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LEONISMOS

LEONISMOS

27
Jun17

Estuda, para não acabares assim


Leonardo Rodrigues

Esta frase foi proferida, de mãe para filha, enquanto apontava para uma colega minha, numa conhecida loja de roupa. A rapariga é minha colega porque tem de trabalhar em dois sítios, já que um trabalho apenas não chega. E não, isto nada tem que ver com o facto de ela não ter estudado, estudou e muito. Seguiu a sua paixão e licenciou-se em terapia da fala. Poderia ter ficado calada, mas escolheu dar mais informação. Explicou que além de não ser a única licenciada na loja, a outra colega estava a terminar a licenciatura em arquitetura, e que o rapaz nos provadores era advogado. A filha não teve remédio senão rir-se da hipocrisia da mãe. Sabem, as profissões e os canudos não nos definem, se é que algum dia o fizeram. Existem aqueles que, devido a um mercado de trabalho não ideal, não podem exercer o que acham ter nascido para fazer. Há quem estude um curso só porque sim, quem não o possa terminar e quem considere que aquilo não é para eles. Os nossos caminhos são todos diferentes. Não têm de ser julgadas por uma profissão, nem pelos números que caem na conta todos os meses. Apenas pelo seu caráter e ações. 

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24
Jun17

O Café do Bairro, os Maricas e a Polícia


Leonardo Rodrigues

Engana-se quem pensa que em Alvalade existem apenas idosos, gentes chiques e os seus cães. Na minha rua, desde que o Café do Bairro reabriu, também existem bêbados com isenção de horário. Estes, noite sim, noite sim senhores, perturbam a vizinhança com a sua voz radiofónica embriagada, risos e conversas com conteúdo de relevância indecifrável.

O bairro e a vizinhança nunca nos deram problemas, pelo contrário. Fiquei especialmente surpreendido com a atitude positiva relativamente à nossa Dóris. Nós damos de volta, acordamos para ajudar a vizinha que não consegue tirar o marido da banheira, mudamos uma lâmpada porque alguém já não consegue ver bem durante o dia e juntamos os cocós do chão.

Ao sermos bons vizinhos, a única coisa que queremos é respeito. Não tendo a possibilidade de dormir há já algum tempo, optámos por chamar a polícia - tal como a dona deste estabelecimento gritou à minha vizinha para fazer. Uma hora depois, a polícia não veio.

Decidimos nós, novamente, pedir silêncio. Eles responderam, mandaram-nos levar aqui e acolá, enquanto "maricas", "com audição sensível", que somos. A vizinha com Parkinson do último andar também tem "uma audição sensível".

No fim de semana passado estivemos na 18ª Marcha e nem um insulto, afinal a homofobia já não vai às nossas marchas. Continua entre nós, nos nossos bairros, nos nossos cafés e nos empregos que chamamos de nossos.

Liguei de novo à polícia, para dizer que uma hora depois já tínhamos sido insultados e que não teria chegado a isso se tivessem vindo. O polícia que me atendeu disse que a viatura tinha sido enviada e pediu desculpa. A viatura fantasma perdeu-se numa viagem que demoraria 5 minutos a fazer.

A vizinhança vai tomar outras medidas connosco, embora tenham medo de represálias. Sempre que alguém nos faz menos merecedores dos nossos direitos, seja porque motivo for, há que ir à luta.  Ter os direitos, leis e estudos escritos não chega. O nosso país ainda arde.

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26
Mai17

Ser Pai (e Mãe) não é fácil


Leonardo Rodrigues

Podem dizer que tenho uma cadela e não uma filha, podem dizer tudo e mais um par de botas velhas. Como diria a minha mãe, só sabe quem passa. Quem vive a experiência. 

Ao longo da minha vida tive muitos animais de estimação, mas tinha-os na minha casa da Madeira. Estava sempre tudo bem, podiam escolher onde dormir, quando ir à casa de banho, comiam de tudo e tinham um sem fim de espaço. A Madeira é efetivamente um jardim com imensas possibilidades. Parecia que se criavam sozinhos com comida e amor. 

