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LEONISMOS

LEONISMOS

29
Abr17

o Alentejo mata


Leonardo Rodrigues

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Hoje, porque estou novamente no sul, entendi os porquês das gentes destas terras. Ao ver as paisagens e ao saborear as iguarias, sempre me interroguei, sem compreender, acerca da quantidade de suicídios que existem no Alentejo. O canto mais favorecido de Portugal. Se formos para uma zona onde o alcatrão dá lugar a terra batida, apenas com a natureza a ladear-nos, fica mais claro, e escuro. Tudo começa e acaba com o nosso estado de espírito, está certo. Esta terra é como erva, amplifica as emoções, não discriminando entre bom, mau e sórdido. Há uma profunda solidão na paisagem, especialmente nos pedaços de pedra que abundam, anónimos, por aí. Apenas uma parte dos seus corpos espreita o sol. Estando, cada um, desde o começo dos tempos, à espera que as chuvas de inverno deixem os seus tons vários visíveis. Na esperança que, se alguém ali passar, as veja, toque e, com muita sorte, lhes faça confidências. Nesta terra é fácil de percebemos que estamos tão sozinhos e invisíveis como as pedras, por melhores que sejam. Quando estamos sozinhos e transparentes, estamos realmente connosco, o que dói. Sentimos tudo sem compaixão. Apenas as nossas ideias e nós. Nós e as nossas ideias. Nós, as pedras e os sons que falam uma língua estranha. Os caminhos que vão dar aos mesmos sítios e as árvores que não vão a sítio algum. Uma pedra invisível.

27
Abr17

a tiny house é a minha casa do futuro


Leonardo Rodrigues

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Para mim, existem ideias que mudam ao ritmo da luz. Outras que persistem, ficam mais fortes e tornam-se obsessões. O YouTube e a Internet não me têm ajudado com isto. Hoje vou falar-vos de um movimento que, embora tenha ganho força nos últimos anos e conquistado o meu coração, ainda não conquistou Portugal, as Tiny Houses.

Tiny, traduzido, dá conta de algo muito pequeno. É verdade. É igualmente verdade, e bem popular, que menos é mais. O tamanho e quantidade das posses não têm de ser as métricas do sucesso.

Estar na casa dos vinte, com um trabalho que paga assim assim, e ter vontade de ter um espaço próprio, parece uma vontade tola, apenas possível com arrendamento. Assim mo dizem. Acontece que, sempre detestei a ideia de pagar para estar num sítio que não é, nem será, meu. Pior, à mínima falha, deixa de me abrigar. Nas cidades, a maioria está neste barco, enquanto o mercado de arrendamento a preços absurdos prolifera. A alternativa é reduzir.

Reduzir não tem de ser comprometer. Implica apenas que façamos a seguinte questão, de que é que eu preciso para viver bem? Vamos todos dar respostas diferentes. Mas já que aqui estão, partilho as minhas prioridades numa casa. Necessito que esteja termicamente bem isolada e de uma boa exposição solar. Nessa casa, o design tem de ser fluído, com poucas paredes e que a permita ser sustentável. E, por fim, a dita necessita de uma boa cozinha, uma cama enorme, sofá confortável e onde pôr as plantas que tenho acumulado. 

Se ele tiver coragem de o fazer comigo, o sonho terá de se expandir com um roupeiro gigante. Quiçá, por baixo da cama, a qual se chega com uma escada de biblioteca?

A realidade é que estes meus "caprichos" não têm de ocupar mais do que 25m2. Não é necessário. Muito menos que seja apenas uma divisão. Existem formas inteligentes de conseguir ter divisões pequenas e espaçosas. É paradoxal, mas a realidade é que o espaço nas nossas casas encontra-se subaproveitado. Paredes desnecessárias e móveis grandes monofuncionais são dois exemplos. Funcionalidade é a palavra de ordem se quisermos reduzir com elegância no contexto do lar. 

Quando o momento de ter a minha tiny house chegar, confesso que não deverei implementar o conceito num apartamento em Lisboa. Se for viável, deverei comprar um terreno com uma distância financeira de segurança da cidade.

