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LEONISMOS

LEONISMOS

17
Out17

As árvores vivem de pé


Leonardo Rodrigues

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A vida real não é um espetáculo de grandes planos e de música cinematográfica. Sinto, vez após vez, que os cenários que se descrevem como dantescos se apresentam assim perante nós. 

Pior, as pessoas que elegemos, sucessivamente, fazem o mesmo. Querem pareceres, relatórios, análises e, se ainda houver dinheiro, um desenho. Depois do frenesim mediático, tudo morre, ano após ano. E com a morte mediática, vem a morte da floresta e das gentes. 

Não temos de ir muito longe nesta curta linha de tempo, a Câmara de Leiria sabia que o pinhal necessitava de limpeza. Creio que tinham deixado para 2018. Agora que sobrou um bocadinho de pinhal, talvez mandem fazer um museu em 2020 - desde que, claro, não disturbe o OE.

A culpa não é exclusivamente da inoperância de quem tem meios e autoridade para atuar. É também das empresas com sede de lucro, de quem não faz nem deixa fazer com os terrenos, de quem não limpa, de quem suja, de quem não quer saber, e de quem acha por bem queimar centenas de anos. Como a mãe de uma amiga diz, "quando a lei é branda o homem é mau".

O eucalipto não tinha de ser um inimigo a abater, se não fosse a espécie predominante. É muito bonito termos meio milhão de proprietários florestais, mas corre mal quando temos menos de 16% de floresta pública. Sabemos que o sobreiro - embora existam espécies melhores - serve de "tampão", por causa da cortiça, mas o pinheiro e eucalipto ganham a discussão económica. 

Não tenho dúvidas de que vamos conseguir replantar, que temos conhecimento que chegue para recuperar, mas tem de haver uma completa reestruturação deste sistema. Não chegam palavras de ação sem a ação. Tal como as doenças, a solução mais eficaz, e barata, é prevenir. Além de ser tempo de punir, é de dar o exemplo. Temos de ir para a rua mostrar descontentamento, é verdade, mas também de sair para cuidar.

E, embora a lei tenha de ser dura lex sed lex, serve apenas de relações públicas, se a consciência de um povo não a acompanhar. Precisamos de uma mudança de consciência, precisamos que Portugal perceba que não comemos graças ao dinheiro dos 2% que a floresta alimenta, mas que 100% respira graças às árvores que, vivendo em pé, sem dias de folga, tornam o nosso ar respirável. 

 

 

12
Out17

Pedi um crédito, e o computador said no


Leonardo Rodrigues

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Ontem foi um dia interessante, de me lembrar de histórias. 

Vou começar por contar uma das piores fases, que nunca encontrei forma de abordar no blog. A vida, com a faculdade, ficou diferente. Por isso, há cerca de dois anos e meio, vendi um computador que me tinha custado mais de mil euros e a máquina fotográfica. A alternativa seria ficar sem casa. Confesso que custou, o valor emocional que atribuía àqueles objetos e toda a situação frágil foi avassaladora. Mas, até ao dia de hoje, sei que fiz a escolha inteligente, ter um teto para me recompor. 

Ontem, vi um computador que queria. E, além de estar a um ótimo preço, imaginem só, havia uma campanha sem juros. Fiz o esforço de entrar num centro comercial para saber como se processava tal milagre, oferecido pela Santa Cetelem. Antes de conseguir chegar concretamente à campanha que queria, tive de recusar veemente dois cartões de crédito. 

Depois, tive de ouvi-la a explicar-me tudo  - por vezes com informação de uma campanha anterior - , como se fosse mesmo muito estúpido e não conseguisse fazer contas. Chegou mesmo a dizer-me, com um tom condescendente, "ainda bem que pergunta, faz muito bem em ler as letras pequeninas, eu também leio sempre", quase que tinha um AVC. Se tratarmos as pessoas como crianças, elas assinam coisas?