Isto é porque estes animais eram um género de sobrinhos. Eu ajudava com isto e aquilo, mas estava mais presente para a brincadeira e os afetos. Agora estou eu e ele na linha da frente, responsáveis por uma vida chamada Dóris. Não é uma sobrinha, é mesmo filha. 

Boletim de vacinas em dia, desparasitação, registo, comida boa, tempo para passear e brincar tudo check. Ontem, mesmo com tudo em check, algo estava errado, acordámos com a sala vomitada e a cozinha com cocó. Ela tentou fazê-lo em dois extremos da casa, pelo que não era uma desobediência, mas uma necessidade enquanto os papás dormiam. 

O passeio da manhã fez-se com diarreia. Quando regressei depois do almoço estava a vomitar água e claramente não tinha comido. Levei-a à rua, mais diarreia. Não queria voltar a entrar no prédio. Quando entrou, pouco tempo depois, começou a ganir e ir para o pé da porta. Lá fui eu de meias e chinelos correr com ela até ao jardim mais próximo. Disse à vizinha que já falava com ela. Isto repetiu-se por mais 3 vezes. 

Entretanto já tinha ligado ao veterinário e enviado fotografias do cocó, o que se revelou tranquilizante. Isto podia estar a acontecer por uma série de motivos. Era muito cedo para alarmismos. Para ajudá-la, deveria apenas moderar o consumo de água e fazer arroz com frango, sem sal. 

Eu não como carne, mas ontem à noite fui comprar peito de frango e lá fiz um prato diferente para cada um, para mim, ele e Dóris. A Dóris foi a única sem apetite. Custou-me imenso ver o cão mais afetuoso e energético que conheço assim. Embrulhei-a numa mantinha e tive a dizer-lhe que estava tudo bem sem saber. 

Hoje acordámos e a taça da "comida da panela" estava vazia. Acabaram-se os cocós moles e estava novamente elétrica. O que ingeriu e que fez mal já está fora dela. Agora vamos continuar atentos, mas isto foi, para mim, um valente susto. Ser pai não é fácil. 

 

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24
Mai17

Salvámos a Dóris Carraça


Leonardo Rodrigues

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Não sei se devo reclamar capacidades premonitórias para mim, que, segundo reza a lenda, correm no sangue da família, mas vou.

Antes da mudança, e sem acreditar que ele algum dia quereria morar comigo, sugeri um cão e mil visitas ao canil. Na casa que chamei minha durante o último ano não era possível. Portanto, ele já sabia que, tal como o meu sistema de cultivo interior, mesmo aos meus cuidados, teria de ficar hospedado na dele. Lá adiou-se e por pouco não esquecia a ideia. 

Há cerca de um mês fomos uns dias para fora, mais precisamente nenhures. Numa das corridas que ele volta e meia me convence a fazer, separámos-nos para eu apanhar uma pinhas para a lareira, o que é como quem diz, descansar sem ser julgado. Quando o avistei novamente não estava sozinho, corria um cão atrás dele. E eu também corri desalmadamente pensado que ele ia ficar sem um bocado. 

Quando lá cheguei deparei-me com a coisa mais querida e inofensiva que alguma vez vi. Deitou-se à primeira festinha. Pensei logo, temos uma cachorrinha.  A amiga que entretanto alcançámos garantiu-me que ele estava rendido ao cão. Não me permiti acreditar. 

A cadela batizada recentemente de Dóris Carraça, embora sedenta de amor, estava suja, magra e, sem exagerar, com dezenas de carraças a devorá-la.

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Seguiu-nos até casa e, mesmo sem termos a certeza de que seria um elemento da família, fomos a um hipermercado, já que as farmácias da terra não tinham nada, comprar uma pipeta de Frontline, shampoo, coleira, trela e muita comida. 