Afinal de contas, começar do zero pode ser mais barato, com opções que vão do contentor marítimo, à casa com rodas, ao eterno pré fabricado. Estas novas e velhas alternativas, assustariam mais se não houvesse criatividade, Internet e empresas como a IKEA.

As tiny houses e a filosofia por detrás das mesmas, por agora, exercem uma influência enorme nos meus leonismos. Mas, como a minha casa está apenas na cabeça, deixo-vos com alguns vídeos aliciantes e convido-vos a imaginar comigo, com exemplos de outros.

Sigam, ainda, o blog no Facebook e Instagram.

Foto: The Little Cabin Company

 

 

23
Abr17

Fui ver o dérbi e ganhei um clube


Leonardo Rodrigues

Duas horas antes, logo após saber que ia ver o meu primeiro jogo de futebol ao vivo, gratuitamente, comecei a escrever este post. O tom era completamente diferente e atribuía uma clara vitória ao Sporting.

Há muito por dizer, mas quero primeiramente referir que apenas ontem interessei-me genuinamente por futebol, além de um ocasional interesse ou outro que pudesse haver por um jogador bem parecido.

Ontem, da fila 23 do estádio de Alvalade, ri, gritei, bati palmas, disse vários palavrões - que costumo só pensar - e arranquei os pêlos da barba porque o cabelo escasseia.

Mais do que as minhas manifestações animais pelo clube do meu mais que tudo, ganhei um clube. Sou do Sporting, aquele clube que possivelmente ainda me fará ser despedido. A experiência ensinou-me que só é fixe ser do Porto ou do Benfica. Especialmente do Benfica.

Como ele diz e bem, é fácil ser dos que ganham, difícil é ser do Sporting e, isso, à sua maneira, é amor. Para ele, isto significa ter prejuízos administrativos com as ações que comprou do Sporting.

Voltemos ao início. Acreditávamos que a sorte do Sporting iria mudar, uma vez que, mesmo através de casa, segundo diz a nossa experiência, consigo fazer ganhar. Vi o jogo de Portugal contra a França e foi o que se viu.

Durante os primeiros minutos a teoria do amuleto pareceu ganhar evidência. Mas claro que nem indo ao estádio consigo realizar os meus milagres. Talvez devesse formar-me n'A Bola, mas vou arriscar.

Não poderia porque, embora o agora meu clube crie oportunidades fantásticas, não as aproveitam. Ainda por cima, pagam dois jogadores, talvez seja o mesmo - ainda não os reconheço - , para fazer  um dos erros que sempre cometi no futebol, olhar para a bola e não lhe tocar. Ocasionalmente, decidem que podem eles fazer milagres sozinhos, num desporto que é coletivo.

Não poderia ganhar por um outro motivo. Os jogadores do Benfica, paralelamente aos treinos convencionais de futebol, estão com certeza a ter aulas de simulação de falta avançada. E isto não me parece ter muito de glorioso.

Dito tudo o que disse, ameaças de morte parecem-me algo precoce para se fazer, sendo que passei a ter clube há menos de um dia e quero ver mais uns jogos.

Ver um jogo de futebol ao vivo é a experiência que, pelo menos durante esta semana, eu estarei a falar e a recomendar todos os dias.

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22
Abr17

Entrevista a Rúben Santos: "tenho receio de não conseguir fazer algo que valha a pena"


Leonardo Rodrigues

Conheci o Rúben pela primeira vez na Feira das Almas. Desde então, fomos por duas vezes colegas de casa. À custa disso, já rimos, choramos e criámos uma das amizades que mais valorizo. Podemos falar, partilhar e teorizar acerca de tudo. Não concordamos com muito, mas não nos censuramos e arranjamos sempre forma de chegar a um consenso. Espero que assim seja sempre. Esta entrevista esteve num ficheiro armazenado na nuvem durante demasiado tempo, porque achava que não saberia fazê-la, mas aqui está o Rúben a partilhar novamente comigo coisas que nem todos sabem, mas que fazem dele quem é. 

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Leonardo Rodrigues: O que respondes a um simples “quem és”?