Tudo bem, aquilo era rápido, e a proposta de sair com um computador que não sobreaquece e precisa estar ligado à corrente, tornava tudo suportável. A decisão não seria tomada por ela, mas sim por um formulário que preenchi e me bebeu os dados do cartão de cidadão em segundos. No final, o formulário disse-me que não, e ela: "pelo menos o José tentou". Detesto que me tratem por José.

Além disto poder ser uma cena do Little Britan, que celebrizou a expressão, computer says no, por estar tão o perto, mas inacessível, lembrei-me de algo que vi este ano, à porta de um McDonald's em Istambul. 

Um menino sujo, enquanto espancava o vidro, chorava como nunca vi ninguém chorar, para pedir comida. Quase imediatamente a seguir, vinha uma empregada afasta-lo dali, como se fosse um pombo à procura de migalhas. Um contraste chocante, com as pessoas que comiam aquela comida apelativa, num espaço cheio de luz. Era apenas um vidro e uns trocos, mas ditava o que uns e outros podem ter. 

Aquela condescendência toda quase que me magoou, mas obriguei-me, minutos depois, porque há sempre, a ver o outro lado da moeda. 

Não me posso comparar a esse menino, em tão pouco tempo passei a ter uma família que me ama, emprego, férias marcadas, uma casa ótima, e uma dispensa que se compõe sempre. Vou continuar a ter um computador velhinho, é verdade, mas fico sempre com mais do que quando vendi o computador xpto. A felicidade não tem mensalidade. 

 

 
 
 
 
09
Out17

Entrada que pode ser prato principal: Húmus de Brócolos com palitos de cenoura assada


Leonardo Rodrigues

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Mentiria se dissesse que na cozinha não tenho vários ingredientes obrigatórios, quase obsessões. Existem alguns que não combinam juntos, mas há outros que quanto mais juntinhos melhor, o que culmina sempre em algo entre o puré e o húmus. Mentiria mais se dissesse que planeio a maioria das refeições, em vez de criar uma forma de adaptar o que há, ou pode ser comprado na mercearia lá de baixo. E é a grande verdade desta interpretação do húmus. 

 

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Para moer esta combinação, os ingredientes necessários: grão de bico cozido, tomate, cebola e brócolos. O tempero: azeite, vinagre balsâmico, alho, sal, pimenta preta e caril. Para os palitos de cenoura, é só temperar com sal, azeite, pimentão doce, alho e oregãos, e levar ao forno. Para tornar isto digno de almoço, adicionei pão de centeio.

Não gosto de estabelecer regras, especialmente quanto a quantidades. O que se deve almejar sempre é um equilíbrio, tendo em conta a textura que pretendemos e o sabor. Se quiserem fazer isto com mais consistência, podem, por exemplo, retirar o tomate. Se quiserem um sabor mais suave, usar limão em vez de vinagre e retirar o caril. Enfim, uma infinidade de combinações. 

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Espero que o #CHEFLÉO vos tenha conseguido causar salivação, com outra receita vegan. Para não perderem nem uma pitada de sal, o melhor mesmo é ficar atento ao Facebook e Instagram.

 

08
Out17

Panquecas com apenas dois ingredientes: banana e aveia


Leonardo Rodrigues

 

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As refeições vegan, além de não terem de ser pobres em nutrientes, podem ter ainda mais sabor.

Ontem, depois do trabalho e Moda Lisboa, cheguei a casa completamente exausto e com fome. A dispensa estava quase vazia, com uma estranha abundância de banana e aveia.

Pensei logo em panquecas, mas, não havendo leite, estive para desistir da ideia. No entanto, acabei por testar com estes dois ingredientes, ou nunca iria saber.

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Parti a banana, para esmagar ao misturar com a aveia. Depois, juntei à frigideira já aquecida, um creme de cozinhar e distribui a pasta consistente até completar a frigideira. Quando senti que estava a ficar cozida e firme, virei. Diria que todo o processo durou cinco minutos.

Porque chocolate negro - com a maior percentagem de cacau possível - fica bem com tudo, parti em quadradinhos, que se derreteram. Para terminar, nada melhor do que canela.