Aproveitámos para passar na polícia e nos bombeiros com uma foto dela para sabermos se tinha sido dada como desaparecida, mas ninguém a parecia ter reclamado.

Comeu alarvamente a comida que lhe fiz, ainda não ama ração nenhuma. De seguida, tomou o que foi claramente o seu primeiro banho e tivemos a cata-la durante a ação do Frontline. O que é certo é que passou a noite à lareira e depois fez da nossa mala uma cama. No regresso, seguiu o carro. Pouco tempo depois, convidámo-la a entrar. 

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Está há um mês connosco, devidamente vacinada e registada. É muito amada por nós e pelas pessoas do bairro. Tem uma sala imensa, a cozinha e a varanda para brincar, e roer enquanto estamos fora. Vai à rua durante várias horas, em três momentos. Não falta abrigo, nem comida nem água. O rabo dela, segundo os indicadores de felicidade dos cães, diz que é uma cadela muito feliz com os novos papás. E nós com ela.

Por favor, não deixem as vidas pelas quais são responsáveis sem um responsável. Nem nesta época de férias nem nunca. Eles só podem contar connosco e não vão sempre encontrar um novo lar.

 

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Antes que o post acabe, a Dóris também foi ao aeroporto para receber o Salvador Sobral. 

 

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20
Mai17

As paredes agora são nossas


Leonardo Rodrigues

A cadela que entrou nas nossas vidas, para ser a nossa versão de filho adotivo, finalmente adormeceu, o que significa que me posso deitar no sofá. Assim foi ontem. Deitei e olhei em frente, e é impossível não reparar no poster emoldurado de um concerto do Rufus Wainwright, algo que me trouxe flashbacks. Claro que não são flashbacks do Rufus, afinal só o vamos ver no fim do mês. São flashbacks da minha vida, tudo o que aconteceu, a um ritmo cada vez mais rápido, até ao momento de agora. Faz-me pensar numa canção triste e melancólica, por vezes poética, que não sei qual é, mas que chega ao refrão e ganha vida, atinge o clímax e está tudo bem. Sinto-me no refrão da minha canção. Existem tantas coisas que desenhei na minha cabeça e que ainda não se materializaram, mas estou, ao fim de muita tentativa e erro, a partilhar a vida com um ele sólido, nas paredes que passaram a ser nossas. Ponderei bem, tinha dúvidas e queria escrever que ainda as tenho, mas tudo parece certo e natural. Nosso. Como se esta canção já estivesse escrita para legendar o meu desenho. 

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18
Mai17

Desculpem-me não ser turco e ter escolhido Lisboa para morar


Leonardo Rodrigues

Com o verão a chegar e muitos dias de férias para gastar, chega a hora de começar a marcar coisas que transcendem o meu orçamento. Um dos pensamentos que mais me dá cabo do orçamento é visitar a família, a casa. Ora, para lá ir não me posso meter num Alfa, nem num Intercidades ou no caos da Rede Expressos. "Casa" é a Madeira e, como tal, preciso de me meter num avião para fazer uma viagem que, comercialmente, não ascende uma hora e meia.  Curiosamente, e com muita sorte, tenho andado a ver viagens para outros destinos e a realidade repete-se. É muitas vezes mais barato, por metade do preço, fazer uma viagem de 5 horas para o Oriente, numa companhia que nos deixa levar bagagem de porão e serve uma refeição quente, do que ir à Madeira, com uma bagagem de mão calculada ao milímetro. Desculpem-me não ser turco e ter escolhido Lisboa para morar. Prometo não o repetir na próxima reencarnação.