Rúben Santos: Começa bem. Não terei tão cedo essa resposta. A minha educação moldou-me. Nasci e cresci em Chelas, num bairro social, ao lado havia um bairro de barracas perigoso. Vi muitas coisas e, ao mesmo tempo, tive uma educação bastante libertadora. Saía de casa e só voltava às tantas. Nos fins de semana, só passava as manhãs em casa, voltava para jantar e saía outra vez. Havia alguma supervisão por parte dos meus irmãos. Passava horas a andar de bicicleta, a construir casas em árvores ou em terrenos baldios. Na primária, tive a sorte do ministério da educação implementar um programa educacional experimental, com trabalhos criativos, visitas de estudo quase todas as semanas. Isto levou-me a ter contacto com filmes de Chaplin, por exemplo. Penso que seja daqui que vem a minha veia experimental, de querer ir além. Sou um experimentalista, adoro aprender e estou sempre à procura de algo diferente que me interesse. Acho que isso é procurar-me.

 

LR: Hoje dedicas-te à fotografia em full time, mas antes disso dedicaste 5 anos da tua vida a algo completamente diferente. O que te levou a mudar de rumo?

RS: Sim, antes de estudar e trabalhar em fotografia, estudei 5 anos no IST, de onde saí com um mestrado em Engenharia de Materiais. O sistema de ensino está ultrapassado e, pior que isso, conteve toda a criatividade que foi germinada durante os primeiros anos de vida. Somos obrigados a fazer escolhas com base em nada. Não há contacto com coisas práticas. Os alunos passam horas e horas fechados dentro de salas a consumir informação que alguém escolheu ser importante, quando deviam passar metade desse tempo a fazer algo prático: tirar fotografias, pintar quadros, plantar árvores, construir casas em madeira, um sem número de possibilidades. Ter que escolher uma área, quando se transita do 9º para o 10º não está certo. És muito novo e não fazes a menor ideia de quem és! Podes ser melhor aluno nalgumas disciplinas, mas isso não define quem vais ser. Eu tinha queda para a matemática e físico-química e, portanto, decidi seguir ciências, uma decisão que estava longe do que faço agora. Depois vais para a faculdade e tens que escolher outro curso, com base numa fantasia, porque tens média para o curso ou porque os pais disseram que aquele é o caminho.

 

LR: Porquê a fotografia?

RS: Lembro-me perfeitamente de estar trancado numa cave do IST a polir amostras e começar a chorar. Ainda estava a ultrapassar alguns obstáculos e, se estivesse a fazer alguma coisa que realmente estivesse a gostar, possivelmente isso não teria acontecido. Digo isto porque trabalhei e estudei fotografia ao mesmo tempo, ainda no meio de alguns problemas pessoais, morava praticamente sozinho, pagar o curso e todas as outras despesas e ficava sem dinheiro, mas era feliz, fotografava todos os dias. Ainda hoje não sei se a fotografia será para o resto da minha vida, mas foi uma escolha razoável ter mudado para uma área criativa. Eu pouco conhecia do Rúben criativo. Um dos motivos que me levou a escolher fotografia foi uma experiência de infância. Certa vez, quando o meu pai estava a trabalhar nos Açores, eu e a minha mãe fomos lá ter. Num dos passeios por São Jorge, os meus pais queriam uma fotografia e eu era o único ali. Tirei a minha primeira foto. Tinha uns 5 anos. Penso que essa fotografia ainda existe, tenho que a procurar. Brinquei mais umas vezes com essa máquina e, aos 12 anos, a empresa da minha mãe ofereceu-me a minha primeira máquina analógica! Já não a tenho, mas muito experimentei. Provavelmente foram estes os acontecimentos que me conduziram à fotografia.

 

LR: Muito embora a tua profissão implique que estejas muito tempo atrás da câmara, tu sentes-te igualmente bem do outro lado da lente, frequentemente sem roupa. O que te leva despir para a câmara?