São mais densas do que as típicas panquecas, e percebo que possam não ser para todos os dentes. Mas, para mim, o resultado não deixa dúvidas, são as melhores e mais simples panquecas que alguma vez fiz. Uma para cada um, acompanhadas de uma bela chávena de chá, foi o suficiente para encerrar a nossa tarde. 

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05
Out17

McDonald's, assim se faz um hambúrguer vegetariano


Leonardo Rodrigues

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Encerrei o meu último dia de praia com uma loucura, fui ao McDonald's testar a alternativa vegetariana aos hambúrgueres de carne e peixe. 

Há cerca de 6 anos que não comprava nada, além de um gelado, num restaurante da marca, devido à minha escolha alimentar. E fiz muito bem. Além da grande quantidade de sal que os produtos têm, este hambúrguer deixa muito a desejar. 

É muito engraçada a expressão que diz algo como: "ir ao McDonald's comer uma salada, é o mesmo do que solicitar a uma profissional do sexo um abraço". Contudo, se esta cadeia quiser captar o interesse deste segmento crescente, necessita de mais e melhores alternativas.

Como muitos dos males vêm por bem, decidi partilhar convosco uma das minhas últimas aventuras culinárias, um hambúrguer de quinoa e grão de bico. Mas claro que não podia ser feito apenas com estes ingredientes. 

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Ingredientes principais: quinoa, grão de bico, cogumelos frescos, cenoura, cebola, tomate, azeitonas pretas e milho doce. Temperos: caril, alho, pimenta preta, salsa, azeite e oregãos frescos.

Modus operandi: Cozer a quinoa, com o dobro de água, até evaporar completamente. Partir cogumelos frescos, cenoura, cebola, tomate em quadrados. Juntar milho doce, azeitonas e a quinoa cozida. Triturar a maior parte desta mistura, colocando uma pequena porção de lado - servirá para dar textura. Com a água bem escorrida, triturar o grão com salsa até ficar numa pasta bastante consistente. Por fim, é só colocar tudo no mesmo recipiente, adicionar os temperos, misturar e moldar os hambúrgueres. Vai ao forno a 180 graus durante sensivelmente meia hora.

Nota: eles ficam ligeiramente húmidos, mas, caso sintam que não tem uma boa consistência, podem sempre adicionar uma farinha à vossa escolha

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Desta vez, e por estar a ter mais atenção ao que como, servi com pão integral biológico do Lidl e uma salada de rúcula, espinafres, tomate e pinhões. 

A receita é versátil e, como tal, podem adaptar a vosso gosto, com os vossos ingredientes preferidos.

 

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05
Out17

Há um chá que realmente ajuda a dormir


Leonardo Rodrigues

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Vidas agitadas equivalem a cabeças agitadas. Infelizmente, levamos muitas vezes a agitação do dia para a cama, tornando-se difícil desligar.

É verdade que existem nas farmácias muitas soluções, umas mais naturais que outras. Em alguns casos, podem até causar habituação. Não é o caso do Valdispert, contudo, para este surtir efeito, há necessidade de tomar vários comprimidos, o que financeiramente não compensa. 

Há cerca de um ano, no ElCorte Inglês, descobri o chá Pukka Night Time. Ao contrário de muitos outros chás, além de flor de aveia, alfazema e camomila, que têm propriedades relaxantes, esta infusão tem o componente ativo do Valdispert, a raiz de valeriana.

Para retirarmos todas as propriedades destas saquetas mágicas, é recomendado infundir durante 15 minutos. Neste momento, este chá, associado aos tampões de cera, é o meu refúgio para noites mais tranquilas, e ininterruptas. O resto da família, excetuando a cadela que só tem crises amorosas passageiras, concorda. 

Por ter todos os componentes produzidos de forma biológica, custa um pouco mais do que o típico chá de supermercado. Feitas as contas, são 20 cêntimos por caneca, o que me parece um pequeno preço a pagar pelo descanso. 