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29
Abr17

o Alentejo mata


Leonardo Rodrigues

Hoje, porque estou novamente no sul, entendi os porquês das gentes destas terras. Ao ver as paisagens e ao saborear as iguarias, sempre me interroguei, sem compreender, acerca da quantidade de suicídios que existem no Alentejo. O canto mais favorecido de Portugal. Se formos para uma zona onde o alcatrão dá lugar a terra batida, apenas com a natureza a ladear-nos, fica mais claro, e escuro. Tudo começa e acaba com o nosso estado de espírito, está certo. Esta terra é como erva, amplifica as emoções, não discriminando entre bom, mau e sórdido. Há uma profunda solidão na paisagem, especialmente nos pedaços de pedra que abundam, anónimos, por aí. Apenas uma parte dos seus corpos espreita o sol. Estando, cada um, desde o começo dos tempos, à espera que as chuvas de inverno deixem os seus tons vários visíveis. Na esperança que, se alguém ali passar, as veja, toque e, com muita sorte, lhes faça confidências. Nesta terra é fácil de percebemos que estamos tão sozinhos e invisíveis como as pedras, por melhores que sejam. Quando estamos sozinhos e transparentes, estamos realmente connosco, o que dói. Sentimos tudo sem compaixão. Apenas as nossas ideias e nós. Nós e as nossas ideias. Nós, as pedras e os sons que falam uma língua estranha. Os caminhos que vão dar aos mesmos sítios e as árvores que não vão a sítio algum. Uma pedra invisível.

27
Abr17

a tiny house é a minha casa do futuro


Leonardo Rodrigues

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Para mim, existem ideias que mudam ao ritmo da luz. Outras que persistem, ficam mais fortes e tornam-se obsessões. O YouTube e a Internet não me têm ajudado com isto. Hoje vou falar-vos de um movimento que, embora tenha ganho força nos últimos anos e conquistado o meu coração, ainda não conquistou Portugal, as Tiny Houses.

Tiny, traduzido, dá conta de algo muito pequeno. É verdade. É igualmente verdade, e bem popular, que menos é mais. O tamanho e quantidade das posses não têm de ser as métricas do sucesso.

Estar na casa dos vinte, com um trabalho que paga assim assim, e ter vontade de ter um espaço próprio, parece uma vontade tola, apenas possível com arrendamento. Assim mo dizem. Acontece que, sempre detestei a ideia de pagar para estar num sítio que não é, nem será, meu. Pior, à mínima falha, deixa de me abrigar. Nas cidades, a maioria está neste barco, enquanto o mercado de arrendamento a preços absurdos prolifera. A alternativa é reduzir.

Reduzir não tem de ser comprometer. Implica apenas que façamos a seguinte questão, de que é que eu preciso para viver bem? Vamos todos dar respostas diferentes. Mas já que aqui estão, partilho as minhas prioridades numa casa. Necessito que esteja termicamente bem isolada e de uma boa exposição solar. Nessa casa, o design tem de ser fluído, com poucas paredes e que a permita ser sustentável. E, por fim, a dita necessita de uma boa cozinha, uma cama enorme, sofá confortável e onde pôr as plantas que tenho acumulado. 

Se ele tiver coragem de o fazer comigo, o sonho terá de se expandir com um roupeiro gigante. Quiçá, por baixo da cama, a qual se chega com uma escada de biblioteca?

A realidade é que estes meus "caprichos" não têm de ocupar mais do que 25m2. Não é necessário. Muito menos que seja apenas uma divisão. Existem formas inteligentes de conseguir ter divisões pequenas e espaçosas. É paradoxal, mas a realidade é que o espaço nas nossas casas encontra-se subaproveitado. Paredes desnecessárias e móveis grandes monofuncionais são dois exemplos. Funcionalidade é a palavra de ordem se quisermos reduzir com elegância no contexto do lar. 

Quando o momento de ter a minha tiny house chegar, confesso que não deverei implementar o conceito num apartamento em Lisboa. Se for viável, deverei comprar um terreno com uma distância financeira de segurança da cidade.

Afinal de contas, começar do zero pode ser mais barato, com opções que vão do contentor marítimo, à casa com rodas, ao eterno pré fabricado. Estas novas e velhas alternativas, assustariam mais se não houvesse criatividade, Internet e empresas como a IKEA.