RS: Risos É uma pergunta com a qual ainda me debato. Encontrei, através do facebook, um fotógrafo português que fazia fotografias lindíssimas e, mesmo nesse dia, enviei uma mensagem a pedir-lhe que me fotografasse. Tinha curiosidade. Queria perceber o que era estar sem roupa à frente de uma câmara, queria que o meu corpo se transformasse em algo belo. A primeira vez que realmente reflecti sobre o assunto e escrevi o que me pareceu verdade, foi para a revista Elska. O corpo é o primeiro grande obstáculo para a felicidade e para a liberdade. Ninguém acorda de um dia para o outro a achar que é feio. Alguém to repetiu enquanto crescias, um eco constante em diferentes vozes. Sou gordo. Sou feio. Sou peludo. Há alguém a pendurar adjectivos, como se fossem adereços, e tu aceita-los, talvez de tanto ouvir. O mais irónico é que quando nos referimos ao nosso corpo, usamos um termo possessivo: o meu corpo. Incrível como facilmente desprezamos algo que nos pertence e que conhecemos tão bem. A nudez é o expoente máximo da liberdade. Viver bem com o próprio corpo é o primeiro passo para se viver bem. Por vezes pergunto a amigos se me deixam fotográfa-los. A resposta é negativa e a justificação a mesma, "não me sinto à vontade com o meu corpo". Estar bem comigo, aliado ao meu lado experimental, leva-me a fazer esta série de fotografias.

 

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LR: E isso é sempre bem recebido?

RS: Dei conta de muita desaprovação. Há uns meses atrás senti que fui posto de parte nalgumas ocasiões familiares, um auténtico murro no estômago. Há também quem tenha comentado as fotografias com algo menos positivo e até denunciaram. 

 

LR: Certa vez perguntei-te o que era para ti a arte, e deste-me a resposta mais interessante que ouvi até hoje. Lembras-te?

RS: Sim, lembro-me e é algo que não irei esquecer. Foi num daqueles momentos raros de clarividência em que há um click e tudo faz sentido (a-ha moment). Estava a acabar o curso de fotografia, que foi leccionado por módulos, e aquele era o módulo de fotografia de autor. Foi um dos melhores professores que já tive, notava-se que gostava do que fazia e tinha a preocupação de nos dar bases sólidas para um conhecimento à séria da fotografia como forma de arte. No dia do click, o formador estava a falar de vários fotógrafos, explicando os seus trabalhos e, quando chegou ao artista Todd Hido, percebi tudo. Basicamente, este fotógrafo tinha um fascínio pela linha que separa o que é público do que é privado. É um dos meus fascínios desde miúdo. Recordo-me que todos os sábados à noite, durante o verão, quando regressávamos a pé da casa dos meus tios, às tantas da madrugada, eu olhar para os prédios e ver luzes acessas. Tentava imaginar o que poderia estar a acontecer naquelas casas. Estariam a jogar às cartas? A ver TV? A fazer Sexo? Teriam as luzes sido deixadas acesas sem querer? O fascínio do Todd Hido era o meu fascínio. Eu compreendo-o e não o conheço e tenho a certeza que ele me compreenderia, se me conhecesse.

 

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LR: A vida não tem apenas dessas sensações boas

RS: Infelizmente, não. Pensei que colocar as coisas más em papel fosse mais fácil. Não o é. Perder alguém que te é muito querido é perder uma parte de ti. Nunca se recupera, simplesmente se aprende a viver com menos. A minha mãe faleceu no final de 2007 com cancro. Os meus pais já não viviam juntos. Quando se separaram, eu fiquei com a minha mãe e os meus irmãos mais velhos com o meu pai. A minha vida mudou bastante. Durante três anos morei com a minha irmã, ao fim dos quais decidi ir morar com o meu pai. Morei com ele cerca de quatro meses. Uma noite, a minha madrasta acorda-me aos gritos. Quando cheguei ao quarto dele, ele já não estava. Telefonei ao 112. Não conseguia concentrar-me, chorava compulsivamente, não ouvia nada. A pessoa do outro lado perdeu a calma e gritou: Queres ajudar o teu pai ou não? Disse-me o que fazer para tentar reanimá-lo e desligou o telefone. Eu e o meu pai estávamos sozinhos no quarto, e eu não parava chorar, enquanto pressionava o peito. Não me lembro quando parei, se foi alguém que me parou, se foi à chegada do INEM. Não me lembro.