 

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02
Out17

Ontem não deixei para hoje, e fui correr


Leonardo Rodrigues

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Todos os dias deito-me tarde, mesmo tendo de levantar cedo, porque há sempre mais qualquer coisa para fazer. Todos os dias, nas pausas, nos lanches, como algumas coisas que contrariam a alimentação saudável das refeições principais. Todos os dias escolho ver, ler, ou fazer alguma coisa, sem pausar em condições. Todos os dias sento-me mal na cadeira, e queixo-me da escoliose. Todos os dias, digo que não posso fazer exercício porque estou demasiado cansado. 

Não são todos, mas são muitos dias. E isto, percebi eu, é uma roda viva de escolher fazer depois.

Este fim de semana, pesei-me e calculei o meu índice de massa corporal, que dizia: mais 0,04 e o meu peso já não estaria bom. Afinal, a barriga que toda a gente diz que cresceu não é uma brincadeira e as calças não encolheram, fui eu que cresci.

Sim, o desconforto já tinha começado, eu é que não tinha visto, em números, que estava 10 quilos acima do meu peso habitual.  

Ontem, depois da sopa, numa das promessas que me faço, comi os dois últimos quadrados da tablete de chocolate, consciente de que este mês começa algo diferente.

Como é um clássico dizer só mais isto e depois não faço mais, e deixar a responsabilidade para a segunda  que se avizinha stressante, disse na cozinha: Leonardo, deixa-te de tretas - com "m" - e agarrei na minha cadela, e fiz-lhe a vontade de ir correr.  Fizemos 4.5 quilómetros os dois. Eu cheguei morto, a podenga não percebeu o porquê de pararmos. 

Quando voltámos, além de haver uma satisfação imensa em não ter adiado, estava cheio de energia. Fiz os exercícios de Yoga recomendados pela médica, e decidi escrever este post - para publicar hoje.

Dizem-nos toda a vida para não deixar para amanhã o que podemos fazer hoje, mas insistimos que vamos conseguir. E vamos, se fizermos hoje!

 

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27
Set17

Não temos de comprar tudo biológico


Leonardo Rodrigues

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Há uma  consciencialização cada vez maior dos efeitos que a alimentação pode ter na nossa saúde. Sabemos que consumir alimentos processados, com açúcar refinado e gorduras saturadas faz mal, contribuindo para doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes.

Há evidência científica que correlaciona o consumo de alimentos produzidos com pesticidas ao grande C. Acontece que a produção biológica continua a não ser acessível para todos os bolsos. 

No entanto, por ser uma boa tendência, e por haver cada vez mais procura, começa a haver muito mais oferta. O que é bom tanto para a nossa saúde, como para a do nosso planeta. 

Embora nem todos possamos comprar apenas biológico, podemos minimizar a quantidade dos pesticidas com "truques" simples como tirar a casca e lavar os alimentos com vinagre. Ou, se formos mesmo muito sortudos, fazendo crescer a nossa própria comida.

Segundo um estudo da EWG - Enviromental Working Group -, os seguintes alimentos, na sua lista anual, são considerados como mais limpos/seguros, mesmo quando não biológicos: milho doce, abacate, ananás, couve, cebola, ervilhas congeladas, papaia, espargos, mango, beringela, couve flor, meloa, kiwi, mamão e toranja.

Os menores vestígios de pesticidas explicam-se com a forma como crescem, a densidade da casca e a quantidade de pesticidas utilizada para este tipo de cultivo.

Cá em casa, acompanhado a crescente facilidade em adquirir produtos biológicos, uma boa gestão do orçamento e muita atenção aos preços, começamos a conseguir aumentar a fatia de biológicos consumidos, todos os meses. Lembrem-se que tendências de consumo definem o que será a oferta, baixando valores. 

 

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25
Set17

Entrevista a Ricardo Robles, candidato à CML


Leonardo Rodrigues

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Foto: Paulete Matos

 

Numa altura em que a geringonça política provou ser uma máquina que funciona, as eleições autárquicas ganham nova vida. E, por consequência, a mensagem torna-se mais difícil de distinguir, especialmente quando a Assunção troca as roupas de designer e o Mercedes, para se misturar com o povo de calças de ganga e bicicleta. São também lançadas ideias que vão além das 20 estações, por exemplo segregação nas carruagens do metro. Coisas de outros tempos. 