As tiny houses e a filosofia por detrás das mesmas, por agora, exercem uma influência enorme nos meus leonismos. Mas, como a minha casa está apenas na cabeça, deixo-vos com alguns vídeos aliciantes e convido-vos a imaginar comigo, com exemplos de outros.

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Foto: The Little Cabin Company

 

 

23
Abr17

Fui ver o dérbi e ganhei um clube


Leonardo Rodrigues

Duas horas antes, logo após saber que ia ver o meu primeiro jogo de futebol ao vivo, gratuitamente, comecei a escrever este post. O tom era completamente diferente e atribuía uma clara vitória ao Sporting.

Há muito por dizer, mas quero primeiramente referir que apenas ontem interessei-me genuinamente por futebol, além de um ocasional interesse ou outro que pudesse haver por um jogador bem parecido.

Ontem, da fila 23 do estádio de Alvalade, ri, gritei, bati palmas, disse vários palavrões - que costumo só pensar - e arranquei os pêlos da barba porque o cabelo escasseia.

Mais do que as minhas manifestações animais pelo clube do meu mais que tudo, ganhei um clube. Sou do Sporting, aquele clube que possivelmente ainda me fará ser despedido. A experiência ensinou-me que só é fixe ser do Porto ou do Benfica. Especialmente do Benfica.

Como ele diz e bem, é fácil ser dos que ganham, difícil é ser do Sporting e, isso, à sua maneira, é amor. Para ele, isto significa ter prejuízos administrativos com as ações que comprou do Sporting.

Voltemos ao início. Acreditávamos que a sorte do Sporting iria mudar, uma vez que, mesmo através de casa, segundo diz a nossa experiência, consigo fazer ganhar. Vi o jogo de Portugal contra a França e foi o que se viu.

Durante os primeiros minutos a teoria do amuleto pareceu ganhar evidência. Mas claro que nem indo ao estádio consigo realizar os meus milagres. Talvez devesse formar-me n'A Bola, mas vou arriscar.

Não poderia porque, embora o agora meu clube crie oportunidades fantásticas, não as aproveitam. Ainda por cima, pagam dois jogadores, talvez seja o mesmo - ainda não os reconheço - , para fazer  um dos erros que sempre cometi no futebol, olhar para a bola e não lhe tocar. Ocasionalmente, decidem que podem eles fazer milagres sozinhos, num desporto que é coletivo.

Não poderia ganhar por um outro motivo. Os jogadores do Benfica, paralelamente aos treinos convencionais de futebol, estão com certeza a ter aulas de simulação de falta avançada. E isto não me parece ter muito de glorioso.

Dito tudo o que disse, ameaças de morte parecem-me algo precoce para se fazer, sendo que passei a ter clube há menos de um dia e quero ver mais uns jogos.

Ver um jogo de futebol ao vivo é a experiência que, pelo menos durante esta semana, eu estarei a falar e a recomendar todos os dias.

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22
Abr17

Entrevista a Rúben Santos: "tenho receio de não conseguir fazer algo que valha a pena"


Leonardo Rodrigues

Conheci o Rúben pela primeira vez na Feira das Almas. Desde então, fomos por duas vezes colegas de casa. À custa disso, já rimos, choramos e criámos uma das amizades que mais valorizo. Podemos falar, partilhar e teorizar acerca de tudo. Não concordamos com muito, mas não nos censuramos e arranjamos sempre forma de chegar a um consenso. Espero que assim seja sempre. Esta entrevista esteve num ficheiro armazenado na nuvem durante demasiado tempo, porque achava que não saberia fazê-la, mas aqui está o Rúben a partilhar novamente comigo coisas que nem todos sabem, mas que fazem dele quem é. 

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Leonardo Rodrigues: O que respondes a um simples “quem és”?