 

LR: Que perspetiva é que isso te deu da morte?

RS: Da morte não me deu outra perspectiva. Deu-me outra perspectiva da vida. Não sou a mesma pessoa, mudei tanto que já não reconheço a pessoa que fui. A minha mãe tinha um feitio difícil e eu lembro-me de pensar que não queria ser como ela. Era sociável não por querer, dizia o que sentia, sem pensar. Estou cada vez mais parecido com ela, acaba por ser assustador no que me transformei depois dela partir. Não me preocupo muito com o que os outros pensam, também não faço grande reflexão no que digo. Claro que por vezes chego à conclusão que não devia ter feito isto ou dito aquilo, mas afecta-me pouco. Não tenho muito a perder, talvez o meu emprego e algumas pessoas que quero manter perto de mim, mas mesmo isto que referi não posso controlar a 100%. Se perder o emprego, de certeza que haverá outro. Acabei por aceitar-me e viver bem com todas as escolhas que fiz e com todos os percalços do passado.



LR: Nas mudanças profissionais, nos relacionamentos, nas viagens estás sempre à “procura”de alguma coisa. Já sabes o que é isso que tanto procuras?

RS: É bem verdade, mas não sei o que procuro. Sinceramente, começo a compreender que esta busca leva a conhecer-me melhor. Separar aquilo que gosto daquilo que não gosto. Conseguir perceber o que quero fazer e o que não quero fazer. O que realmente faz sentido, do que não faz. Já separo as pessoas também. Felizmente posso escolher com quem me posso dar e estabelecer um relação mais profunda.

 

LR: Algo de que tu falas muito é voltar às origens. Que quer isso dizer?

RS: Acho esta história da cidade um pouco absurda. Cidades gigantes com densidades populacionais enormes não juntaram as pessoas, apenas as estão a afastar (não estou a dizer que o intuito das cidades é juntar as pessoas, mas na minha opinião, seria um benefício). As últimas vezes que tenho tirado férias tem sido para o mais longe e deserto possível. Normalmente, no meio de uma serra ou por aldeias pouco habitadas. Percebi que o contacto com a natureza deixa-me mais optimista, menos ansioso e menos stressado. As pessoas são mais simples, a vida é mais simples, não é preciso muito. Perdeu-se a simplicidade da vida, as pessoas só pensam em comprar uma casa, um carro, ter filhos, criá-los à sua face e mandá-los para a melhor faculdade, ter a casa de férias, trabalhar mais para ganhar mais dinheiro para poder comprar mais coisas. Eu gostava de ver alguém a conseguir colocar essas coisas todas dentro do seu próprio caixão.

 

LR: Fugir da cidade para te dedicares ao teu sonho de voltar às origens. Achas que vai passar de um sonho?

RS: É uma questão que me assombra de vez em quando. Sofro menos quando coloco a hipótese de não ter que ficar para sempre numa cidade. Já pesquisei e há várias formas de conseguir viver numa aldeia ou vila, mas neste momento vou manter-me em cidades.

 

LR: Não gostas de te sentir a envelhecer e só tens 30. Temes a morte?

RS: Sim, tenho receio de não conseguir fazer algo que valha a pena.

 

LR: Achas que a fotografia é aquilo que te vai fazer viver, mesmo depois de já cá não estares?

RS: Bom, gostava de acreditar que sim. Deixar algo que faça sentido e que faça os outros crescer. É isso que me leva a continuar e a fazer coisas. Contudo, não sei se é a fotografia. Talvez faça outra mudança em breve, já estou a precisar.

 

Podem encontrar algum do trabalho do Rúben no seu Instagram, aqui.