Numa procura por coerência, e por ser o primeiro ano em que vivo as eleições em Lisboa, decidi entrevistar o candidato que apoio, Ricardo Robles, do BE. Nesta entrevista, que pretende ser esclarecedora, o candidato dá-nos a conhecer a visão que tem para a cidade de Lisboa, percorrendo tópicos que são bandeira de campanha: habitação, transportes, precariedade e transparência. Houve ainda tempo para conversarmos sobre direitos, tanto de pessoas como de animais. 

 

Leonardo Rodrigues: Quem é Ricardo Robles, e porque podem os lisboetas confiar em ti?

Ricardo Robles: Nasci em Almada, sou Engenheiro Civil de profissão - especialista em reabilitação e eficiência energética -, activista, estive na fundação do Bloco de Esquerda. Nos últimos quatro anos fui líder da bancada do Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Lisboa. O nosso mandato na Assembleia Municipal provou que o Bloco faz falta também na Câmara, e temos propostas que melhorarão a vida de quem cá vive e de quem cá quer viver. Creio que estes são os principais motivos pelos quais os lisboetas nos devem confiar os seus votos, seja na lista que  encabeço à Câmara Municipal de Lisboa, seja na lista à Assembleia Municipal, seja ainda nas listas de todas as freguesias de Lisboa. 

 

LR: Que rotinas tens, individualmente e em família, quando não estás em campanha para a maior Câmara do país?

RR: As rotinas são semelhantes às da maioria dos lisboetas: trabalho, família, amigos, lazer. Sempre que posso gosto de praticar desporto, sobretudo futebol com os amigos. Na fase da campanha algumas destas coisas ficam adiadas. 

 

LR: Enquanto lisboeta, a vida tem vindo a mudar para melhor ou pior?

RR: Haverá certamente aspetos em que a vida de quem vive em Lisboa - e de quem nos visita, já agora - melhorou, e outros em que piorou. Todos os que, como nós, gostam da democratização do turismo,  de ter uma cidade cosmopolita e aberta ao mundo, sentem que isso foi algo de muito bom para Lisboa. Faltou, no entanto, estar precavido para a outra face da moeda. A vida de quem cá vive piorou bastante no acesso à habitação, pois a procura de Lisboa, conjugada com a política dos Vistos Gold, provocou um aumento dos preços na habitação que, literalmente, expulsa os lisboetas de locais onde antigamente habitavam. A este respeito, não temos como não nos lembrar da Lei dos Despejos, lei essa que tem em Assunção Cristas a sua autora.  A mobilidade em Lisboa, nomeadamente a qualidade dos transportes, está também muito pior. O Governo PSD/CDS desinvestiu no Metro e na Carris para desvalorizar estas empresas públicas, preparando-as para uma entrega a privados. Este desinvestimento - que se deu ao nível de motoristas, comboios/autocarros/ elétricos, nas oficinas etc... - teve um impacto brutal que todos nós sentimos: aumento dos tempos de espera, carruagens e autocarros cheios e uma experiência terrível que todos sentimos no dia-a-dia.

 

LR: No teu entender, qual deverá ser o foco da CML no próximo mandato?

RR: As nossas prioridades estão bem definidas: habitação, transportes, luta contra a precariedade, e, por fim, mas muito importante, transparência. Acrescentando algo ao que já disse sobre habitação e transportes diria o seguinte: na habitação é necessário estancar a venda de património municipal, para que este possa ser colocado no mercado a preços acessíveis. Se tal for feito, não só temos habitação disponível a preços acessíveis, como o mercado poderá ver-se obrigado a baixar os preços que atualmente estão a ser praticados. Quanto aos transportes, bater-nos-emos contra a ideia da linha circular que Fernando Medina quer criar no Metro. Ao invés, a nossa proposta vai no sentido de estender a linha de Metro a zonas que não o têm, e falo da zona ocidental (Campolide, Campo de Ourique, Alcântara, Ajuda e Belém). Queremos tornar ainda Lisboa na cidade precariedade zero, pois não é admissível que a CML não valorize e não dignifique o trabalho. Os falsos recibos verdes têm de terminar, e a CML tem de privilegiar parceiros que respeitem a lei laboral. Quanto à transparência, e assim tenhamos força para tal, iremos pugnar por uma informação completa e exaustiva de todos os negócios que envolvam a CML. O BE, nestes últimos 4 anos, esteve na linha da frente da denúncia de uma série de decisões que nos levantaram dúvidas como p. ex. a adjudicação dos terrenos denominados como triângulo dourado, o conhecido processo do Hospital da Luz. Estas são algumas linhas gerais do nosso programa.