Rúben Santos: Começa bem. Não terei tão cedo essa resposta. A minha educação moldou-me. Nasci e cresci em Chelas, num bairro social, ao lado havia um bairro de barracas perigoso. Vi muitas coisas e, ao mesmo tempo, tive uma educação bastante libertadora. Saía de casa e só voltava às tantas. Nos fins de semana, só passava as manhãs em casa, voltava para jantar e saía outra vez. Havia alguma supervisão por parte dos meus irmãos. Passava horas a andar de bicicleta, a construir casas em árvores ou em terrenos baldios. Na primária, tive a sorte do ministério da educação implementar um programa educacional experimental, com trabalhos criativos, visitas de estudo quase todas as semanas. Isto levou-me a ter contacto com filmes de Chaplin, por exemplo. Penso que seja daqui que vem a minha veia experimental, de querer ir além. Sou um experimentalista, adoro aprender e estou sempre à procura de algo diferente que me interesse. Acho que isso é procurar-me.

 

LR: Hoje dedicas-te à fotografia em full time, mas antes disso dedicaste 5 anos da tua vida a algo completamente diferente. O que te levou a mudar de rumo?

RS: Sim, antes de estudar e trabalhar em fotografia, estudei 5 anos no IST, de onde saí com um mestrado em Engenharia de Materiais. O sistema de ensino está ultrapassado e, pior que isso, conteve toda a criatividade que foi germinada durante os primeiros anos de vida. Somos obrigados a fazer escolhas com base em nada. Não há contacto com coisas práticas. Os alunos passam horas e horas fechados dentro de salas a consumir informação que alguém escolheu ser importante, quando deviam passar metade desse tempo a fazer algo prático: tirar fotografias, pintar quadros, plantar árvores, construir casas em madeira, um sem número de possibilidades. Ter que escolher uma área, quando se transita do 9º para o 10º não está certo. És muito novo e não fazes a menor ideia de quem és! Podes ser melhor aluno nalgumas disciplinas, mas isso não define quem vais ser. Eu tinha queda para a matemática e físico-química e, portanto, decidi seguir ciências, uma decisão que estava longe do que faço agora. Depois vais para a faculdade e tens que escolher outro curso, com base numa fantasia, porque tens média para o curso ou porque os pais disseram que aquele é o caminho.

 

LR: Porquê a fotografia?

RS: Lembro-me perfeitamente de estar trancado numa cave do IST a polir amostras e começar a chorar. Ainda estava a ultrapassar alguns obstáculos e, se estivesse a fazer alguma coisa que realmente estivesse a gostar, possivelmente isso não teria acontecido. Digo isto porque trabalhei e estudei fotografia ao mesmo tempo, ainda no meio de alguns problemas pessoais, morava praticamente sozinho, pagar o curso e todas as outras despesas e ficava sem dinheiro, mas era feliz, fotografava todos os dias. Ainda hoje não sei se a fotografia será para o resto da minha vida, mas foi uma escolha razoável ter mudado para uma área criativa. Eu pouco conhecia do Rúben criativo. Um dos motivos que me levou a escolher fotografia foi uma experiência de infância. Certa vez, quando o meu pai estava a trabalhar nos Açores, eu e a minha mãe fomos lá ter. Num dos passeios por São Jorge, os meus pais queriam uma fotografia e eu era o único ali. Tirei a minha primeira foto. Tinha uns 5 anos. Penso que essa fotografia ainda existe, tenho que a procurar. Brinquei mais umas vezes com essa máquina e, aos 12 anos, a empresa da minha mãe ofereceu-me a minha primeira máquina analógica! Já não a tenho, mas muito experimentei. Provavelmente foram estes os acontecimentos que me conduziram à fotografia.

 

LR: Muito embora a tua profissão implique que estejas muito tempo atrás da câmara, tu sentes-te igualmente bem do outro lado da lente, frequentemente sem roupa. O que te leva despir para a câmara?