 

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21
Abr17

Ser vulnerável numa relação


Leonardo Rodrigues

As emoções que surgem em nós como sendo as piores, as mais arrebatadoras, capazes de desenterrar o que enterrámos bem fundo, podem ser as melhores. E, como tudo, é mais fácil de ver quando acontece com o outro. Não o digo com sadismo. Recentemente a pessoa que mais me importa teve um dia inesperado, aliás, completamente oposto do esperado. Eu sei que tudo depende do poder que concedemos às coisas, mas aquela importava-lhe especialmente. Eu, que acho que tenho sempre alguma coisa para dizer e embora arranje sempre alguma coisa reconfortante, fiquei demasiado self conscious e não tinha as palavras. Queria ajudar sem magoar, então dei por mim a concordar com a história que ele se impunha, sem lhe dizer os clichés necessários. Apercebi-me a tempo que não era necessário dizer nada de maior além de que é ok estar assim e que podia deixar-se estar. Mostrei-me presente e disponível para a vulnerabilidade dele. Estar lá e segurá-lo era tudo o que era necessário naquele momento, só depois é que lhe disse o que era a minha perceção do que estava a acontecer e o porquê de talvez não ser assim tão mau. Primeiro partilhar a dor em silêncio, depois já tinha as palavras. Esse momento de partilha foi muito poderoso para mim e acho que para nós enquanto casal. Dos momentos mais importantes. Termos permissão para sermos tão vulneráveis como momento nos exige, sem filtros, é intenso, mexe-nos por dentro e solidifica-nos. É amor.

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17
Abr17

A Perfeição Existe?


Leonardo Rodrigues

A questão não é nova, mas intemporal, e surge em muitas mesas. 

Foi na semana passada. O jantar ia tão avançado que, no máximo, ainda havia um pouco de gelado por comer. Isto é o mesmo que dizer que as mãos deixaram de segurar talheres para segurar telemóveis. Não é preciso muito para que, se ainda houver conversa, a mesma ter como base o que o visor está a mostrar.

A linha entre evolução do sentido estético, graças ao Instagram, e os rapazes e raparigas que cortam a respiração é ténue. Se a pessoa estiver com menos roupa, mais fácil se torna. 

Não são pessoas quaisquer, têm, além de um estilo de vida fabuloso, um corpo, uma pele e sorrisos que toda a gente parece querer ter. São representações de conceitos de beleza estabelecidos muito exigentes, distantes da maioria das pessoas, mesmo das que cuidam de si. Aí começa a comparação. Comparação com pessoas que talvez não sejam exatamente assim.

E continuamos a alimentar estas ideias diariamente, através da nossa dieta visual, nos media tradicionais, redes sociais, pornografia e publicidade.

Impomos-nos estes padrões, que levam a uma baixa autoestima, indo por vezes a extremos como a anorexia.  Por outro lado, impomos os nossos padrões aos outros, fazendo-os sentirem-se menores, ou maiores. Insatisfação de dois gumes. Nada é suficiente.

O que é feito de se gostar dos je ne sais quoi das pessoas?

Não quero dizer com isto que devemos deixar de ter preferências, cruzar os braços, engordar a ponto de ter problemas de saúde. Não cuidar da nossa higiene, e os piores cenários que vos surgirem. Mas acho que temos de parar de viver para fantasias colocadas em pedestais. Talvez 50% das vezes não tenhamos realmente de Mudar, podemos apenas cuidar mais de nós. 

Certo dia, um amigo disse-me o seguinte, Se estivesses sozinho numa ilha como saberias que o teu pior defeito é um defeito? Talvez nem defeito se tivesse. Tiveram mesmo que mo dizer, Leonardo, o teu nariz é torto. Neste momento é uma situação mais distante. 

Claro que gosto de cuidar de mim e de ter as minhas vaidades. É bom oferecer-me certas coisas. Se alguém reparar é um ponto extra e não tem de ser mais do que isso.

Já ouvi que "demasiado perfeito não existe", com um sorriso matreiro. A realidade é que não pode, para isso era necessário que a perfeição existisse em primeiro lugar.

 

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15
Abr17

Nudista por um dia


Leonardo Rodrigues

Não tenho dúvidas, as motivações para se ir a uma praia de nudismo podem ter uma componente voyeurista e/ou de exibicionismo. E também pode não ter nada a ver com nenhuma das anteriores. Nem tudo tem de ser sexual.