 

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LR: O que pode o Bloco de Esquerda fazer por Lisboa, e que o PS apenas prometeu? 

RR: Esta é uma questão muito importante. O PS está na CML há 10 anos - 8 com maioria absoluta - e há uma série de promessas adiadas. Há exemplos recorrentes, como corredor bus na A5, que todos os actos eleitorais vem à tona, mas que nunca foi cumprido; há exemplos que mostram a incapacidade do PS, como o de terem - e bem - levado a cabo um estudo para ver quantas creches eram necessárias e, depois desse levantamento ter sido feito, apenas terem criado 12 das 60 creches prometidas. Em conclusão, o PS assume-se nestas eleições com um discurso do "agora é que é", mas os lisboetas sabem que se 8 anos de maioria absoluta não tornaram as promessas realidade, não serão mais 4 que o farão. Esta é a prova que as maiorias absolutas, nas Câmaras como no País, não são benéficas para a população.

 

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LR: Antevês uma solução para o caos que diariamente os lisboetas enfrentam com a Carris e o Metro?

RR: Isso dependerá do resultado eleitoral. Se a escolha for dar força ao BE, cremos que é possível voltar a dar dignidade à Carris e ao Metro. Em ambos os casos, será necessário investir e tomar medidas que favoreçam a população. Aproveito para acrescentar mais duas propostas do BE que passam por baixar os preços dos bilhetes, para que seja possível recuperar os 59 milhões de passageiros que os transportes perderam;  e aumentar a frequência dos comboios e das carreiras - neste caso, estudando novas rotas – que é essencial para que as pessoas possam optar por não usar carro. 

 

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LR: O custo no acesso à habituação no concelho de Lisboa continua a ficar mais elevado, quer através do arrendamento quer através da compra. Como se devolve a cidade a quem já não a pode pagar? 

RR: A habitação é um dos maiores problemas em Lisboa. Já tive oportunidade de vos responder a algumas questões quanto a este problema, mas há mais a dizer. A CML tem direito de preferência sobre todas as transações sobre imóveis que sejam realizadas no Município. Este direito tem de ser exercido, para que, posteriormente, a CML possa colocar estas casas no mercado a preços acessíveis. Outra medida que é essencial passa por tornar obrigatório que quando um prédio em propriedade horizontal vai ser construído ou reabilitado, o construtor saiba que tem de deixar uma percentagem de fogos para habitação a custos controlados. Nós defendemos que seja pelo menos de 25%. Exemplificando, se se constrói um prédio com 100 fogos, 25 destes terão de ser reservados para habitação a custos controlados pela CML. Só assim é possível combater os desequilíbrios que temos sentido.

 

LR: O turismo, que tanto contribuí para os bons números da economia, está a mudar as nossas vidas, nem sempre para melhor. Temos de receber menos pessoas ou criar melhores condições para as receber, sem comprometer as de quem pertence à cidade? 

RR: O turismo é bom para a cidade de Lisboa, é bom para os lisboetas e, claro, é bom para quem nos visita pois tem acesso a uma cidade com uma riqueza ímpar, a todos os níveis. O tempo tem dado razão ao BE nesta questão, já que há 4 anos tínhamos a cobrança da taxa turística que é agora cobrada. O problema é que Fernando Medina entregou às entidades que exploram o turismo a gestão da verba que o Município cobra, isto é, tira com uma mão para dar com a outra. A grande diferença é que o BE propõe que a taxa turística sirva para minorar os efeitos do turismo, desde logo servindo para financiar a já referida habitação que será colocada no mercado a preços acessíveis. Propomos ainda que esta taxa turística seja aumentada para 2 euros por noite. 