RS: Risos É uma pergunta com a qual ainda me debato. Encontrei, através do facebook, um fotógrafo português que fazia fotografias lindíssimas e, mesmo nesse dia, enviei uma mensagem a pedir-lhe que me fotografasse. Tinha curiosidade. Queria perceber o que era estar sem roupa à frente de uma câmara, queria que o meu corpo se transformasse em algo belo. A primeira vez que realmente reflecti sobre o assunto e escrevi o que me pareceu verdade, foi para a revista Elska. O corpo é o primeiro grande obstáculo para a felicidade e para a liberdade. Ninguém acorda de um dia para o outro a achar que é feio. Alguém to repetiu enquanto crescias, um eco constante em diferentes vozes. Sou gordo. Sou feio. Sou peludo. Há alguém a pendurar adjectivos, como se fossem adereços, e tu aceita-los, talvez de tanto ouvir. O mais irónico é que quando nos referimos ao nosso corpo, usamos um termo possessivo: o meu corpo. Incrível como facilmente desprezamos algo que nos pertence e que conhecemos tão bem. A nudez é o expoente máximo da liberdade. Viver bem com o próprio corpo é o primeiro passo para se viver bem. Por vezes pergunto a amigos se me deixam fotográfa-los. A resposta é negativa e a justificação a mesma, "não me sinto à vontade com o meu corpo". Estar bem comigo, aliado ao meu lado experimental, leva-me a fazer esta série de fotografias.

 

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LR: E isso é sempre bem recebido?

RS: Dei conta de muita desaprovação. Há uns meses atrás senti que fui posto de parte nalgumas ocasiões familiares, um auténtico murro no estômago. Há também quem tenha comentado as fotografias com algo menos positivo e até denunciaram. 

 

LR: Certa vez perguntei-te o que era para ti a arte, e deste-me a resposta mais interessante que ouvi até hoje. Lembras-te?

RS: Sim, lembro-me e é algo que não irei esquecer. Foi num daqueles momentos raros de clarividência em que há um click e tudo faz sentido (a-ha moment). Estava a acabar o curso de fotografia, que foi leccionado por módulos, e aquele era o módulo de fotografia de autor. Foi um dos melhores professores que já tive, notava-se que gostava do que fazia e tinha a preocupação de nos dar bases sólidas para um conhecimento à séria da fotografia como forma de arte. No dia do click, o formador estava a falar de vários fotógrafos, explicando os seus trabalhos e, quando chegou ao artista Todd Hido, percebi tudo. Basicamente, este fotógrafo tinha um fascínio pela linha que separa o que é público do que é privado. É um dos meus fascínios desde miúdo. Recordo-me que todos os sábados à noite, durante o verão, quando regressávamos a pé da casa dos meus tios, às tantas da madrugada, eu olhar para os prédios e ver luzes acessas. Tentava imaginar o que poderia estar a acontecer naquelas casas. Estariam a jogar às cartas? A ver TV? A fazer Sexo? Teriam as luzes sido deixadas acesas sem querer? O fascínio do Todd Hido era o meu fascínio. Eu compreendo-o e não o conheço e tenho a certeza que ele me compreenderia, se me conhecesse.

 

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LR: A vida não tem apenas dessas sensações boas

RS: Infelizmente, não. Pensei que colocar as coisas más em papel fosse mais fácil. Não o é. Perder alguém que te é muito querido é perder uma parte de ti. Nunca se recupera, simplesmente se aprende a viver com menos. A minha mãe faleceu no final de 2007 com cancro. Os meus pais já não viviam juntos. Quando se separaram, eu fiquei com a minha mãe e os meus irmãos mais velhos com o meu pai. A minha vida mudou bastante. Durante três anos morei com a minha irmã, ao fim dos quais decidi ir morar com o meu pai. Morei com ele cerca de quatro meses. Uma noite, a minha madrasta acorda-me aos gritos. Quando cheguei ao quarto dele, ele já não estava. Telefonei ao 112. Não conseguia concentrar-me, chorava compulsivamente, não ouvia nada. A pessoa do outro lado perdeu a calma e gritou: Queres ajudar o teu pai ou não? Disse-me o que fazer para tentar reanimá-lo e desligou o telefone. Eu e o meu pai estávamos sozinhos no quarto, e eu não parava chorar, enquanto pressionava o peito. Não me lembro quando parei, se foi alguém que me parou, se foi à chegada do INEM. Não me lembro.