As praias onde é possível praticar nudismo, espero poder escrever isto assim, quase por regra, localizam-se em sítios recônditos, nem sempre de fácil acesso, como a do Meco. Não me refiro à do café, refiro-me à outra. Off the beaten track, significa menos gente e uma natureza menos tocada. Silêncio e pureza. 

Nestes sítios algumas pessoas sentem que podem, literalmente, despir os preconceitos e perder as camadas de conceitos que a sociedade obriga a vestir. E é algo que todos fazemos, mesmo com consciência de que nascemos sem cuecas e que, se a nossa mãe, enquanto adulta respeitável as estivesse a usar, sairíamos com mais dificuldade. 

Ontem à hora de almoço estava a dizer uma coisa sobre o assunto a uns colegas, pela hora do lanche estava a fazer outra totalmente diferente. Surgiu-me na cabeça porque não e, de repente, já não tinha os calções de banho. 

A suspeitar muito desta nova liberdade que me tinha concedido, estar como cheguei ao mundo na rua, decidi voltar-me de barriga para baixo. Afinal de contas, os rabos são socialmente mais aceites do que pilas, da mesma forma que as mamas são mais aceites do que vaginas. Sim, conheço esta última palavra.

Por momentos, abstraí-me das pessoas à minha volta e concentrei-me na novidade que era sentir o sopro do vento e o penetrar dos raios de sol, distribuídos por igual a cada milímetro do meu corpo. Isto com o som da ondulação do mar a preencher-me a cabeça. 

Depois voltei-me e sorri. Era o meu corpo de todos os dias, apenas num cenário diferente. Não estava na sala, no quarto, na casa de banho nem na cozinha. O meu corpo estava tal como era numa praia, a contrastar com a areia e com o mar. Um contraste deveras libertador, elementar e desprovido de conceitos. Foi natural.

Não sei quando voltarei a sentir o impulso de tirar os calções em público, mas confesso que se estiver numa praia onde isso não é pecado, é bem possível que os tire.

 

 

23
Mar17

Vou ao melhor barbeiro de Lisboa, porque mereço


Leonardo Rodrigues

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Todos usamos diferentes escapes para sobreviver as nossas vidas cada vez mais exigentes. Escapadinhas, banhos de imersão, massagens, vinho, dia de folga fora da folga, etc. Eu subscrevo a todas estas técnicas de sobrevivência ninja, mas recentemente descobri um novo método de o fazer, de cuidar de mim, ir ao barbeiro. 

Tem acontecido sempre em dias de folga, que por vezes coincidem com saídas da cidade. Ir ao barbeiro não dá o super poder de sair da cidade, mas isso quase que acontece lá.

Pente 1.5 no cabelo, 4 na barba, corrigir as linhas e dar um jeitinho com a tesoura. São estes os meus pedidos. Depois não tenho de fazer mais nada.

Ter a barba que tenho envolve que todos os dias tenha de a lavar duas vezes, primeiro com o shampoo, depois com o condicionador, pentear, aparar aqui e ali. Dá imenso trabalho, mas, quando cumpro o ritual, estou diferente, sinto-me bonito e confiante, e isso dá-me poder e, confesso, agrada o D

Ir ao barbeiro faz precisamente isso, mas é no dia do mês em que decido que não vou cuidar de ninguém e que vou deixar que cuidem de mim. É o meu Obrigado, Leonardo, por te aturares a ti e aos outros. Além disso, o barbeiro faz um trabalho melhor a deixar a minha barba apresentável. 

Quem tem feito este rico trabalho é Francisco, um dos sócios da Barbearia Carlos, em Alvalade. É daquelas à antiga, irrepreensíveis na arte e no atendimento. Estão lá sempre três senhores, um mais velho do que o outro, mas é pela cadeira do Francisco que toda a gente espera. É com ele que, além do bom trabalho que faz com a nossa penugem, tem uma boa conversa, que pode ir da geografia às suas aspirações no mundo do rock. Nada disto compromete que o brilho dos seus olhos seja maioritariamente obtido com a profissão herdada do pai.

