguração da mais recente exposição de um grande amigo meu, o fotógrafo Rui Dias Monteiro, intitulada "Os despojos do dia".

 

Embora já conhecesse muito do trabalho do Rui e também já tivesse tido privilégio de caminhar e conversar com ele enquanto fotografava, só agora é que julgo ter entendido verdadeiramente o porquê de ele fotografar o que os outros deixam ficar, os despojos.

 

Ele vê e capta aquilo que nós muitas vezes já não somos capazes de ver, tanto que as coisas se repetem, tanto que as deixamos esquecidas. E, sem lhes dar valor, apelidamo-as de lixo. Isto aplica-se tanto à nossa capital, como ao local onde esta sequência foi capturada, Cabo Verde, como ao mundo.

 

O olhar meditativo do Rui só vem a provar novamente que menos é mais. Ele sabe-o e as suas fotos, na sua simplicidade, e "centralidade" como muito bem disseram, transmitem-no.

 

Enquanto muitos fotógrafos tendem a editar excessivamente os seus trabalhos, este limita-se a fazer pequenas correções de luz, nada mais. Tão simples quanto as coisas.

 

Neste trabalho é de salientar que nada é pousado, afinal de contas, para quê mexer no que tão perfeitamente ocorre por si, como que por vontade própria da natureza?

 

"Os despojos do dia" não pretende ser uma crítica à existência daqueles objetos esquecidos na natureza, é mais um convite a pensá-los doutra forma, a olhá-los com outros olhos: E se os despojos dos nossos dias não fossem apenas lixo, mas, com o passar do tempo houvesse uma fusão e se tonassem ornamentos, quiçá "jóias" da própria natureza?

 

É sem dúvida uma exposição a não perder. Aos interessados, podem visita-lá de terça a sábado, das 14 às 19, na Galeria Alecrim 50. Assim será até dia 5 de Março, pelo que certamente há de encaixar nas vossas agendas.

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