 

LR: Que perspetiva é que isso te deu da morte?

RS: Da morte não me deu outra perspectiva. Deu-me outra perspectiva da vida. Não sou a mesma pessoa, mudei tanto que já não reconheço a pessoa que fui. A minha mãe tinha um feitio difícil e eu lembro-me de pensar que não queria ser como ela. Era sociável não por querer, dizia o que sentia, sem pensar. Estou cada vez mais parecido com ela, acaba por ser assustador no que me transformei depois dela partir. Não me preocupo muito com o que os outros pensam, também não faço grande reflexão no que digo. Claro que por vezes chego à conclusão que não devia ter feito isto ou dito aquilo, mas afecta-me pouco. Não tenho muito a perder, talvez o meu emprego e algumas pessoas que quero manter perto de mim, mas mesmo isto que referi não posso controlar a 100%. Se perder o emprego, de certeza que haverá outro. Acabei por aceitar-me e viver bem com todas as escolhas que fiz e com todos os percalços do passado.



LR: Nas mudanças profissionais, nos relacionamentos, nas viagens estás sempre à “procura”de alguma coisa. Já sabes o que é isso que tanto procuras?

RS: É bem verdade, mas não sei o que procuro. Sinceramente, começo a compreender que esta busca leva a conhecer-me melhor. Separar aquilo que gosto daquilo que não gosto. Conseguir perceber o que quero fazer e o que não quero fazer. O que realmente faz sentido, do que não faz. Já separo as pessoas também. Felizmente posso escolher com quem me posso dar e estabelecer um relação mais profunda.

 

LR: Algo de que tu falas muito é voltar às origens. Que quer isso dizer?

RS: Acho esta história da cidade um pouco absurda. Cidades gigantes com densidades populacionais enormes não juntaram as pessoas, apenas as estão a afastar (não estou a dizer que o intuito das cidades é juntar as pessoas, mas na minha opinião, seria um benefício). As últimas vezes que tenho tirado férias tem sido para o mais longe e deserto possível. Normalmente, no meio de uma serra ou por aldeias pouco habitadas. Percebi que o contacto com a natureza deixa-me mais optimista, menos ansioso e menos stressado. As pessoas são mais simples, a vida é mais simples, não é preciso muito. Perdeu-se a simplicidade da vida, as pessoas só pensam em comprar uma casa, um carro, ter filhos, criá-los à sua face e mandá-los para a melhor faculdade, ter a casa de férias, trabalhar mais para ganhar mais dinheiro para poder comprar mais coisas. Eu gostava de ver alguém a conseguir colocar essas coisas todas dentro do seu próprio caixão.

 

LR: Fugir da cidade para te dedicares ao teu sonho de voltar às origens. Achas que vai passar de um sonho?

RS: É uma questão que me assombra de vez em quando. Sofro menos quando coloco a hipótese de não ter que ficar para sempre numa cidade. Já pesquisei e há várias formas de conseguir viver numa aldeia ou vila, mas neste momento vou manter-me em cidades.

 

LR: Não gostas de te sentir a envelhecer e só tens 30. Temes a morte?

RS: Sim, tenho receio de não conseguir fazer algo que valha a pena.

 

LR: Achas que a fotografia é aquilo que te vai fazer viver, mesmo depois de já cá não estares?

RS: Bom, gostava de acreditar que sim. Deixar algo que faça sentido e que faça os outros crescer. É isso que me leva a continuar e a fazer coisas. Contudo, não sei se é a fotografia. Talvez faça outra mudança em breve, já estou a precisar.

 

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  36. S
  37. O
  38. N
  39. D