 

LRMuitos jardins e espaços verdes em Lisboa, fora do sítios que inglês vê, estão entregues à sua sorte. Pode a câmara cuidar de todos?

RR: Pode e deve. É uma obrigação da CML zelar pela sua propriedade. A manutenção de alguns dos espaços verdes passaram para a responsabilidade das juntas de freguesia. Em ambos os casos a manutenção deve ser uma prioridade para que os lisboetas possam usufruir destes espaços.

Fugindo aqui ao âmbito da pergunta, mas uma vez que é colocada a função do Município como zelador do património municipal, queria referir o estado lastimável em que se encontram a esmagadora maioria dos bairros municipais. Temos conhecimento de muitos elevadores que não funcionam - deixando as pessoas de mobilidade reduzida presas em casa ou dependentes de familiares -, pequenos reparos que ficam por fazer, a limpeza nestes bairros é descurada. A CML não pode ser o pior dos senhorios. No outro dia, em visita a um destes bairros, uma senhora contou-me que foi à Gebalis pedir para que esta assumisse a pintura de uma zona da sua casa que estava degradada e aquela empresa disse-lhe que levasse ela as tintas e pintasse. É um caso, como tantos outros, que revela que algo tem de mudar. 

 

LR: Com uma câmara liderada pelo BE, continuaria o Terreiro do Paço a ser cedido à ILGA para o Arraial Pride, nos atuais moldes? 

RR: O Bloco de Esquerda estará, como sempre esteve, na linha da frente no apoio aos direitos LGBTI. Como tal, o BE valoriza todas formas que sirvam para cristalizar estes direitos na nossa sociedade. O Arraial Pride continuará a realizar-se - podendo a CML aprofundar a forma de colaboração, garantindo, p.ex., um protocolo de cedência do espaço por 5 anos -, mantendo-se, igualmente, o Festival Queer, a Marcha do Orgulho LGBTI sendo que, também nestes casos, o caminho é aprofundar formas de colaboração. É importante garantir o apoio da CML às associações que se envolvem na preparação e realização destes eventos.

Todas as formas de combate à descriminação, onde se inclui também, por exemplo,  Festival da Diversidade, contarão com o apoio do Bloco de Esquerda, afinal, esta é uma das nossas matrizes identitárias.

 

LR: Continuam a existir na cidade situações em que grupos LGBTI são vítimas de algum tipo de violência. Pode também uma câmara educar, para promover igualdade entre todos e combater o bullying?

RR: Claro que sim. Sabemos bem que as alterações legislativas são importantes, mas não são suficientes. Há um caminho que começou a ser percorrido, mas que ainda tem estrada para andar. Esperando que todos os tipos de violência sejam julgados e condenados, a CML tem de fazer o que lhe compete para promover a igualdade e os direitos LGBTI. O Bloco de Esquerda defende a abertura de um Centro Municipal de Acolhimento e Cidadania LGBT+. Um espaço que defenda e promova os direitos humanos e que ajude  e albergue vítimas de discriminação e violência, preste apoio social e psicológico e disponibilize aconselhamento jurídico.

 

LR: Em 2017, têm as touradas lugar numa cidade como Lisboa?

RR: Não. Uma CML liderada pelo BE não apoiará qualquer atividade tauromáquica. No nosso programa assumimos explicitamente um compromisso de não autorização de espetáculos com animais. A associação de Turismo de Lisboa, que é presidida pelo presidente da Câmara Municipal, não deve associar-se a espetáculos com animais nem participar na publicitação dos mesmos.

 

LR: Para terminar, com tópico dos animais, a atual câmara parece impotente no que diz respeito a animais sem lar. Que sugeres para melhorar a qualidade destes coabitantes?