Mesmo que a Av. de Roma não fique no vosso caminho, experimentem uma barbearia tipicamente lisboeta. Não vão querer gastar dez euros noutra coisa. 

22
Mar17

Dia em que vi algodão a cair do céu pela primeira vez


Leonardo Rodrigues

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Foi no mês que passou. Tínhamos acabado a nossa visita à belíssima cidade do Sabugal, onde o ponto alto é mesmo o ponto mais alto, o topo do Castelo das Cinco Quinas, com vistas sobre o Côa. 

Ainda no castelo, depois de uma quase escalada às escuras para chegar ao cimo, começou a chover, o ar ficou mais rápido e frio, e o pensamento de que poderia nevar construiu-se na minha cabeça.

Só verbalizei este meu desejo íntimo de, por uma vez na vida, ver a neve a cair em vez de gelo no chão, quando cheguei ao museu. Era uma ideia que nos deixava a ambos sorridentes. O rapaz que lá trabalhava prontamente nos fechou a boca, explicando que, no Fundão, terra onde se localizava a nossa próxima "casa", a Cerca Design House, não nevava há quase dez anos. Não sei se é necessário deixar por escrito que não gostei deste museu. 

No caminho que se apresentava de condução difícil para o meu ele, entre Google Maps, troca de cabos para carregar as nossas baterias que duram cada vez menos e muito Carpool Karaoke, começámos a ver a chuva a ficar cada vez mais branca, grossa e leve.

Não demorou muito para que sentíssemos a necessidade de encostar. Fui o primeiro a ir para a rua. Sentia e não sentia o frio. É verdadeiramente mágico ver aquilo que é água sólida, tingida de branco, a cair de forma tão leve e graciosa. Ao mais pequeno toque, naquela fase, volta ao seu estado liquido.

Ele filmou e não há margem para dúvidas, de que estava feliz e que, mediante justificação plausível na minha cabeça, faço uma cena, umas mais felizes que outras. 

Ficámos nisto um bom tempo, totalmente alheios aos acidentes e às estradas cortadas, na companhia um do outro, com os nossos momentos de profunda lamechice registados numa dezena de selfies. A ele surgiam memórias de uma Nova Iorque que lhe foi próxima e em mim surgiam emoções por afinidade.

Como o amor e neve não enchem barriga, seguimos viagem meia hora depois. Descongelar foi tão fácil porque no hotel, que se cobria novamente de neve, esperavam-nos com chávenas de chá quente e, por causa da neve, partilhavam o mesmo ar de surpresa.

 

 

19
Mar17

Obrigado


Leonardo Rodrigues

É tudo o que posso dizer após uma semana que, em bom inglês, foi uma emotional rollercoaster. Assim que publiquei o meu testemunho no sábado passado, deixou de ser totalmente meu e dos meus leitores habituais. Com as partilhas das partilhas, acabou por chegar a mais de 15 000 pessoas. Foi avassalador ver o texto que me demorou mais tempo a escrever, por ir a sítios tão escuros, de repente estar nos ecrãs de tanta gente. Expor algo que nunca tivesse verbalizado durante mais de 2 min, para uma sala tão grande, teve também em mim um efeito terapêutico e o corpo foi percorrido com sensações engraçadas de que já não tinha memória. Depois isso deu lugar a uma sensação de bem estar, força, vontade de fazer mais. Escrevi-o porque sei do poder que é ler a história de alguém que passou por algo mau e que agora está bem; porque alguém que faça tais coisas a um ser humano não pode ficar indiferente ao ler os efeitos que têm os seus atos; porque os assuntos precisam sempre de ser relembrados para continuarmos a agir. Li muitas mensagens onde me descreviam coisas que ninguém deveria viver, mães que conseguiram encontrar amor e entendimento e muita gente que apenas quer fazer a coisa certa. Houve quem chorasse, quem enviasse o texto à família e quem o tornasse num tópico de conversa à mesa. É um privilégio escrever e mexer dentro das pessoas. Obrigado por me permitirem fazer isso. A pouco e pouco vou chegarei a todas as mensagens e comentários, até já.

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