RR: Nesta campanha, já tive oportunidade de visitar a Casa dos Animais, o LxCRAS e de intervir em vários debates sobre os direitos dos animais. A Casa dos Animais de Lisboa (CAL), o centro de recolha oficial, é responsabilidade direta da Câmara Municipal. Nos últimos anos estas instalações melhoraram com algumas obras, fruto da pressão cidadã, mas continuam a ser insuficientes para garantir o bem-estar dos animais da nossa cidade. A Casa dos Animais está sobre lotada e fecha as portas quando os munícipes pedem ajuda para que acolha e trate animais. Tal não pode acontecer, pelo que a CAL tem de estar aberta 24 horas por dias, sete dias por semana.

Iremos igualmente lutar por campanhas de esterilização e adopção, sendo que só assim poderemos garantir o bem estar animal, bem como ir diminuindo o número de animais errantes.

Uma palavra final para a figura do/a provedor/a dos animais. Este papel terá de se assumir como verdadeiramente independente e com meios que lhe permitam exercer a sua função. Defendemos também que o/a provedor/a não seja encontrado/a por meio de nomeação política, mas sim através de uma eleição. 

LR: Obrigado!

 

Seja qual for a vossa cor política, votem sempre!

 

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15
Set17

Alzheimer: viver sem a memória de quem somos


Leonardo Rodrigues

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Ter Alzheimer é o mesmo do que viver sem termos bem consciência de quem somos, apenas do que fomos.

Foi isso que senti ao ver a senhora a quem aprendi a chamar de avó, embora não o fosse biologicamente, na minha última visita a casa. Vi-a, sem exagerar, quase diariamente durante 18 anos.

Antes de me mudar, presenciei um momento inicial da sua perda de lucidez, ainda não tinha feito noventa. Estávamos a contar dinheiro e ela encontrou uma moeda estrangeira, fazendo questão de o referir com entusiasmo. Depois, voltámos a contar o dinheiro e, assim que chegámos à tal moeda, aconteceu novamente. Aconteceu uma terceira vez. Coloquei a moeda de lado, e fizemos uma última contagem.

É avassalador ver a nossa avó assim. A senhora que tomou conta de nós, que nos via à distância, que nos contava histórias - que não tivessem de ser censuradas - com tamanha lucidez e detalhe que era o mesmo que recuarmos a outra época, e ver a nossa terra quando tudo era diferente. 

Agora é muito isso que resta, o passado. Estivemos a ver dois dos meus álbuns, mesmo sem que ela tivesse bem a consciência de quem era. Por vezes dizia, este é o Leonardo. Outras, este és tu, não és? E, olha, esta sou eu, verdade? Com uma inocência e doçura nos seus lindos olhos azuis. O seu cabelo cinzento e olhos azuis são coisas que nunca mudaram.

Em vez de estar a reconhecer uma moeda diferente, ela estava a fazer um esforço para conhecer caras que viu durante 50, 20, 30 anos.

E depois lembrei-me que, quando estava no 10º ano, pensei que seria bom escrever um livro sobre a vida daquela Mulher. Mas isso foi impossível, ela não conseguia falar na presença de um gravador ou de um bloco de notas e caneta. E eu nunca tive a memória dela. 

Mas há uma história que, para mim, merece ser partilhada. Quando ela era mais nova, as escolas dos meninos e das meninas eram separadas por alguns quilómetros, naquela terra. E não é que eles não tivessem um olho apurado, tinham mais ainda. Sempre que passavam ao lado da escola, começavam a gritar "Maria Isabel vai casar com o doutor Abel", todos os dias, deixando a minha avó corada. E isso aconteceu. Ela esperou que ele regressasse da tropa, tiveram vários filhos e sempre acolheram toda a gente que por aquela casa passasse. Só a morte os conseguiu separar.

Depois de cuidar de tanta gente, eu inclusive, chegou à altura de cuidarem dela, mesmo que nem sempre saiba o que acontece. Ainda faz ponto cruz, sabe a tabuada, canta as músicas que louvam Salazar e continua a querer ir à missa. Sempre que é fim de semana, e a filha diz que vão à terrinha, vai logo fazer a mala.

E eu despeço-me, sempre consciente de que ela já não sabe quem sou, com memórias que cheiram a bolos, milho e vindimas. 

 

 

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